Suicídio é a terceira causa de morte entre jovens. Veja o que dizem especialistas
Alerta: este texto trata de temas como suicídio, sofrimento psíquico e transtornos mentais. Se você precisa de ajuda ou conhece alguém que está precisando, busque ajuda nos contatos ao final deste artigo.
“Na minha geração é comum tentar se matar. Eu tenho amigos que já tentaram. Isso é não é estranho pra gente.” A frase foi dita em março de 2024 por um adolescente à pesquisadora especialista no comportamento adolescente Carolina Delboni e ela reverbera importantes perguntas: como pode uma geração de adolescentes “normalizar” o suicídio? Por que essa geração pensa no suicídio como saída para os problemas da vida? O que será que eles não estão dando conta? Onde pais e educadores estão falhando?
São sempre muitas as questões quando o assunto é suicídio. Buscar respostas e compreensão de algo que parece incompreensível é como encontrar luz no fim do túnel. Mas o tema exige aprofundamento, cuidado e responsabilidade para ser debatido. Assim, mais pessoas podem tomar conhecimento das causas e de como oferecer apoio a adolescentes e jovens que estão por perto.
Um problema multifatorial que precisa ser investigado
O suicídio é a terceira causa de morte entre adolescentes e jovens no Brasil, segundo dados da Fiocruz. Em artigo publicado em fevereiro de 2024, a Fiocruz alertou para um aumento de 6% no suicídio de adolescentes e jovens entre 2011 e 2022. Isso revela que hoje temos uma geração ainda mais exposta a tentativas de suicídio e aumento das práticas de autolesão.
Para a psicóloga e especialista em saúde mental Karen Scavacini, do instituto Vita Alere, a normalização expressa na frase do adolescente, no começo deste texto, pode estar relacionada à exposição constante à violência e ao sofrimento coletivo. Fatores que influenciam a percepção desses jovens frente ao suicídio.
“O suicídio é multifatorial em todos os casos. A violência, o impacto de uma comunicação ou gatilhos que esse adolescente pode enxergar fazem parte desses multifatores que vão ser sociais, culturais, econômicos, psicológicos, psiquiátricos, tecnológicos e situacionais”, esclarece a especialista em saúde mental.
Karen Scavacini também acrescenta que, quando você está muito exposto à violência e ao sofrimento coletivo pode ocorrer o que especialistas chamam de “dessensibilização” em relação ao sofrimento. “A própria normalização do suicídio, em alguns casos, pode ser a romantização do suicídio como saída para essa violência”, explica. Isso acontece porque “quanto mais os jovens são expostos a cenas de tragédia, seja em seu ambiente, na mídia ou no conteúdo que consomem, isso vai trazendo a sensação de que essas questões são comuns, e isso pode diminuir a percepção do valor da vida”, explica a especialista.
Outro dado preocupante levantado pela Fiocruz é o das taxas de notificações por autolesões na faixa etária de 10 a 24, que aumentaram 29% entre 2011 e 2022, no Brasil. O número foi maior que na população em geral, cuja taxa de suicídio teve crescimento médio de 3,7% ao ano, enquanto a taxa de autolesão aumentou 21% neste mesmo período.
Esses resultados foram encontrados na análise de um conjunto de quase um milhão de dados divulgados em estudo publicado, em 2024, na publicação The Lancet Regional Health – Americas. Conceituada revista científica de acesso aberto ao público, desenvolvida pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), em colaboração com pesquisadores de Harvard.
Segundo a especialista do Instituto Vita Alere, a racionalização da violência também afeta a saúde mental dos jovens. Quando a violência é percebida como aceitável ou inevitável, os adolescentes podem ver o suicídio e a autolesão como respostas ao desespero. “Quando você normaliza o comportamento agressivo e dessensibiliza o sofrimento, isso pode aumentar tentativas de suicídio e autolesão”, explica Scavacini.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) recebe milhões de ligações por ano no Brasil, o que indica uma alta demanda por suporte emocional. Só em 2021, o CVV registrou mais de três milhões de atendimentos via telefone, chat, e-mail e presencialmente.
