Solidão: se é uma epidemia mundial, como evitar que adolescentes sofram da doença?
Alerta: este texto trata de temas como suicídio, sofrimento psíquico e transtornos mentais. Se você precisa de ajuda ou conhece alguém que está precisando, busque ajuda nos contatos ao final deste artigo.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a solidão como uma epidemia global, em novembro de 2023. Uma ameaça à saúde física, psicológica e emocional que alcançou a adolescência. Como resultado, o número de transtornos, autolesão e suicídio crescem entre os adolescentes, acendendo um alerta. O que fazer para evitar que o sentimento de solidão seja responsável pelo aumento de casos de sofrimento psíquico entre os jovens?
A solidão tem sido tema recorrente entre diversos especialistas em várias partes do mundo. E uma das principais autoridades em saúde nos Estados Unidos, o médico britânico Vivek Hallegere Murthy, que nomeou e definiu o termo “epidemia da solidão”, acredita que enfrentar essa crise representa um dos maiores desafios desta geração. Entre suas declarações, Murthy sugere que a reconstrução de conexões sociais pode ser um dos caminhos possíveis para reverter esse cenário.
Publicado em 2021, o estudo A pandemia e as sequelas emocionais, dirigido pelo médico Guilherme Polanczyk, professor do departamento de Psiquiatria da Criança e do Adolescente da Universidade de São Paulo (USP), chama atenção para o aumento do sentimento de solidão principalmente entre meninas, desde as restrições impostas pela covid-19.
Observou-se ainda uma correlação entre o aumento do uso das redes sociais e as consequências desse espelhamento de uma falsa realidade. Afinal, as telas vendem a impressão de uma vida feliz, saudável e bem-sucedida, gerando uma frustração com os desafios da vida fora delas.
Fenômeno mundial estudado por especialistas
Para entender melhor a complexidade do assunto, um estudo conduzido pelos neurocientistas John T. Cacioppo e Stephanie Cacioppo, da Universidade de Chicago, já apontava a solidão como uma nova epidemia em meados de 2016. Naquela época, após uma década de pesquisa, os especialistas indicaram que mais de um terço das pessoas em países ocidentais afirmavam se sentir sozinhas.
Com base em 57 estudos e dados fornecidos pela OMS, um artigo publicado em 2022, pelo British Medical Journal (BMJ) também constatou que o sentimento de solidão é uma realidade presente em 113 países. No artigo, os indicadores contemplaram adolescentes (12 a 17 anos) em 77 países, jovens adultos (18 a 29 anos) em 30 países, adultos de meia-idade (30 a 59 anos) em 32 países e adultos mais velhos (>= 60 anos) em 40 países.
No continente asiático, a prevalência combinada da solidão entre os adolescentes variou de 9,2% no Sudeste Asiático a 14,4% na região do Mediterrâneo Oriental. Já nos Estados Unidos, um relatório de 2020, da Universidade de Harvard, mostrou que um em cada três cidadãos dos Estados Unidos relatou sentir solidão frequentemente, sendo 61% jovens adultos. Enquanto no Brasil, uma pesquisa publicada na PubMed em 2015 mostrou que 15% dos estudantes brasileiros, com idades entre 13 e 17 anos, se sentiam solitários por diversas razões.
Difícil segurar essa barra que é se sentir sozinho
Para além de dados e análises, como definir o “sentimento de solidão”? Especialistas descrevem como um sentimento de não pertencimento. A sensação de não ter um lugar de aceitação no mundo. Como aquela impressão de estar deslocado em uma festa, mesmo entre conhecidos.
Um sentimento constante e ininterrupto de estar sozinho, ainda que acompanhado. Ou seja, uma pessoa pode viver em família, em comunidade, em república universitária, em espaços coletivos e cheios e, ainda sim, sentir-se só. Isso prova que uma dificuldade multifatorial de estabelecer relações sociais é o que vai medir o grau do sentimento de solidão de uma pessoa. Não a quantidade de gente ao seu redor.
Pessoas sozinhas podem conviver muito bem com a solitude – “a glória de estar sozinho”, definição atribuída ao teólogo e filósofo Paul Tillich. Mas o ser humano é uma espécie que não nasceu para viver sozinha ou fora de relações sociais. Somos seres gregários, ou seja, vivemos em comunidade. Quem confirma é o médico Drauzio Varella, no podcast Tantos Tempos(2023), em entrevista à jornalista Maria Cristina Poli. “Estou convencido de que é muito importante você evitar a solidão”, disse.
O médico ainda chamou atenção para os impactos à saúde física e mental provocados pelo atual quadro mundial de solidão. “Hoje a gente sabe que as pessoas solitárias têm 28% a mais de ataques cardíacos e 30% a mais de diabete. O número de acidentes vasculares cerebrais aumentou muito, e elas têm uma vida mais curta também. Ou seja, é multifatorial. Então, eu procuro manter as minhas amizades e cultivá-las, porque amigo dá trabalho”, disse Drauzio Varella no podcast.
Especialistas em saúde mental complementam: o período de isolamento social provocado pela pandemia de covid-19 foi, particularmente, desafiador para os adolescentes, uma vez que suas rotinas de estudo e lazer foram completamente modificadas. Isso intensificou as fragilidades que existiam antes da pandemia, provocando uma maior falta de conexão social, portanto, maior sentimento de solidão.
A diferença entre solidão saudável e crônica
Antes de medidas de enfrentamento, é importante investigar o tipo de solidão que os adolescentes experimentam. Em alguns casos, pode ser um sentimento temporário que faz parte do processo de autoconhecimento. Em outros, pode ser mais preocupante, exigindo ajuda. E é deste que estamos falando.
