Sociedade e Comportamento

Quando tudo vira laudo: a explosão de diagnósticos na infância e adolescência

Publicado em: 08/09/2025
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O debate sobre saúde mental nas escolas repercute cada vez mais na mídia e no espaço público. No entanto, esse aumento de atenção ao tema vem acompanhado por perguntas que dividem especialistas: por que passamos a transformar todos os conflitos, emoções e desafios da adolescência em doenças? Até que ponto uma busca exclusiva por diagnósticos é válida?

Nas últimas décadas, as escolas se transformaram em centros de relatórios médicos. Tornou-se recorrente o agendamento de famílias para entregar laudos e diagnósticos de seus filhos. Parece que tudo virou uma patologia.

Comportamentos que antes eram considerados normais, como o de uma criança agitada e cheia de energia, hoje ganham, imediatamente, o rótulo de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Por que estamos diagnosticando tanto crianças e adolescentes?

A medicalização como principal resposta

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada sete crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos no mundo apresenta algum transtorno mental. No Brasil, essa tendência é observada pelo psiquiatra Pedro Mario Pan Neto, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro do Instituto Ame Sua Mente.

“Tive uma experiência em visita a uma escola particular bem ilustrativa nesse sentido. Discutindo o caso de uma adolescente, a diretora me apontou para um armário em sua sala, recentemente adquirido, para organizar todos os laudos de saúde mental que a escola havia recebido no último ano. Anteriormente, o armário era uma pasta. Estávamos no final daquele ano letivo e já começava a faltar espaço”, relata o psiquiatra.

Segundo Neto, parte desse crescimento de laudos se deve a uma maior conscientização de educadores, profissionais de saúde e famílias. Isso favorece a identificação de casos antes invisibilizados, o que ele aponta como positivo. No entanto, não se pode confundir aumento de diagnósticos com aumento real de casos clínicos.

“Se usarmos critérios diagnósticos e metodologias semelhantes, não há ainda uma certeza na literatura médica sobre um aumento significativo com o tempo. No TEA (Transtorno de Espectro Autista), por exemplo, houve ampliação do conceito de espectro, o que inclui formas menos graves. Isso explica parte da elevação na prevalência”, afirma Neto.

O psiquiatra ainda atribui esse quadro de crescimento e diagnósticos a mudanças culturais, como uma maior compreensão e aceitação de alguns diagnósticos. “Houve, seguramente, uma diminuição do estigma sobre os transtornos do neurodesenvolvimento, como TDAH e TEA, o que favoreceu a busca por avaliação e identificação precoce. As famílias falam mais abertamente, os pais se sentem mais encorajados e os pediatras indicam mais avaliações”, constata.

No entanto, o especialista pondera: nem toda alteração de comportamento, atenção ou socialização indica um transtorno mental.  “O diagnóstico em psiquiatria é um processo detalhado e complexo, que precisa escutar interlocutores diversos, integrar saberes e acompanhar o tempo da criança”, explica.

Dados do Ministério da Saúde (2022) evidenciam um aumento de 34% nas prescrições de metilfenidato – princípio ativo da Ritalina – para um público entre 6 e 17 anos. Porém, nem sempre é possível atestar rigor e cuidado para o fechamento de um diagnóstico para tal receita médica.

Entre a falta de diagnósticos e a hipermedicalização

De acordo com o psiquiatra e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Pedro Mario Pan Neto, muitas escolas impõem às crianças expectativas excessivas de desempenho desde a primeira infância, o que pode resultar em encaminhamentos médicos precipitados. Enquanto na rede pública de ensino, o cenário é outro.

Dados do Censo Escolar 2024 indicam que cerca de 80% das matrículas da educação estão na rede pública, que atende 40 milhões de alunos no país. Isso quer dizer que a maioria absoluta das crianças brasileiras está em contextos de menos acesso a diagnósticos e tratamentos. “Nas escolas públicas, há vulnerabilidade social, falta de equipe psicopedagógica e desafios estruturais. Aí, o problema não é o excesso, mas a carência de diagnóstico”, observa o psiquiatra.

O Censo Médico de 2025 mostrou que, entre 42 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil é o terceiro com menos psiquiatras. Em 2024, havia apenas 62 residentes em psiquiatria da infância e adolescência matriculados em todo o país. “Temos pesquisas que mostram que, mesmo em grandes centros, como São Paulo e Porto Alegre, apenas 20% das crianças de 6 a 12 anos de escolas públicas que preenchiam critérios diagnósticos estavam em tratamento. E esse dado pode estar subestimado”, alerta Neto.

