Sociedade e Comportamento

Sabia que conviver com adolescentes pode te ajudar a recuperar a curiosidade?

Publicado em: 22/09/2025
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Este é um texto em defesa da adolescência.

Apesar de muitas vezes estar associada a preocupações, dúvidas e angústias para famílias e educadores, a adolescência também é uma das fases mais vibrantes da vida. Ela é divertida, criativa, cheia de descobertas. Conviver com adolescentes, direta ou indiretamente, pode ser desafiador, ao mesmo tempo em que é uma oportunidade de enxergar o mundo em movimento.

Talvez um dos maiores problemas da forma como olhamos para a adolescência seja o excesso de atenção aos riscos e a falta de foco às potências. Falamos sobre conflitos, inseguranças e dificuldades. Mas falamos menos sobre curiosidade, criatividade, participação social e capacidade de transformação.

Segundo o estudo Curiosity in Childhood and Adolescence – What Can We Learn From the Brain?, de Matthias J. Gruber (Cardiff University, Reino Unido) e Yana Fandakova (Max Planck Institute for Human Development, Alemanha), curiosidade e surpresa têm efeitos positivos sobre aprendizagem e memória. Isso sugere que ambientes ricos em estímulos, como aqueles criados pelos adolescentes, podem ativar nossa curiosidade sobre diversos assuntos e possibilidades.

Adultos, no entanto, tendem a rotular adolescentes com pressa, como “chatos”, “monossilábicos”, “preguiçosos” ou “rebeldes demais”. O juízo rápido costuma esconder algo mais profundo. Afinal, raramente nos dispomos a aprender sobre a adolescência e a compreender sua cultura, suas linguagens e seus códigos – desde músicas e séries aos memes e modos de produzir sentido.

Olhar para a adolescência com curiosidade significa reconhecê-la como ela é: uma temporada de mudança intensa, com identidade própria, em que o cérebro e as circunstâncias sociais empurram os jovens para fora do piloto automático.

Afinal, como o corpo experimenta a adolescência?

Do ponto de vista do desenvolvimento, a adolescência não é um “buraco” entre a infância e a vida adulta; é um período de reorganização neurológica e socioemocional. O córtex pré-frontal, região responsável pelo planejamento, julgamento e controle de impulsos, é uma das últimas a amadurecer – frequentemente apenas na casa dos 20 e poucos anos. Enquanto os sistemas ligados à busca de recompensa e à emoção já estão acelerados.

O resultado é um descompasso funcional: mais sensibilidade ao novo e às emoções intensas, só que com ferramentas inacabadas para regulá-las. Isso não é um “defeito de fábrica”. É biologia do desenvolvimento e ajuda a explicar comportamentos que os adultos costumam interpretar apenas como “teimosia” ou “drama”.

Pressão social bagunça fase de aprendizagem e descobertas

Nos últimos anos, as métricas de desempenho escolar coexistem com a vitrine permanente das redes sociais. A comparação incessante produz ansiedade e vergonha corporal. A incerteza econômica também empurra parte dos jovens para a desistência e evasão escolar.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 18,5% dos jovens de 15 a 29 anos estavam fora da escola e do trabalho em 2024. A taxa de escolarização entre adolescentes de 15 a 17 anos chegou a 93,4%, mas as desigualdades persistem e a recuperação pós-pandemia de covid-19 está longe de ser concluída.

No campo da saúde mental, os sinais de alerta são globais e locais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos conviva com algum transtorno mental. E o suicídio está entre as principais causas de morte nessa faixa etária. No Brasil, estudo da Fiocruz, divulgado em 2024, indica que as taxas de suicídio entre jovens cresceram cerca de 6% ao ano na última década, e as notificações de autolesão também aumentaram.

A violência digital se tornou um capítulo obrigatório nessa conversa. Publicada em 2024, uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com o IBGE apontou que 13,2% dos estudantes entre 13 e 17 anos relataram ter sofrido cyberbullying.

Outro recorte grave foi apontado pelo governo federal, que registrou crescimento das denúncias de violência sexual online contra crianças e adolescentes entre 2022 e 2023. Em resposta, o Ministério da Educação recomenda estratégias permanentes de prevenção.

Cultura adolescente não é perfumaria

Cultura adolescente é infraestrutura de pertencimento e linguagem. Desqualificá-la quebra pontes. Julgar cala; escutar aproxima. A crítica permanente “você não fala” ou “você só fica no celular” produz silêncio e afastamento. Envolver adolescentes nas decisões de família, da escola e dos territórios não é um “mimo”. É condição de saúde e pertencimento.

Também é preciso reconhecer que parte do sofrimento adolescente diz menos sobre eles e mais sobre o mundo que construímos. Desigualdade, racismo, sexismo e pressão por desempenho atravessam a experiência do crescer hoje. Tanto que essa geração mostra-se menos engajada com a vida pública.

Projeção feita pelo Instituto Lamparina e Movimento Girl Up Brasil, com base nos dados mensais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 2026 vai ser o ano com menos participação de jovens eleitores. Entre 1,44 milhão e 1,6 milhão de jovens de 16 e 17 anos deveriam se cadastrar para votar. No entanto, apenas 27,6% da população de adolescentes no país irão às urnas, percentual abaixo dos registrados em 2014 (33,7%), 2018 (31%) e 2022 (41,2%).

Qual a responsabilidade dos adultos?

Diante desses desafios, os adultos precisam cuidar da adolescência. Afinal, são jovens que nos obrigam a atualizar códigos, a aprender a língua do presente e a não ficar parado no tempo. Eles nos ensinam, sobretudo, a não perder a capacidade de acreditar que mudanças são possíveis. E nos ajudam a recuperar a curiosidade e aprender a rir mais de si.

Conviver com um adolescente é ser confrontado por perguntas desconfortáveis, mas necessárias. É ter alguém lembrando que normalidade não é sinônimo de justiça, que a vida pode ser diferente e que é legítimo não aceitar tudo o que está posto.

Reconhecer isso também é reconhecer que a adolescência é uma força de transformação social. Uma força que pede menos rótulos e mais realidade. Biologia em construção, pressões sociais, desejo de pertencimento e potência criativa convivem no mesmo corpo. Tudo ao mesmo tempo agora.

Para os adultos, o desafio é de escuta e responsabilidade. Ainda é preciso oferecer ambientes seguros, previsíveis e participativos, nos quais adolescentes possam errar, pensar, sentir e aprender com autonomia, mas também com suporte. E essa continua sendo uma tarefa urgente.

Adolescentes nos lembram que a vida não é estática, mas movimento. Eles são a prova viva de que o futuro está sendo construído e de que, se tivermos a coragem de escutá-los, talvez possamos reaprender com eles a sonhar, acreditar e transformar o mundo. Sempre com mais gentileza e afeto.

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Quando convivemos com adolescentes, recuperamos a capacidade de sonhar, acreditar e transformar o mundo.

Envolver adolescentes nas decisões da família, da escola e dos territórios é uma condição de saúde e pertencimento.