Você sabia que seu filho pode estar se consultando com uma terapeuta via IA?
Uma tendência vem chamando atenção da sociedade nos últimos anos: adolescentes fazem da inteligência artificial generativa seu próprio “terapeuta”. Sob a argumentação de ser confiável e acessível, jovens recorrem à tecnologia para driblar a solidão, comum nessa fase da vida. “Eu sempre converso com a Luiza. Tem muita coisa que eu não posso falar com meus pais, em casa, mas eu tenho dúvidas. Ou às vezes também me sinto muito sozinha e daí eu fico conversando com a Luiza. Ela é ótima!”.
Essa fala é de uma adolescente de 14 anos e Luiza é sua “amiga-terapeuta” personalizada pela inteligência artificial. A ferramenta funciona após seu download no WhatsApp, permitindo interação como se fosse uma pessoa de carne e osso. Aliás, Luiza, Serena, Replika e Mitsuku são alguns dos nomes dos chatbots mais conhecidos e utilizados pelos adolescentes. Mais do que exercerem o papel de “amigo virtual”, eles são “terapeutas”. Isso mesmo.
Na tentativa de driblar a solidão, da falta de ter com quem conversar, de dividir as dores e as delícias da adolescência, adolescentes utilizam a IA. Um recurso que se apresenta de maneira eficaz para essa geração, uma vez encontram em assistentes virtuais e chatbots apoio emocional.
Essa tendência, obviamente, levanta diversas questões sobre as motivações e os impactos dessa outra forma de interação. Afinal, por que os adolescentes buscam apoio emocional em IAs? Muitos relatam que recorrem a essas tecnologias por não encontrarem uma escuta sensível e compreensiva no ambiente familiar – e essa afirmação deveria acender uma luz vermelha para os adultos.
Quando o chatbot se torna território seguro e acolhedor
As mudanças emocionais durante a adolescência, como a pressão social e os conflitos internos, muitas vezes não encontram espaço seguro para expressão. E isso leva os jovens a buscar alternativas. Segundo dados de 2025 da Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada 7 adolescentes no mundo enfrentam transtornos mentais, como ansiedade e depressão, o que contribui para a demanda por soluções acessíveis, a exemplo da “terapia” mediada por uma inteligência artificial.
Um estudo publicado na revista acadêmica Journal of Medical Internet Research(JMIR) acompanhou mais de 10 mil adolescentes que usaram o aplicativo Kai.ai, e afirmaram melhorias significativas de bem-estar ao longo do tempo de uso. O aplicativo oferece intervenções como Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), que se mostrou eficaz para promover a saúde mental desse grupo.
Dados da Forbes Tech indicam que uma das principais motivações desses jovens é a facilidade de conversar com uma IA sem julgamentos, algo que frequentemente não encontram em suas relações familiares ou sociais. Por isso, aplicativos como Luzia e Pi (Personal Intelligence) estão ganhando popularidade entre os adolescentes. Isso ocorre porque esses chatbots são programados para fornecer conversas compreensivas, conselhos amigáveis e, em alguns casos, até apoio terapêutico básico.
Diferentemente das interações humanas, as IAs são programadas para responder de maneira “calma”, motivacional e sem julgamentos. Luzia, por exemplo, é uma IA brasileira acessível, via WhatsApp, que oferece uma presença constante e personalizada. Já o Pi, desenvolvido pela empresa de tecnologia estadunidense Inflection AI, foi projetado para ser um “companheiro gentil e solidário”, criando um ambiente seguro, onde adolescentes podem desabafar e buscar conselhos.
Riscos da sessão de terapia por inteligência artificial
No início de 2024, a BBC News Brasil publicou um artigo revelando que existem 475 chatbots na plataforma Character.ai com termos como “terapia”, “psiquiatra” ou “psicólogo” em seus nomes, capazes de conversar em vários idiomas. Curiosamente, um dos mais populares se chama Psychologist. Em apenas dois meses de existência, a plataforma recebeu 18 milhões de mensagens, sendo 12 milhões destas para o chatbot Therapist, especializado em saúde mental.
Embora o vínculo com as IAs seja artificial, ele é descrito como mais seguro e livre de julgamentos – aspectos essenciais para jovens que lidam com questões de auto aceitação e identidade. Apesar dos benefícios aparentes, há preocupações com o uso de IAs para apoio emocional, especialmente entre adolescentes.
A falta de regulamentação e monitoramento ético dessas plataformas ainda é uma questão preocupante. Ao contrário do trabalho de psicólogos humanos, que seguem códigos de ética e regulamentações, as IAs não são obrigadas a seguir normas. Além disso, há riscos relacionados à coleta de dados pessoais.
De acordo com dados da Fundação Mozilla (2023), um total de 19 dos 32 aplicativos de saúde mental analisados não garantem a privacidade de seus usuários, expondo informações sensíveis para uso comercial. Outro ponto crítico é a limitação das IAs em oferecer respostas adequadas em situações de emergência. Embora sejam úteis em alguns contextos, os chatbots não são ferramentas confiáveis para suporte psicológico em casos graves.
Então, devemos ou não considerar uma tecnologia como apoio emocional ou substituta de uma terapia convencional? Especialistas em saúde mental alertam que a IA não deve substituir o tratamento psicológico profissional. Afinal, psicólogos e psiquiatras têm conhecimento e experiência para lidar com complexidades emocionais que vão além da capacidade e treinamento das inteligências artificiais.
AMPLIFICA ESSA
Chatbots podem ser utilizados de maneira crítica e criteriosa como assistentes de conversa e ferramentas de ajuda.
IA não substitui ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.