Saúde mental na adolescência: reconhecendo a diferença entre tristeza e depressão
Alerta: este texto trata de temas como suicídio, sofrimento psíquico e transtornos mentais. Se você precisa de ajuda ou conhece alguém que está precisando, busque ajuda nos contatos ao final deste artigo.
Muito se fala sobre saúde mental, mas pouco se sabe o que esse termo quer dizer. Afinal, como distinguir sentimento de transtorno? Como reconhecer as dores da adolescência? Especialistas indicam alguns sinais para prestarmos atenção.
A saúde mental ganhou manchetes em diferentes veículos de comunicação e rodas de debate público, principalmente durante a pandemia de covid-19. Depois de um período crítico de isolamento social, esse aspecto da saúde se tornou tão importante quanto a saúde física.
Já parou para pensar que não cuidamos da cabeça – ou do sistema psicoemocional – da mesma forma que cuidamos do corpo? Se nem os adultos conseguem assimilar a importância do cuidado com a saúde mental, crianças e adolescentes tampouco compartilharão essa preocupação.
No entanto, o Brasil é o segundo país do mundo com maior índice de adultos diagnosticados com burnout (esgotamento mental). Então, como podem esses mesmos adultos dar conta de cuidar e educar seus filhos de maneira saudável, quando eles próprios não estão?
Por um desenvolvimento saudável da adolescência
Os índices de transtornos mentais sobem entre adultos e pela primeira vez, entre crianças e adolescentes. Na última década, houve um expressivo aumento nos níveis de ansiedade, depressão, automutilação e suicídio de meninos e meninas. Em resposta, a campanha Setembro Amarelo se tornou uma referência global para promover a prevenção do suicídio e o bem-estar mental da população.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil apresenta a maior prevalência de depressão na América Latina e a segunda maior nas Américas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Estima-se que cerca de 12 milhões de pessoas no país estejam enfrentando algum tipo de transtorno mental.
Diante desse contexto, especialistas ressaltam a importância da conexão entre bons hábitos e equilíbrio emocional para uma vida saudável. Afinal, quando se fala em saúde mental, a OMS a define como um estado de bem-estar em que a pessoa reconhece suas próprias habilidades e consegue lidar de forma harmoniosa com o estresse, as mudanças e os desafios da vida.
Os adolescentes estão incluídos nessa realidade. Durante essa fase, ocorrem múltiplas mudanças físicas, emocionais e sociais que podem deixá-los mais vulneráveis a problemas de saúde mental. Por isso, é essencial buscar estratégias diárias que promovam o bem-estar psicológico e contribuam para o desenvolvimento saudável desse adolescente.
Uma enquete realizada em maio de 2022 pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), revelou que metade dos adolescentes brasileiros já sentiu a necessidade de buscar ajuda relacionada à saúde mental. A pesquisa foi feita por meio da plataforma U-Report e contou com a participação de mais de 7,7 mil adolescentes e jovens de todo o Brasil, entre 15 e 19 anos.
O levantamento ainda indicou que 50% dos participantes não tinham conhecimento de serviços ou profissionais dedicados a apoiar adolescentes na área de saúde mental. Quando questionados sobre seus sentimentos predominantes, 35% dos adolescentes e jovens responderam “ansiedade”. Outros 11% disseram estar “preocupados consigo”, 9% “indiferentes” e 8% “deprimidos”.
Como pais, responsáveis legais e educadores podem discernir que tipo de questão o adolescente está enfrentando? É apenas um período de tristeza ou ele realmente está deprimido? A resposta está na observação diária e no diálogo. Para os próprios adolescentes, a chave está no autoconhecimento, uma vez que existe uma linha tênue entre essas duas experiências, que embora sejam distintas, podem causar confusão.
