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Quando um adolescente demonstra sofrimento, o maior erro dos adultos é duvidar

Publicado em: 27/10/2025
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Alerta: este texto trata de temas como suicídio, sofrimento psíquico e transtornos mentais. Se você precisa de ajuda ou conhece alguém que está precisando, busque ajuda nos contatos ao final deste artigo.

Mudanças de humor, impulsividade, crises de identidade. A adolescência é um território de transição, mas, nos últimos anos, também se tornou um terreno fértil para o sofrimento psíquico. Como perceber? E de que forma ajudar?

Médico preceptor em Psiquiatria da Infância e Adolescência no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), o psiquiatra Wagner Gurgel explica que a adolescência é, biologicamente, uma fase de instabilidade. “O cérebro ainda não amadureceu plenamente. Há um descompasso entre o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrole, e o sistema límbico, que regula emoções e impulsos. Essa combinação explica comportamentos intensos e, às vezes, impulsivos.”

Por isso, o desafio está em diferenciar entre o sofrimento que já é esperado pelas condições biológicas e químicas dessa fase e aquele que exige uma atenção imediata. “Os sinais de alerta de maior correlação com risco de suicídio são aqueles que representam ruptura com o padrão anterior”, explica o médico.

Por exemplo, quando um jovem comunicativo passa a se isolar por semanas, abandona atividades que antes eram prazerosas ou apresenta queda abrupta no desempenho escolar isso pode ser um alerta. “Comportamentos de despedida, como presentear objetos significativos ou dizer frases do tipo ‘não quero ser um peso’, também merecem atenção”, adverte Gurgel.

Porém, é importante saber que nem todo desespero é um risco iminente. “Um adolescente que chora muito após um término amoroso ou diz ‘quero morrer’ durante um conflito familiar não está necessariamente em perigo se mantém vínculos e rotina”, esclarece o psiquiatra. Isso quer dizer que “a diferença crucial está entre o desespero circunstancial e a desesperança persistente, que muda o comportamento habitual”, acrescenta.

Na dúvida, o psiquiatra recomenda aos responsáveis a busca por uma ajuda especializada. “Mesmo sabendo que a adolescência envolve variações emocionais, pais e educadores devem observar a intensidade e a duração dessas mudanças. Quando algo foge do padrão, não é drama, é sinal de sofrimento”, reforça.

Entre a escuta e a ação: a urgência de uma rede

Quando um adolescente demonstra sofrimento, o maior erro dos adultos é duvidar ou minimizar o que é dito. “Frases como ‘tem gente em situação pior’, ‘sua vida é boa demais para você reclamar’, ou ‘é só parar de pensar nisso’ fecham o canal de comunicação”, constata o psiquiatra Wagner Gurgel.

Aliás, é esse tipo de comportamento dos mais velhos que reforça o sentimento de culpa nos mais jovens. Como se os adolescentes fossem “ingratos” ou “fracos”, quando, na verdade, estão pedindo ajuda. Em resposta, o psiquiatra lembra que adolescentes em crise vivem uma ambivalência profunda. “Eles não querem exatamente morrer, querem acabar com a dor. É um pedido para que o sofrimento cesse, não necessariamente a vida.”

Outro aspecto comum nessa fase, segundo o especialista, é a rigidez de pensamento. “Na crise, a pessoa enxerga apenas o que está à frente, como se o problema fosse definitivo e sem saída. Por isso, a escuta é tão importante. Ela amplia o horizonte e devolve alternativas à mente em colapso”, ressalta.

Nesses casos, Gurgel orienta perguntas abertas para uma escuta ativa. Questionamentos simples – “como você está se sentindo?” ou “o que você precisa agora?” – podem gerar um efeito positivo. Nessa troca, transmitir esperança sem negar a dor é essencial para que o adolescente saiba que seu sofrimento tem tratamento e que ele não está sozinho.

Falar sobre o que aflige os adolescentes pode salvar vidas

Ao contrário do que muitos acreditam, falar sobre suicídio não incentiva a ideia, de acordo com o psiquiatra. “Pelo contrário: falar com clareza reduz o tabu e abre espaço para o diálogo. Fingir que o tema não existe só aprofunda o isolamento”, complementa.

Recomenda-se ainda que pais e responsáveis não tenham medo de admitir quando não sabem o que dizer. “Ninguém precisa ter todas as respostas. O mais importante é a presença genuína, a disponibilidade de estar junto e buscar ajuda quando necessário”, pondera Gurgel.

O médico também alerta que é raro um adolescente em risco não emitir sinais. “O problema é que, muitas vezes, os adultos não sabem escutar ou reagem de forma que faz o jovem se calar. Precisamos reaprender a ouvir e oferecer acolhimento real, sem julgamento.”

No Brasil, o desafio é imenso. Faltam serviços especializados, programas de prevenção contínua e capacitação de professores para identificar sinais precoces. “A escola é, muitas vezes, o primeiro espaço onde o sofrimento aparece. Formar educadores para reconhecer mudanças de comportamento e encaminhar para atendimento pode salvar vidas”, observa o psiquiatra.

Em outras palavras, a adolescência é, por natureza, uma fase de contradições, mas nunca houve tanta solidão em meio a um contexto histórico e social de hiperconexão. Essa é uma geração que vive tudo em voz alta, mas sofre calada. Entre o medo e a esperança, há uma travessia que precisa ser coletiva. Escutar um adolescente com atenção pode parecer pouco, mas é um gesto imenso. “Às vezes, é justamente isso que o impede de desistir do amanhã”, conclui Gurgel.

AMPLIFICA ESSA

A adolescência é uma fase de contradições e intensidade de sentimentos que está sofrendo muito mais com a solidão dado o contexto histórico e social de hiperconexão.

Quando um jovem passa a se isolar por semanas, abandona atividades que antes eram prazerosas ou apresenta queda abrupta no desempenho escolar isso pode ser um alerta.

Onde buscar ajuda

Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, procure ajuda.

CVV – Centro de Valorização da Vida
Telefone 188 | Atendimento gratuito 24 horas.

Canal Pode Falar (UNICEF)
Escuta especializada para adolescentes e jovens.

CAPS – Centros de Atenção Psicossocial (SUS)
Atendimento em saúde mental para crianças, adolescentes e adultos.

Mapa da Saúde Mental
Rede de serviços gratuitos e orientações sobre saúde mental.