Quem está educando os meninos?
A violência contra as mulheres costuma ganhar o debate público somente quando se torna estatística e notícia. Raramente, olhamos para seu lugar de origem. Muito antes de ser enquadrada como crime ou feminicídio, a violência contra meninas e mulheres começa no cotidiano. Ela está inserida em situações práticas do dia a dia que não percebemos ou sequer nomeamos, como o machismo.
Está na forma como os meninos aprendem a olhar para as meninas. Como eles lidam com desejo, frustração e poder, com a maneira como interpretam o “não”. No modo como aprendem – ou deixam de aprender – que meninas são sujeitos de direitos e não território de afirmação e disputa masculinas. Para entender os motivos pelos quais tantas mulheres vivem sob ameaças à integridade física e psicológica, precisamos refazer a pergunta: “por que homens cometem violência?” para, finalmente, questionar: “como estamos educando os meninos?”.
Um problema de formação e educação social
Movimentos sociais em todo o mundo vão às ruas para exigir um direito que, no século 21, deveria estar garantido: segurança às mulheres. Segurança para estudar, para trabalhar, para circular pela cidade, para existir sem medo. No entanto, o Brasil acompanha diariamente casos brutais de violência contra meninas e mulheres.
Casos que evidenciam um incômodo: não estamos diante de episódios isolados, mas de padrões que continuam se repetindo. E quando uma violência se repete dessa forma, ela deixa de ser apenas um problema individual e passa a ser um problema de formação e educação social. É justamente nesse ponto que alguns países começaram a mudar a abordagem e o enfrentamento desse tema.
No Reino Unido, a educação está no centro de uma estratégia de combate à violência contra mulheres e meninas. O governo britânico já fez a revisão das diretrizes nacionais de Relationships, Sex and Health Education (RSHE), ampliando o ensino de: consentimento, relações saudáveis, respeito às mulheres, enfrentamento da misoginia no ambiente digital e prevenção do machismo entre meninos e jovens.
A proposta faz parte de uma estratégia mais ampla para reduzir pela metade a violência contra mulheres e meninas durante a próxima década, no país. Entre as medidas anunciadas estão o treinamento de professores para identificar sinais de misoginia; conteúdos obrigatórios sobre o compartilhamento de imagens íntimas; pornografia; papéis de gênero e um novo canal de apoio para adolescentes que vivenciam relações abusivas. Para isso, o país prevê investimento público e integração entre escola, famílias e serviços de proteção.
Todo esse movimento responde a um contexto de alerta. Segundo dados do Office for National Statistics (ONS), a violência doméstica ainda atinge, majoritariamente, mulheres no Reino Unido, com a estimativa de milhões de vítimas por ano, na Inglaterra e no País de Gales. Para o governo britânico, enfrentar esse cenário exige agir antes que os padrões de desigualdade e violência se consolidem. E isso passa, necessariamente, pela escola.
Ferramentas para educadores nas escolas
O posicionamento inglês dialoga com um diagnóstico feito também por outros países. No Canadá, um relatório nacional da organização White Ribbon, em parceria com a Angus Reid Group, divulgado em 2025, mostra que quase 9 em cada 10 educadores afirmaram precisar de recursos para lidar com conteúdos misóginos direcionados a meninos e jovens, principalmente, em ambientes digitais. Segundo o estudo, 95% dos educadores disseram que os meninos estão expostos a ideologias sexistas online, e a maioria relatou não ter formação nem ferramentas para enfrentar o problema em sala de aula.
No Brasil, embora o debate sobre igualdade de gênero esteja previsto em diretrizes educacionais mais amplas, ele ainda aparece de forma fragmentada, pontual ou reativa. Dados indicam que essa resposta tem impacto direto no cotidiano escolar. É o caso da pesquisa nacional Livres para Sonhar? Percepções da Comunidade Escolar sobre Violências contra Meninas, de 2025, realizada pela ONG Serenas, com apoio do Instituto Liberta.
O estudo ouviu mais de 1.400 pessoas – entre estudantes, professores e gestores – e revelou como práticas machistas são reproduzidas dentro das escolas, um espaço que deveria ser de proteção. Segundo o levantamento, 7 em cada 10 professores afirmaram ter presenciado meninos fazendo cantadas indesejadas contra meninas.
