Vigorexia: a ditadura do corpo perfeito atinge meninos na adolescência
Musculação, nutrição e até conselhos de vida tornaram-se temas comuns em perfis protagonizados por homens nas redes sociais. Publicações que levantam discussões sobre saúde e estética, mas também sobre padrões de beleza que influenciam meninos adolescentes. E isso atrai um número expressivo de jovens seguidores nas redes sociais.
Fato é que hábitos saudáveis geram padrões estéticos também saudáveis. Mas bastam algumas horas em frente às telas para observar outra lógica quando o assunto é beleza masculina. Atualmente, homens musculosos são os que mais aparecem em postagens sobre estilo de vida, saúde, atividade física e outros assuntos.
Perfis que desconhecem a realidade de meninos que os consideram referências na busca por uma melhor relação com o próprio corpo, e até mesmo na forma como devem lidar com conflitos comuns à adolescência. O buraco no meio do caminho aparece quando a maior parte desses jovens torna-se refém desses padrões estéticos e começa a desenvolver um transtorno dismórfico corporal: a vigorexia.
A insatisfação dos adolescentes com o próprio corpo
Mais comum em homens entre 18 e 35 anos, a vigorexia provoca uma distorção da realidade. Normalmente, a pessoa se vê sem músculos, franzina e fraca, então, deseja ser mais musculosa. Para isso, passa mais horas na academia, em aparelhos com mais carga e adota uma alimentação cada vez mais restrita. Homens que seguem, justamente, perfis de redes sociais responsáveis por dicas de como obter o “corpo perfeito”.
Por um lado, a legitimidade desses influenciadores pode afastar preocupações em relação à desinformação. Afinal, alguns são profissionais, como professores e médicos, com perfis verificados pelo Instagram. Por outro lado, especialistas alertam que esses mesmos conteúdos estão influenciando um público cada vez mais jovem.
Responsáveis pela rede social Instagram têm conhecimento de que a plataforma afeta negativamente a imagem corporal de adolescentes. Isso se dá, principalmente, porque essa rede social é reconhecida como uma poderosa ferramenta de comparação social. Principalmente para adolescentes nascidos entre 2000 e 2010, os chamados “nativos digitais”.
Meninos que nasceram e cresceram em um ambiente totalmente digitalizado lidam com a comparação dentro e fora das telas. Nesse cenário, o bullying ganha força, sobretudo nas redes e em ambientes digitais de alta exposição. São também nesses espaços que se propagam padrões estéticos.
O resultado é um número cada vez maior de meninos com problemas de autoimagem. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2026, adolescentes estão menos satisfeitos em relação ao próprio corpo. Se em 2015, 70,2% dos jovens de 13 a 17 anos estavam satisfeitos ou muito satisfeitos, em 2024, essa taxa caiu para 58%.
Em outras palavras, a adolescência passa a se olhar de maneira mais crítica, com desconforto ou vergonha. Ainda que a insatisfação corporal prevaleça entre as meninas – 36,1%, quase o dobro em comparação aos meninos –, é preciso investigar por quê 18,2% dos garotos sofrem com essa questão.
Efeitos da vigorexia sobre a saúde física e mental
A vigorexia é um problema psicológico que faz com que meninos e homens se enxerguem franzinos e sem músculos. Um transtorno desencadeado pela busca incansável para alcançar um ideal estético. Fundador e diretor de pesquisa do Instituto Papo de Homem, Guilherme Valadares acrescenta que essa valorização dos músculos também está associada a padrões de masculinidade.
Para o médico Wagner Gurgel, psiquiatra da Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq-USP), não seria incorreto afirmar que a busca por um “ideal de beleza” – muitas vezes motivada por conteúdos das redes sociais – está associada ao aparecimento, por exemplo, de transtornos alimentares.
“Ficar confinado e exposto a redes sociais, e a uma cultura de comer ‘corretamente’, bem como buscar saúde ou seguir padrões de beleza leva as pessoas a se engajarem em comportamentos inadequados”, alerta. Anorexia e bulimia estão entre os transtornos alimentares mais observados.
Especialistas explicam que a natureza desses quadros é multifatorial, ou seja, não pode ser atribuída a uma única causa. Além disso, esses transtornos têm relação com pré-disposições de indivíduos em adotar um comportamento alimentar inadequado, por exemplo, questões biológicas ou psicológicas.