Iniciativas de acolhimento e apoio para o adolescente
Nicolle, 16 anos, compartilhou que durante a pandemia, se sentiu profundamente abalada e sem esperança em relação ao futuro. A estudante acredita que pode ter passado por um período de tristeza mais profunda. “Eu não tinha ânimo e não conseguia fazer o básico. Tinha dificuldade de concentração. Eu percebi isso em mim e em meus colegas mais próximos”, recorda.
No caso da jovem, o retorno às aulas gerou um sentimento de estranheza. Como se ela nunca tivesse frequentado a escola antes. “Eu senti muita pressão. Perdi um ano de aula, então me senti muito cobrada”, disse a adolescente, que encontrou apoio emocional no Pró-Saber, organização social que desenvolve programas inovadores em educação para crianças e adolescentes.
Jéssyca, 17 anos, também aluna do Pró-Saber, experimentou um declínio em seu bem-estar emocional durante a pandemia e teve dificuldades nos relacionamentos com as pessoas. “Depois de um tempo, comecei a pensar demais e acabei ficando mal por coisas que nem sequer havia percebido em mim. A falta de contato com as pessoas, além da minha família, também trouxe dificuldades para me relacionar com outras pessoas, especialmente agora, após o retorno às aulas”, disse a jovem.
Ambas as adolescentes trazem exemplos do que experimentaram durante a pandemia de covid-19, período que acentuou o número de transtornos nessa idade. A interrupção da rotina escolar durante o isolamento social também afetou a qualidade de vida das pessoas, de maneira geral. Especialmente, aqueles que vivem em comunidades carentes nos países em desenvolvimento.
De acordo com o relatório Situação Mundial da Infância(2021), publicado pela UNICEF, uma em cada sete crianças e jovens, entre 10 e 19 anos, foi diagnosticada com algum transtorno mental. Segundo a psicóloga Leila Salomão, os problemas de saúde mental já existiam antes da pandemia, mas os transtornos foram agravados devido ao afastamento dos adolescentes da escola e da rede de apoio que ela oferece. “Muitos enfrentaram medo, falta de aprendizado e tiveram crises de ansiedade, angústia e desânimo durante o período”, relata.
Quanto à expressão dos sentimentos, a psicóloga sublinhou que esse comportamento varia entre os adolescentes. “Alguns se fecham quando confrontados com críticas ou cobranças, enquanto outros podem buscar ajuda em professores, orientadores e colegas”, explica a psicóloga.
Distinguir tristeza de depressão na adolescência
O psiquiatra e psicoterapeuta Mauro Victor de Medeiros, do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), explica que, ao contrário da tristeza, que é temporária, a depressão é um estado emocional que pode perdurar por longos períodos. “A depressão implica uma mudança na linha de base emocional da pessoa. Ela é acompanhada pela falta de interesse, falta de vontade, motivação reduzida e perda de prazer, também conhecida como anedonia”, esclarece.
Além disso, o psiquiatra explica que a depressão “envolve alterações vegetativas, como distúrbios do sono, apetite (aumento ou diminuição) e alterações na motricidade, ou seja, a pessoa fica mais lenta, ela também apresenta sintomas psicossomáticos, como dores e desconforto corporal”. O psiquiatra ressalta que na depressão também ocorrem alterações cognitivas, incluindo perda de foco, dificuldade de concentração, prejuízos na memória e um padrão de pensamento pessimista e desesperançoso.
Tudo isso pode levar a pensamentos de morte e, por vezes, até tentativas de suicídio. “Há uma falta de perspectiva de que as coisas possam dar certo, além de um pensamento negativo sobre si mesmo, como a desqualificação em relação aos traços físicos, potencialidades, características de personalidade e quanto à própria valorização”, alerta o especialista.
Mudanças comportamentais e biológicas são normais
Professora e psicóloga da USP, Leila Salomão lembra que a puberdade traz muitas mudanças hormonais e comportamentais, mas quando é relatado um sofrimento constante e acentuado, é preciso atenção. “Começa com a questão biológica, que traz as mudanças no corpo, como os caracteres sexuais secundários. Os meninos mudam a voz, ficam com o nariz maior, têm acne, e as meninas podem ganhar peso. Depois, essas mudanças tendem a se normalizar. No entanto, o problema real surge quando todas essas mudanças vêm acompanhadas de sinais e sintomas preocupantes”, explica.