Violência como expressão emocional da vulnerabilidade
De que maneira o suicídio é noticiado e percebido pela sociedade também é outra questão a ser observada, segundo os especialistas. Para a psicóloga e especialista em saúde mental Karen Scavacini, o aumento de casos também está relacionado ao número de jovens que já estão vulneráveis, seja por perdas de amigos ou parentes ou por casos próximos de suicídio.
“Outro ponto importante é que os meninos são frequentemente incentivados a se comunicar através da violência e não pela emoção. Nossa socialização e cultura ainda veem a demonstração de vulnerabilidade como fraqueza, enquanto a agressividade é aceitável ou até esperada. Muitas vezes, a violência é dirigida para fora ou para dentro, e precisamos de muitas mudanças culturais, de justiça e de cuidado para alterar essa dinâmica”, analisa Scavacini.
Para romper com essa naturalização do suicídio entre adolescentes, a psicóloga acredita ser fundamental promover uma abordagem que comece com a conscientização sobre a gravidade do problema e que inclua ações preventivas. “Falar abertamente sobre saúde mental nas escolas é essencial, mas isso deve ser acompanhado por ações concretas que abordem as violências que ocorrem nesses ambientes”, defende.
Iniciativas que podem fazer a diferença
A psicóloga e especialista em saúde mental Karen Scavacini propõe um conjunto de ações amplas, que vão desde a promoção de diálogos até intervenções práticas. Uma “tríade da mudança”, como ela denomina, que inclui: consciência do problema, competência para lidar com ele e diálogo aberto. “Sem essas três dimensões, a mudança não acontece”, ressalta.
Além disso, a especialista explica a importância do treinamento de professores, de campanhas envolvendo pais e comunidades e do desenvolvimento de habilidades socioemocionais na adolescência. “É fundamental ter espaços de apoio e uma rede que inclua profissionais de saúde, educadores e a mídia, para que os jovens saibam que podem buscar ajuda em momentos de crise, e que existem alternativas à violência.”
Projetos como Meninos Também Falam, realizado pelo Instituto Vita Alere, o Espaço SER Casa Matheus Campos, além do curso para educadores Falar Ajuda são exemplos de como é possível avançar em diálogo e informação neste cenário. “É necessário preparar a comunidade para lidar com essas questões e disponibilizar locais de apoio, como o CVV (número 188), o Podefalar.org.br, da UNICEF, e o mapasaudemental.com.br”, conclui Scavacini.
Precisamos devolver aos jovens a capacidade de sonhar
Estamos diante de uma geração vulnerável emocionalmente e com acesso a poucas ferramentas para lidar com as emoções. Jovens com baixas perspectivas de futuro, expostos às violências mais complexas do mundo atual. Tanto que é possível observar na convivência, no dia a dia com eles, a proporção do sofrimento frente às questões cotidianas da vida.
Nunca é demais reforçar: adolescentes precisam de mais afeto, gentileza e cuidado. Eles precisam de amparo, de algo ou alguém que os proteja. E toda a sociedade precisa começar a fazer sua parte.
Reclamar menos da vida, cuidar das nossas questões emocionais, sorrir mais para os filhos, acolher suas emoções e validá-las. Dessa maneira, ajudá-los a construir meios de sustentação das alegrias e das tristezas que atravessam o ser humano.
AMPLIFICA ESSA
Uma adolescência exposta à normalização da violência é uma adolescência em risco.
Falar abertamente sobre saúde mental em casa e na escola é fundamental.
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, procure ajuda.
CVV – Centro de Valorização da Vida
Telefone 188 | Atendimento gratuito 24 horas.
Canal Pode Falar (UNICEF)
Escuta especializada para adolescentes e jovens.
CAPS – Centros de Atenção Psicossocial (SUS)
Atendimento em saúde mental para crianças, adolescentes e adultos.
Mapa da Saúde Mental
Rede de serviços gratuitos e orientações sobre saúde mental.