Outro dado mostra que 42% dos professores relataram ter visto alunos tocando o corpo de meninas sem consentimento, e 45% disseram que colegas professores fazem comentários machistas sobre as alunas. Ao mesmo tempo, 77% dos profissionais afirmaram precisar de formação sobre o tema, mas apenas 1 em cada 3 recebeu algum tipo de capacitação.
Para Amanda Sadalla, cofundadora e diretora-executiva da Serenas, esses números mostram que a violência de gênero reflete o contexto social dentro da escola. Ou seja, no ambiente escolar são ensinados ou reforçados, muitas vezes de maneira silenciosa, estereótipos de gênero. “O que esses dados mostram é que, dentro da escola, as violências seguem sendo reproduzidas, assim como os padrões machistas e os estereótipos de gênero”, observa.
Quando a normalização de um comportamento esconde violência
A relação entre experiências cotidianas e a violência contra mulheres na vida adulta também aparece nos dados nacionais. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra que o Brasil segue registrando níveis elevados de feminicídio e de violência doméstica.
Milhares de mulheres são assassinadas e agredidas todos os anos, principalmente em contextos de relações íntimas. Para especialistas, esses números não surgem de forma isolada. Eles são reflexo de normas sociais aprendidas cedo. Em espaços onde “cantadas”, humilhações, abusos de corpo e silenciamento de meninas não são interrompidos.
Na avaliação da diretora-executiva da Serenas, a principal diferença entre iniciativas isoladas e políticas públicas estruturadas está na mensagem que a escola transmite. “Quando a gente faz uma palestra pontual, o recado é que esse é um tema temporário, que pode ser tratado de forma episódica. Não é entendido como algo prioritário, que precisa fazer parte do dia a dia da escola e em todas as matérias”, explica.
Transformar o enfrentamento à violência de gênero em política institucional, de acordo com Amanda Sadalla, significa incorporá-lo à prática pedagógica, à gestão escolar e à cultura da escola como um todo. “Isso começa pelos professores. Significa não reproduzir estereótipos numa aula de matemática, não diminuir a capacidade das meninas nas áreas de exatas, promover mulheres na história, ler mulheres na literatura – especialmente mulheres negras e indígenas”, orienta.
A mudança desses padrões também exige regras claras e fluxos de proteção. “Todas as escolas precisam ter políticas de salvaguarda. Qualquer tipo de violência, discriminação ou opressão baseada em gênero precisa gerar investigação, escuta qualificada da vítima e responsabilização do agressor. Quando isso não existe, o sentimento que fica é de conivência”, enfatiza Sadalla.
Esse mesmo sentimento aparece de forma explícita nos depoimentos coletados pela pesquisa da Serenas. Nela, uma estudante relata: “Tem professor que força com as alunas. Eles nem disfarçam. Um dia, um professor pegou na mão da menina e pediu para ela dar uma voltinha”. Outra estudante resume uma experiência cotidiana: “Meninos falam do seu corpo, peito, bunda. Na cabeça deles é brincadeira, mas é violento”.
Diante de avanços em outros países, o Brasil ainda enfrenta o desafio de entender todos os contornos desse tema para trabalhá-lo como política pública. O que implica em investimentos para a permanência de programas em todas regiões. Afinal, o país ainda lida com resistências culturais, falta de diretrizes claras e escassez de formação docente.
O resultado é um sistema que reage apenas em casos extremos, mas falha em mudar normas, valores e comportamentos. “Enquanto a gente não trabalhar a desigualdade de gênero, consentimento, relações e masculinidades saudáveis dentro da escola, as bases das violências que se expressam depois – inclusive no feminicídio – vão continuar”, alerta Amanda Sadalla.
AMPLIFICA ESSA
A educação deve estar no centro das estratégias de combate à violência contra mulheres e meninas.
Nas escolas, é preciso incorporar o enfrentamento às desigualdades de gênero na prática pedagógica, na gestão escolar e na cultura da escola como um todo.