Nesse contexto, a preocupação com a imagem corporal tende a exercer grande influência. “Nessa busca por um corpo definido e musculoso, com baixa porcentagem de gordura, pode surgir um comportamento que vai levar a, ou mascarar, algum transtorno alimentar mais grave”, explica Gurgel.
Nesse caso, o médico psiquiatra aponta alguns fatores estressores: “a cultura de dieta, a pressão relacionada à imagem corporal e o próprio engajamento que leva a uma perda de peso mais substancial podem ser o início de uma anorexia nervosa”. Por isso, o tratamento para esse quadro também é multidisciplinar. Ou seja, inclui profissionais dedicados tanto ao cuidado da saúde física quanto da saúde mental.
A responsabilidade de quem está do outro lado das telas
Ortopedista, traumatologista esportivo e médico do esporte, Paulo Muzy produz conteúdo para as redes sociais voltado, principalmente, para atletas e pessoas que buscam o emagrecimento com saúde. Segundo Muzy, como os seguidores o chamam, suas publicações não são direcionadas ao público infantojuvenil, embora saiba que suas postagens sobre musculação, dieta e até conselhos de vida alcançam os adolescentes. O que ele considera uma “responsabilidade incrível”.
No dia a dia do seu consultório, o ortopedista atende majoritariamente pacientes que tiveram complicações causadas por “rotinas, intervenções, condutas e aconselhamentos feitos por médicos, nutricionistas, profissionais de educação física e pessoas sem formação”. Inclusive, alguns desses influenciadores mantêm perfis nas redes sociais.
O trabalho do especialista em medicina esportiva nas redes acabou se tornando um canal para divulgar informações e reflexões. “Eu não falo para as pessoas que elas têm que ser mais ou menos bonitas ou que elas têm que ser mais ou menos magras. O que eu falo é que elas têm que cuidar da saúde. Elas têm todo o direito de buscar aquilo que é a imagem da identidade delas. Só que elas têm o dever de fazer isso de uma forma saudável”, explica.
Para uma abordagem multidisciplinar, a equipe do influenciador conta com profissionais de diversas áreas da saúde, incluindo psicólogos. Neste trabalho em conjunto, percebeu que saúde física e mental nem sempre andam de mãos dadas: “As pessoas começaram a buscar a atividade física por falta de saúde mental. Elas colocavam determinadas expectativas nos exercícios que não faziam sentido”, observa.
Ser forte também é expressar sentimentos
De acordo com a pesquisa O silêncio dos homens (2019), que ouviu 20 mil entrevistados, 73% dos adolescentes de 14 a 17 anos afirmaram ter aprendido, quando menino, que tinham que ser fortes fisicamente. A maioria também disse ter aprendido a não demonstrar fragilidade, e somente 20% tinha exemplos práticos e frequentes de como lidar com as próprias emoções de maneira saudável.
Diante desse cenário, o diretor de pesquisa do Instituto Papo de Homem, Guilherme Valadares, sugere que a pauta da saúde mental seja incorporada inclusive pelos perfis de saúde e estética. “Formações em equilíbrio emocional e em compaixão para homens são coisas que me parecem bem mais carentes. Essas coisas não andam em oposição ao aspecto físico. É maravilhoso quando podemos juntar esses elementos”, defende.
Valadares enfatiza a importância de um olhar aguçado sobre o aspecto emocional da vida de meninos e homens, frequentemente colocado em segundo plano. “Entender com maior profundidade a maneira como a solidão masculina atravessa as gerações atuais de meninos seria uma responsabilidade não só desses influenciadores, mas de todos nós”, complementa.
Especialistas concordam que, nas redes sociais, publicações sobre saúde são importantes, no entanto, devem ser moderadas. “Há uma crescente preocupação dos homens com imagem e estética. Em um primeiro momento, é normal, mas vira um alerta quando se torna uma obsessão”, ressalta Valadares.
Para o psiquiatra Wagner Gurgel, a “cultura da dieta”, por exemplo, encontrada em alguns perfis do Instagram, pode ser deletéria para quem tem predisposição para transtornos alimentares. Por isso, o médico faz uma recomendação aos pais de adolescentes. “Falem abertamente sobre esses conteúdos. Eventualmente, acessem juntos e exerçam uma avaliação crítica do que eles têm visto”, orienta.
AMPLIFICA ESSA
Meninos são influenciados por perfis de redes sociais a seguir dietas, exercícios e estilo de vida para alcançar um determinado padrão estético.
Especialistas alertam para a possibilidade dos adolescentes desenvolverem transtornos alimentares, vigorexia e outras questões de saúde física e mental.