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Quer saber por que adolescentes usam a IA como confidentes?

Publicado em: 01/09/2025
Tempo de Leitura: 9 minutos e 22 segundos
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adolescência adolescente chatbots educação digital inteligência artificial prevenção suicídio redes sociais

Alerta: este texto trata de temas como suicídio, sofrimento psíquico e transtornos mentais. Se você precisa de ajuda ou conhece alguém que está precisando, busque ajuda nos contatos ao final deste artigo.

Em agosto de 2025, os pais do adolescente estadunidense Adam Raine, 16 anos, entraram com um processo contra a empresa OpenAI pela morte do filho. A família descobriu que o menino mantinha conversas com o chatbot, com o qual falava sobre tristeza, depressão, sentido da vida e maneiras de tirar a própria vida.

Foi em conversas e confidências com a plataforma de inteligência artificial generativa que o adolescente expôs suas dores, dúvidas e angústias. No chatbot, ele buscou aconselhamento e também planejou o suicídio. No início, a IA o encorajou a pensar sobre as coisas boas da vida, foi “simpático” e “carinhoso”, como programado para ser. A máquina ainda o encorajou a buscar ajuda. No entanto, quando Adam Raine solicitou formas de cometer suicídio, o chatbot trouxe respostas, assim como também é programado a fazer.

Segundo o psiquiatra estadunidense Bradley Stein, essa tecnologia pode avaliar respostas de ideação suicida. Por isso, o especialista observa a IA como um recurso capaz de ajudar crianças e adolescentes a lidar com questões emocionais. Porém, ao detectar questões mais graves, como no caso de Adam, essa ferramenta ainda precisa ser treinada e configurada para não fornecer informações de práticas suicidas. Isso prova que confiar na IA sem ressalvas é um erro.

Sendo assim, como nos proteger de uma tecnologia programada para ser atenciosa e treinada para agradar seu usuário? Se adultos deixam-se seduzir por essa ferramenta, que dirá adolescentes em plena formação? Ainda que a IA não seja um consultório clínico de psicólogos ou terapeutas, um a cada 10 brasileiros já recorreu ao chatbots para desabafar, pedir conselhos ou falar de assuntos pessoais, de acordo com estudo da agência Talk Inc., divulgado em 2024.

Nos Estados Unidos, o relatório o Uso de IA por Pré-adolescentes e Adolescentes,feito pela Common Sense Media, e divulgado em 2026, apontou que 72% dos adolescentes do país já conversaram com a IA como se fosse alguém de confiança, e 52% afirmaram ser usuários regulares. Mas por que tantos adolescentes estão recorrendo à inteligência artificial para conversar?

Questionado com esse prompt, o chatbot responde: “Evito discordar; evito confrontar. Sou treinado para corrigir com delicadeza, o que conforta”. O fato é que entre algumas motivações para esse uso excessivo estão: disponibilidade contínua; fornecimento de respostas não julgadoras; e personalização do “jeito de falar”, que reduz o custo emocional de pedir ajuda, especialmente, em temas íntimos.

Jovens buscam no acolhimento sintético a falta do colo  presencial  

Seres humanos precisam de conforto emocional e talvez esta seja a pista para compreender o que tantos adolescentes buscam no chatbot. Ao questionar a IA sobre os riscos de utilizá-la como terapia, o chatbot respondeu: “A IA não lê sinais não verbais, nem tem supervisão clínica. Pode validar crenças equivocadas, postergar a busca por ajuda humana e estimular a dependência”.

Portanto, é arriscado adotar a simulação de um tratamento pela ferramenta em vez de buscar profissionais. A própria IA descreve esse risco: “Não substituo profissionais, não faço diagnóstico e não tenho sigilo clínico. Posso acolher, oferecer informação de qualidade e orientar próximos passos. Diante de crise ou sofrimento persistente, o caminho certo é o atendimento humano”.
No entanto, ao questionarmos adolescentes sobre as motivações para usar uma inteligência artificial como companhia e confidente, a resposta é mais complexa. A estudante Luiza, de 16 anos, disse que recorre ao chatbot para falar sobre assuntos íntimos. “Tem coisas que não quero que minhas amigas saibam e sei que ali é um espaço seguro. Ninguém vai ficar sabendo das minhas coisas.”

Será que esse espaço é, de fato, seguro? A adolescente acredita que sim. “Ali tenho certeza de que nada do que eu falar vai virar bullying”, responde. Além disso, a estudante acredita que naquele espaço, “ninguém vai tirar sarro de mim, fora que também não sou julgada e, às vezes, eu queria poder contar as coisas sem ser julgada”.

Quando a interação com o chatbot rouba espaço das relações sociais

A lógica de ser ouvida e não ser julgada explica o largo uso da IA generativa pelos jovens seja para momentos de desabafo e até para bate-papos. No entanto, é preciso cautela para que essa interface digital não roube espaço das relações pessoais, nem mascarar problemas mais sérios, que necessitam acompanhamento de profissionais de saúde mental.