A preocupação é que a percepção de hipermedicalização esteja, de acordo com Neto, restrita a uma bolha muito específica. E que isso “desvie o foco da discussão mais urgente: o acesso ao cuidado em saúde mental para a maioria da população infantil”, avalia.

Educação e saúde mental podem caminhar juntas

O deslocamento da função pedagógica para funções clínicas também tem gerado impacto sobre os profissionais da educação. Na ausência de uma rede de apoio, o psiquiatra chama atenção para o fato de que os professores são os primeiros a reconhecer e manejar crises, mesmo sem suporte técnico adequado.

O psiquiatra Pedro Mario Pan Neto conta que estudos mostram que o sofrimento psíquico de crianças e adolescentes com problemas de saúde mental é frequente e intenso. E que essa sobrecarga “afeta profundamente a saúde mental dos educadores”, ressalta.  

Educadores têm um olhar privilegiado sobre seus alunos, segundo o psiquiatra, e poderiam contribuir de forma valiosa, desde que fossem apoiados. “O Brasil tem hoje quase 2,5 milhões de professores na educação básica e mais de 150 mil diretores. Quando esse contingente está emocionalmente sobrecarregado, o impacto é sistêmico”, alerta Neto.

Foi esse contexto que motivou o psiquiatra a criar o Instituto Ame Sua Mente, uma organização da sociedade civil fundada em 2018. “O Ame nasceu da constatação de que saúde mental e educação precisam caminhar juntas. Oferecemos formação continuada para professores, desenvolvimento de protocolos escolares e articulação com serviços de saúde”, explica.

O especialista recorda que a fala de uma professora, em 2009, foi muito importante para a concretização dessa iniciativa. Na ocasião, a educadora disse: “vocês vêm aqui para falar da saúde mental das crianças, mas antes precisamos falar da nossa”.

Criado em 2020, o programa Ame Sua Mente na Escola vem demonstrando bons resultados. “Professores relatam mais segurança para lidar com situações difíceis, maior capacidade de escuta e menos sobrecarga emocional. O caminho não é negar que a saúde mental esteja na escola, mas garantir que ela seja acolhida de forma estruturada”, defende.

Sofrimento infantil não é sinônimo de medicação

O sofrimento infantil precisa ser compreendido no campo social e pedagógico. Segundo o psiquiatra, a maioria dos casos de sofrimento psicológico não está associada a um transtorno psiquiátrico. “E mesmo sem diagnóstico, o sofrimento precisa ser acolhido. Não existe quadro psiquiátrico que possa ser compreendido fora do contexto social e educacional. O diagnóstico, por definição, envolve impacto significativo em vários ambientes da vida da criança”, esclarece.

O fato é que muita gente confunde diagnóstico com receita. Mesmo em quadros como TDAH, com medicações eficazes, intervenções não medicamentosas são fundamentais. No caso de TEA, a psicoterapia é a primeira escolha. “Medicações não são bala de prata. Muitas crianças não melhoram com elas, outras têm ganhos marginais ou não toleram os efeitos colaterais”, constata.

No momento, o psiquiatra e fundador do Instituto Ame Sua Mente reconhece alguns avanços importantes por parte do governo federal, como o Programa Saúde na Escola e leis estaduais recentes. Mesmo assim, ele aponta limites. “Essas iniciativas ainda são pontuais ou mal integradas. Psicólogos entram nas escolas sem função clara, o que leva à terceirização do cuidado.”

Além disso, o especialista reforça a importância de um letramento em saúde mental na escola. “Por isso, deve haver uma estratégia de desmedicalização contextualizada. Quando professores são formados, eles conseguem diferenciar o sofrimento do cotidiano de sinais que exigem avaliação especializada”, pondera.

Dessa forma, seria possível construir um caminho para conter a medicalização excessiva. O que também exigiria abandonar soluções rápidas e investir em formação, articulação intersetorial e políticas de longo prazo. “A escola não precisa de mais diagnósticos. Ela precisa de mais cuidado, autonomia e apoio”, conclui.

AMPLIFICA ESSA

Antes do diagnóstico, o vínculo. Antes do laudo, o olhar. Antes da medicação, o afeto.

Para as escolas acolherem os adolescentes também é preciso implementar ações de cuidado da saúde mental e bem-estar de todo ambiente escolar.