Racismo na infância, é possível combatê-lo?
Adultos querem respostas mágicas. Procuram em livros e manuais soluções objetivas, simples e rápidas de como fazer isso ou aquilo. Mas esquecem que educar uma criança exige alguns pré-requisitos básicos. O primeiro deles é entender que cada pessoa é única e as respostas padrão dos manuais, muitas vezes, não se aplicam ao seu filho. Outro pré-requisito é entender que educar também significa autoeducação. Então, como criar crianças livres de preconceitos e racismo?
De antemão, é preciso entender de onde vem o seu preconceito, o seu racismo. Ninguém nasce racista. Ensinam-se as crianças a serem racistas e preconceituosas. Crianças não nascem julgando o outro pela cor da pele. São os adultos próximos, e o meio onde elas vivem, que as ensinam.
Filósofo e educador francês, Henri Wallon defende disse em sua teoria de desenvolvimento da criança que o processo de evolução depende tanto do biológico do sujeito, quanto do ambiente onde ele está inserido. Por isso, quando crianças crescem em um meio onde quem é negro é “culpado” e “violento”, elas crescem com uma crença: a de que ser negro tem menos valor do que ser branco.
A luta antirracista no país atravessa séculos, é diária e está presente no cotidiano de 213, 4 milhões de brasileiros, de acordo com números do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar de grandes avanços dessa luta, principalmente nas últimas duas décadas, por quê ainda não temos uma infância livre de racismo e preconceito?
Transformações estruturais na educação podem mudar a infância e, consequentemente, mudar a realidade daqui para frente. Para isso, a UNICEF lançou a campanha Por uma Infância sem Racismo e faz um alerta sobre os impactos na vida de milhões de crianças e adolescentes brasileiros. A campanha propõe que cada um incorpore pelo menos uma ação de mudança no cotidiano.
Em entrevista, a comunicadora Deh Bastos, idealizadora do projeto Criando Crianças Pretas reflete sobre as raízes do racismo já na infância e apresenta maneiras de enfrentá-lo.
Por que é importante falar sobre racismo com as crianças?
Deh Bastos:As crianças naturalizam as cores desde muito pequenas. Elas entendem que o sol é amarelo, o céu é azul e que as pessoas negras estão sempre em posições subservientes. Ninguém nasce racista, mas o racismo no Brasil é um aprendizado que acontece já na infância.
Dá pra falar de racismo sem falar de dor com as crianças?
Deh Bastos: Eu sempre digo que cada família conhece a sua criança. A melhor forma é conversar sobre tudo respeitando a criança e seu entendimento. O que é possível fazer na prática é dar às crianças boas referências, não permitir que elas normatizem as pessoas negras somente com imagens ruins e violentas.
O que deve ser falado?
Deh Bastos: As famílias precisam entender como falar com a sua criança, dentro do que já é interesse dela. Criar suas próprias narrativas para falar de desigualdades, privilégios, injustiças e de como as oportunidades não são iguais para todos. Convocar as crianças brancas para combater o racismo, para olhar para as pessoas negras com outra referência, com dignidade e admiração.
Como reagir quando a criança sofre racismo?
Deh Bastos:As crianças pretas precisam de fortalecimento da autoestima, precisam de empoderamento de suas potências, precisam saber que o problema “não é ela” e sim a sociedade estruturalmente racista em que vivemos. Precisamos, acima de tudo, de um lugar seguro de escuta. É preciso que a família esteja preparada para acolher essa criança quando ela sofrer racismo na escola, por exemplo.
Racismo e preconceito, normalmente, acontecem dentro de casa. Por que?
Deh Bastos: O silêncio também é racismo. Muitas famílias acreditam que se não falarem sobre o assunto não terão que lidar com as consequências, o que é um erro enorme, porque o racismo não é uma opinião. O racismo é um sistema social de opressão que funciona como uma engrenagem. Enquanto a gente não tomar para si a responsabilidade de combater e mudar a forma como aprendemos e ensinamos, a engrenagem continuará intacta.
Como podemos mudar esse cenário? Deh Bastos: Entender que é um problema de todos e reconhecer os privilégios. Tudo isso buscando conhecimento sobre o assunto. Muita gente que se propõe a falar sobre o assunto não estuda sobre essas questões. As crianças negras precisam de paz. Precisam poder viver com alegria e precisam sonhar. A gente só consegue sonhar com o que enxerga, e para muitas crianças pretas, a realidade as impede de sonhar. Elas precisam ser fortalecidas, precisam ser empoderadas, precisam de escuta, acolhimento e paz.
Quais necessidades das crianças não estamos ouvindo?
Deh Bastos: É preciso fortalecer a autoestima estética e a intelectual. Precisam de segurança e escuta porque o racismo é complexo e muitas crianças acham que o problema é com elas. Se sentem feias, rejeitadas e não conseguem entender que isso é um problema social. E ainda sofrem, muitas vezes, a pressão da família de que precisam ser duas vezes melhores.
Quais sequelas deixa o racismo?
Deh Bastos: O racismo desumaniza as pessoas negras, nos torna socialmente invisíveis. Quantas vezes você passou por alguma pessoa negra em posição de serviço de base e sequer a cumprimentou? Sequer perguntou qual era seu nome. Como respeitar, consumir o conhecimento de pessoas que você não enxerga?
Qual o papel das escolas na desconstrução do racismo?
Deh Bastos: Essa é a motivação de todo o meu trabalho. A maior parte das pessoas negras descobre o racismo na escola. O ambiente da escola pode ser cruel com as crianças negras e as escolas precisam se responsabilizar. É preciso professores, coordenadores e diretores negros. É preciso que a Lei 10.639/2003 seja cumprida. É preciso que o material didático contemple a lei e que haja um protocolo de ações quando acontecem casos de racismo na escola.
Para onde você leva o projeto Criando Crianças Pretas?
Deh Bastos: A iniciativa é de comunicação antirracista, então vou a qualquer lugar para promover e mediar diálogos que levam à conscientização de que precisamos agir. Vou a escolas e empresas para falar dessas questões, aproximando as pessoas do assunto. Sinto que um dos maiores desafios para o antirracismo é a negação de que nossa sociedade é estruturalmente racista. Para esse combate, acredito no poder de transformação da comunicação.
Já observou mudanças?
Deh Bastos: Eu acredito que toda mudança começa com o incômodo. Sou otimista ao olhar para o passado e reconhecer as conquistas que já temos graças a quem está nessa luta contra o racismo há muitos anos. São muitos os ativistas e pensadores pretos que passaram a vida toda com essas pautas É preciso enaltecê-los e continuar lutando. Acredito também que a conscientização é um caminho sem volta, quanto mais nos comunicarmos sobre isso, mais chances de progressos.
O racismo é diário. Qual a nossa responsabilidade no cotidiano?
Deh Bastos: O racismo não é um episódio, nem manifestação do ódio ou opinião. O racismo é uma engrenagem que funciona intacta e continuamente. Cada pessoa faz parte dessa manutenção para que o racismo continue operando na forma como aprendemos, como vivenciamos e pior, como estamos ensinando a próxima geração. Não há outra forma se não por meio da educação. É preciso ler a respeito, ler autores e autoras negras. É preciso querer aprender mais.
AMPLIFICA ESSA
Ninguém nasce racista, mas o racismo no Brasil é ensinado já na infância.
As famílias precisam falar a respeito e a escola precisa combater o racismo por meio do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, e de protocolo de ações de enfrentamento.