Neste ímpeto de procurar um “amigo” de confiança e sentir-se “acolhido”, a literatura acadêmica recente sugere um quadro ambivalente. Em experimentos controlados, há indícios de alívio de solidão no curto prazo, sobretudo quando o usuário relata “sentir-se ouvido” pelo chatbot. Publicado em 2024 pela Harvard Business School, o artigo AI Companions Reduce Loneliness, do pesquisador Julian de Freitas, registrou a redução do sentimento de solidão ao longo de uma semana de uso da IA, provando que esse efeito é mediado pela sensação de ser ouvido.

Por outro lado, um ensaio randomizado e controlado de quatro semanas em 2025, conduzido por pesquisadores do MIT Media Lab em parceria com a OpenAI constatou que, à medida que o uso se intensifica em qualquer modalidade e especialmente em chatbots de voz, aumentam os índices de: solidão, dependência emocional e uso problemático. Enquanto a socialização com outras pessoas diminui. Tais efeitos são mais pronunciados entre  heavy users e perfis com maior propensão a apego e antropomorfismo – quando uma pessoa atribui características, emoções e comportamentos humanos a elementos não humanos, como objetos.

O Center for Countering Digital Hate (CCDH), organização não-governamental de pesquisas britânica-americana, analisou mais de 1.200 trocas e registrou que, com leve reformulação das perguntas, o chatbot voltou a fornecer respostas perigosas de conselhos sobre autolesão, planos de dieta extrema e até modelos de carta de suicídio. Isso evidenciou fragilidades de verificação etária e de salvaguardas.

“A informação é o ponto de partida da chamada higiene digital. Quanto mais crianças e adolescentes entenderem como funcionam aplicativos e inteligências artificiais, melhor conseguem fazer escolhas. Também conseguem compreender os limites estabelecidos por pais e responsáveis”, explica Daniela Machado, coordenadora de educação do EducaMídia, programa do Instituto Palavra Aberta.

Segundo Machado, o diálogo precisa ser constante e acolhedor. “É importante perguntar o que atrai o adolescente naquele aplicativo ou IA de companhia e mostrar como essas ferramentas operam. Há coleta de dados, que nem sempre sabemos como são tratados, e a sensação de conforto ou validação vem de uma programação, não de um ser humano. Esse alerta é fundamental, porque até adultos podem esquecer que estão interagindo com uma máquina, e não com um amigo”, esclarece.

Famílias devem modelar, monitorar e mentorar filhos para utilização de novas tecnologias

A coordenadora de educação do EducaMídia ainda lembra um conceito do pediatra Michael Rich, autor de The Mediatrician's Guide, livro que resume o papel das famílias em três verbos: “modelar, monitorar e mentorar”. “Os pais devem servir de modelo no uso saudável da tecnologia, acompanhar de perto o acesso dos filhos e atuar como mentores, estabelecendo regras claras. Existem momentos inegociáveis, como a hora do sono, quando os dispositivos precisam ser deixados de lado para garantir o desenvolvimento físico e mental”, reforça Daniela Machado.

Também é imprescindível o papel de medidas regulatórias. Para isso, a especialista aponta duas prioridades: a verificação efetiva da idade mínima para acesso a plataformas e o investimento em educação midiática. “Não basta pedir para declarar que tem mais de 18 anos. Precisamos de mecanismos eficazes, porque há aplicativos que não são apropriados para menores”, explica.

Além disso, Machado aponta como urgente, o fomento ao letramento midiático e algorítmico, que significa “entender como nossos dados são coletados, como os algoritmos moldam conteúdos para prender a atenção e como a chamada economia da atenção explora essa vulnerabilidade”. Afinal, ela conclui: “sem educação, qualquer regulação fica incompleta”.

Dados, estudos e avaliações recentes reacenderam o debate por um desenho seguro de transparência e de padronização – sistema de verificação de idade efetivo, filtros robustos e rotas de encaminhamento em caso de crise. Tanto que a própria Common Sense Media classificou as “IAs de companhia” como um “risco inaceitável” para menores de idade.

Justamente por isso, no encontro global de inovação e tecnologia, o South by Southwest (SXSW) 2025, as relações digitais ganharam protagonismo. Palestrantes discutiram como a popularização de chatbots e de interfaces imersivas vem reconfigurando vínculos e a própria noção de “companhia”. Realizado na cidade de Austin, Texas (Estados Unidos), o festival reforçou que a próxima fronteira do debate público passa pela saúde social.

AMPLIFICA ESSA

Jovens estão utilizando chatbots para conversar sobre assuntos íntimos, buscar refúgio e até  mesmo obter respostas de como tirar a própria vida.

É urgente uma regulação das plataformas de IA, mas também um letramento midiático para que jovens e adultos aprendam a utilizar esses recursos de maneira consciente.

 

Onde buscar ajuda

Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, procure ajuda.

CVV – Centro de Valorização da Vida
Telefone 188 | Atendimento gratuito 24 horas.

Canal Pode Falar (UNICEF)
Escuta especializada para adolescentes e jovens.

CAPS – Centros de Atenção Psicossocial (SUS)
Atendimento em saúde mental para crianças, adolescentes e adultos.

Mapa da Saúde Mental
Rede de serviços gratuitos e orientações sobre saúde mental.