Por que as brincadeiras estão empobrecendo nas grandes cidades?
“Eu queria ser esse menino”, disse um garoto de 8 anos, enquanto assistia a um episódio do documentário Território do Brincar, da educadora e pesquisadora Renata Meireles. Depois de ouvir esse comentário, a pesquisadora especialista no comportamento adolescente Carolina Delboni perguntou-lhe o porquê. O menino respondeu: “porque ele pode brincar de um jeito que eu não posso”.
O documentário faz parte de um projeto homônimo, parceria com o Instituto Alana, que mapeou, entre 2012 e 2013, as diferentes formas de brincar em comunidades rurais, indígenas, quilombolas, das grandes metrópoles, do sertão e do litoral. Mas a situação que chamou a atenção do menino de 8 anos foi especial. Nela, um garoto de aproximadamente 12 anos brincava de bolinha de gude com uma turma de meninos.
Pré-adolescentes, agachados no chão de terra, demonstravam destreza na brincadeira conhecida pelo nome “China”, no município de Araçuaí (MG). Em São Paulo, China é jogar bolinha de gude, algo que praticamente não se vê mais. É um daqueles passatempos resgatados nas escolas quando alunos pesquisam sobre “brincadeiras de antigamente”.
Ainda que nos rincões do país, brincadeiras tradicionais resistam ao tempo, nos centros urbanos, tornam-se cada vez mais raras. Sendo assim, o desejo de “ser esse menino” livre pra brincar levanta importantes questões. Por que as crianças têm perdido a possibilidade de brincar nas grandes cidades? E o que leva a sociedade a acreditar que brincar na área comum de um prédio seja suficiente?
Nas cidades, as crianças brincam no asfalto, cercadas por muros, grades e portões de segurança. Algumas, estão sempre acompanhadas por suas babás. Quase sempre há um adulto vigiando a brincadeira de uma criança. Isso tem levado a um contexto de “emparedamento da infância”. Fenômeno contemporâneo em que as crianças passam a maior parte do tempo confinadas em ambientes fechados (em casa ou na escola) e afastadas do convívio com a natureza e das ruas. Afinal, brincar é um mundo e é preciso incluir o mundo nessa brincadeira.
Não tem mais rua e parque pra gente brincar
Na mostra Carroça de Mamulengos: Três Gerações de Arte Brincante, que esteve em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo (CCBB-SP), entre março e abril de 2025, a história de uma trupe joga luz – ou melhor, refletores – sobre a arte de brincar. Em três espetáculos – Histórias de Teatro e Circo, Janeiros e O Babauzeiro – histórias de uma família que se formou e cresceu com raízes na cultura popular do Cariri (CE), e que tem na pedagogia brincante a espinha dorsal de vida e trabalho.
No palco, as três gerações da família Gomide França ensinam um brincar bem distinto do praticado nos centros urbanos. As crianças que ocupam o palco têm entre dois e 12 anos. Todas andam de perna de pau, brincam de boi bumbá e contracenam com mamulengos – bonecos criados pelo mestre Carlos Gomide, conhecido como Babau, um dos maiores bonequeiros do Brasil.
Depois de assistir a um espetáculo do Carroça de Mamulengos, fica-se uma pulga atrás da orelha: por que houve um empobrecimento das brincadeiras nas grandes cidades? Uma infância foi sequestrada pelas telas e ainda vive aterrorizada pelo medo da violência. E em nome da segurança e do cuidado, crianças ocupam muito pouco – ou quase nada – as praças, parques, ruas e outros espaços públicos. Tampouco mantém contato com a natureza, quem dirá, subir em árvores?
Cadê o tempo da brincadeira que estava aqui?
Grandes parques da cidade de São Paulo foram privatizados, como o Ibirapuera, Villa-Lobos, Cândido Portinari e Água Branca. Além disso, é proibido subir em árvores. Então, como uma criança experimenta o mundo com tantas placas sinalizando “Proibido”? Como ela experimenta pernas e braços se não pode se pendurar em brinquedos públicos de um parque ou de uma praça?
Mesmo na hora do recreio, nas escolas, crianças encontram pouco espaço para correr e pouco tempo para ocupar os pátios. Muitas escolas reservam apenas 15 minutos para o intervalo principal. Só que meninos e meninas entre 6 e 8 anos têm apenas essa janela de tempo para brincar e lanchar.
Brincar é uma das linguagens universais que a infância nos ensina. Por exemplo, duas crianças que falam línguas diferentes são capazes de se comunicar e se entender por meio da brincadeira. Aliás, elas podem até não saber o nome uma da outra e ainda assim ser capazes de passar horas em um quintal, na rua ou no parque brincando por horas a fio. É que a brincadeira é comunicação e troca – também é ensinar e aprender.
Currículo escolar pautado pela importância do brincar
Não à toa, a educação infantil tem um currículo pautado pelo brincar. É por meio da brincadeira que a criança aprende, que ela troca cultura, se expressa, pensa, convive, fala, escuta e explora. Uma lista de ações que são, na verdade, eixos estruturantes da aprendizagem nessa faixa etária. Mas o que isso significa?
Significa que o aprendizado da criança pode ser “medido” por essas experiências conduzidas pela brincadeira. No ato de brincar, meninos e meninas experimentam novas ações e relações. Por isso, engana-se quem diz que a criança “apenas brinca na escola”. Pelo contrário. Ela aprende por meio do brincar e isso tem nome: pedagogia do brincante.
O educador Paulo Freire defendia a brincadeira como centro do trabalho com as crianças por se tratar da melhor metáfora da vida. Também o educador Renato Noguera, Doutor em Filosofia, acredita que “a infância nos convida a reinventar o mundo”. Noguera defende que o adulto não pode perder o desejo de brincar e a capacidade de criar mundos. Somente assim, podemos manter a curiosidade, e é isso que nos mantém vivos. Portanto, reinventemos o mundo chamado “cidade grande” para que a brincadeira nunca perca seu espaço.
AMPLIFICA ESSA
Nas cidades, há cada vez menos espaço público para brincar e as crianças estão brincando no asfalto, cercadas por muros, grades e portões de segurança, vigiadas por adultos.
É por meio da brincadeira que a criança aprende, troca, se expressa, pensa, convive, fala, escuta e explora.