A psicanalista Maria Cristina Labate Mantovanini, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBPSp), explica que “existe um tipo de solidão que é necessária, que acompanha o adolescente enquanto ele busca construir sua identidade, e esse é um processo individual”. No entanto, a psicanalista complementa que a natureza gregária nos adolescentes se faz presente. É ela que permite que eles criem grupos para se desenvolverem, para construírem identidades e aprenderem a se separar dos pais.
Em relação à solidão crônica, Mantovanini prefere analisar o fenômeno através das lentes da sociologia e da antropologia, em vez de se ater apenas à psicanálise ou às questões emocionais. Diante disso, ela ressalta que vivemos em uma sociedade extremamente individualista, onde cada pessoa está imersa em sua própria “bolha”, seja no smartphone ou no notebook. Ou seja, redes sociais, videogames e aplicativos de mensagens também podem contribuir para a solidão e para a chamada desconexão social.
Segundo a psicanalista, por trás das telas, os adolescentes sentem a ilusão de estarem protegidos, evitando a necessidade de enfrentar situações presenciais. “Nas telas, eles podem expressar seus pensamentos sem consequências, pois não estão cara a cara com os outros. Isso lhes dá a liberdade de falar impulsivamente, sem reflexão”, explica.
Mais do que liberdade, essa relação com o ambiente digital não lhes dá contorno. Ou seja, não traz a sensação exata do que é viver em sociedade e experimentar as consequências dos próprios atos. Dessa forma, as redes sociais podem amplificar as idealizações que os adolescentes já têm.
E isso leva alguns a enfrentar dificuldades na transição do mundo virtual para o real, especialmente quando o que encontram pela frente não corresponde às suas idealizações. Consequentemente, meninos e meninas podem enfrentar o isolamento e o sentimento de solidão.
O adolescente existe na relação com o outro
É importante não esquecermos que o adolescente se constitui a partir da relação com o outro. Esse vínculo é crucial para todo processo de desenvolvimento e amadurecimento do sistema psicoemocional de maneira saudável.
No consultório da psicanalista Maria Cristina Labate Mantovanini, os adolescentes expressam com frequência a busca por grupos de pertencimento. Eles formam bandas, grupos de teatro e clubes escolares como maneira de se conectar. Porém, a necessidade de compreensão dentro desses grupos pode disputar com a impulsividade característica dos adolescentes.
“As emoções dos adolescentes não são estáveis. Eles podem se adaptar rapidamente ou rejeitar algo rapidamente. O que faz com que uma decepção possa ser superada em pouco tempo ou vivida com uma intensidade que pode parecer desproporcional”, esclarece a psicanalista.
Dor é dor, não importa o tamanho
Aristóteles, filósofo grego, afirmava que o ser humano é um ser social. Ele dizia também que a solidão não era humana. E se voltarmos à história cristã da humanidade, a narrativa é de que Deus criou Eva para que Adão não vivesse sozinho. Mas o fato é que, desde que o mundo é mundo, a solidão mostra-se presente.
O grande problema é que esse sentimento não só se tornou uma doença, como assumiu a forma de uma epidemia, que se alastra mundialmente em tempos de grande necessidade de cuidados com a saúde mental. E isso requer da sociedade, outro olhar. Não se trata apenas de teorizar sobre as relações sociais dos adolescentes e a necessidade que eles têm de estabelecê-las até como forma de prevenção à solidão.
A questão é: como se relacionar com os adolescentes. Pode parecer um desafio, mas é importante que pais e/ou responsáveis legais sejam capazes de escutá-los para compreendê-los e, a partir daí, ajudá-los. Mantovanini acredita que a primeira etapa para lidar com adolescentes não é entrar em conflito com eles, mas buscar uma aproximação.
É fundamental que essa abordagem inclua o respeito e que se reconheça as dores e as preocupações desses jovens, em vez de minimizá-las. Nenhuma dor pode ser tratada como fútil.
Possíveis caminhos para ajudar os adolescentes
A psicanalista Maria Cristina Labate Mantovanini entende que para os pais, essa pode ser uma tarefa difícil. Afinal, ninguém quer ver um filho sofrer e, por isso, a tendência dos pais é querer resolver imediatamente o problema. “Embora a gente saiba que essa é uma fase, o adolescente não tem essa perspectiva. Portanto, pais, professores e responsáveis devem se esforçar para entender a angústia que os adolescentes sentem”, aconselha.
Para isso, a especialista indica a importância de ouvir, validar as emoções e criar espaço para que os adolescentes expressem seus medos, dores, frustrações e sentimentos de alegria. Mantovanini acredita que projetos coletivos sociais, artísticos e culturais podem ser grandes aliados para derrubar as quatro paredes do isolamento.
Ou seja, os adolescentes precisam de projetos com os quais possam se identificar e sentir que são parte de algo maior. Em uma sociedade cada vez mais narcisista, na qual o individualismo dita as regras, esses projetos podem, sim, oferecer um antídoto para a solidão.
AMPLIFICA ESSA
É normal sentir-se, às vezes, sozinho. Mas quando a solidão é recorrente e gera um sofrimento psíquico, cuidados e rede de apoio precisam entrar em cena.
Adolescência requer espaço, escuta e validação dos sentimentos pelos adultos para que haja acolhimento e não isolamento.
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, procure ajuda.
CVV – Centro de Valorização da Vida
Telefone 188 | Atendimento gratuito 24 horas.
Canal Pode Falar (UNICEF)
Escuta especializada para adolescentes e jovens.
CAPS – Centros de Atenção Psicossocial (SUS)
Atendimento em saúde mental para crianças, adolescentes e adultos.
Mapa da Saúde Mental
Rede de serviços gratuitos e orientações sobre saúde mental.