No caso da depressão, há um prejuízo provocado pela tristeza somada à perda de funcionalidade. “Enquanto na tristeza, a pessoa consegue continuar desempenhando suas atividades escolares, na depressão, ela perde a capacidade de ter um bom desempenho na escola. As notas diminuem, ela se isola socialmente, fica no quarto, não quer sair, deixa de comer e de cuidar de si mesma”, exemplifica o psiquiatra Mauro Victor de Medeiros.
Como pais, responsáveis e escola podem ajudar?
A psicóloga Leila Salomão ressalta que o melhor caminho é a escuta, a conversa e o apoio aos adolescentes. “Observamos uma crescente preocupação por parte dos pais, embora muitos não consigam oferecer o apoio necessário por conta da sobrecarga de trabalho ou por seus problemas pessoais”, observa.
Para o psiquiatra Mauro Victor de Medeiros, se há suspeita de depressão, os pais devem acolher o adolescente, estabelecer um canal de comunicação aberto e ampliar a rede de apoio dentro da família, na escola e em outros ambientes frequentados pelo adolescente. É comum que os adolescentes com transtornos psiquiátricos abandonem a escola entre outras coisas, segundo o especialista.
Por isso, Medeiros defende que ter uma rede de apoio que inclua familiares, educadores e uma equipe de saúde mental pode ser uma saída eficaz. “Materiais de apoio e reuniões online com os pedagogos da escola também podem ajudar nesse processo de transição. O ideal é que, inicialmente, o adolescente retome as aulas sem a pressão das provas e com trabalhos adaptados”, aconselha.
O segundo passo, orienta o psiquiatra, é o encaminhamento para tratamento médico. “Isso envolve uma avaliação e um tratamento específico que inclui, principalmente, psicoterapia, atividade física e outras interações sociais para que o adolescente desenvolva suas potencialidades. Se a depressão for de moderada à grave, pode-se considerar o uso de medicamentos”, acrescenta.
Outros comportamentos que podem chamar atenção, como irritabilidade e agitação excessivas, podem ser sinais de ansiedade e depressão, de acordo com a psicóloga Leila Salomão. “Muitas vezes, a criança ou o adolescente não manifesta sua tristeza da mesma maneira que um adulto. Ela pode demonstrar que tem depressão por meio de irritação e, às vezes, até agressão”, destaca.
Sendo assim, a psicóloga recomenda que os pais estejam sempre atentos e procurem compreender, conversar e passar mais tempo com os filhos a fim de entender se o problema se trata de tristeza ou se há indícios de depressão. “É importante que os pais reduzam o tempo gasto nas telas e dediquem mais atenção aos seus filhos. Se eles encontrarem dificuldades, que não hesitem em buscar ajuda como em grupos de apoio. Essas redes de suporte facilitam a comunicação e a compreensão”, sugere Salomão.
AMPLIFICA ESSA
A puberdade traz muitas mudanças hormonais e comportamentais, mas quando o sofrimento emocional torna-se recorrente e interfere no dia a dia, é preciso buscar ajuda.
Família, amigos, escola e profissionais da saúde devem entrar em campo para oferecer suporte, acolhimento e escuta aos adolescentes.
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, procure ajuda.
CVV – Centro de Valorização da Vida
Telefone 188 | Atendimento gratuito 24 horas.
Canal Pode Falar (UNICEF)
Escuta especializada para adolescentes e jovens.
CAPS – Centros de Atenção Psicossocial (SUS)
Atendimento em saúde mental para crianças, adolescentes e adultos.
Mapa da Saúde Mental
Rede de serviços gratuitos e orientações sobre saúde mental.