Saúde Mental e Bem-Estar

Por que a vida tem perdido o sentido para tantos adolescentes?

Publicado em: 15/09/2025
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Alerta: este texto trata de temas como suicídio, sofrimento psíquico e transtornos mentais. Se você precisa de ajuda ou conhece alguém que está precisando, busque ajuda nos contatos ao final deste artigo.

Falta de perspectivas, pressão por desempenho e violência cotidiana intoxicam a vida dos adolescentes. Conectados, pressionados e expostos a um mundo de crises múltiplas – desigualdades, conflitos, crise climática e ambiental –, eles têm demonstrado sinais alarmantes de esvaziamento do valor da vida.

O resultado aparece no aumento de casos de autolesão e de tentativas de suicídio – um grito silencioso que adultos, famílias e escolas muitas vezes não conseguem escutar. Mesmo quando estão online, sentem-se sozinhos. Nas redes e nas escolas, acreditam que precisam performar. Como vislumbrar algo positivo da experiência de estarem vivos, quando o contexto lhes diz o contrário?

Esses enunciados se repetem em consultórios, corredores de escola e rodas de conversa todos os dias: “Qual é o sentido de estudar se nem sei se vou ter trabalho?”; “Se o mundo está acabando, por que planejar o futuro?”; “Não quero morrer, só queria que a dor parasse”.

O que os dados mostram sobre essa crise

Atualmente, há uma geração cada vez mais precoce que se questiona o sentido de viver. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se mais de 720 mil mortes por suicídio a cada ano. Em 2021, essa foi a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

Em países de baixa e média renda concentram-se quase três quartos desses óbitos. No Brasil, dados acompanham a tendência: foram 15.507 mortes por suicídio em 2021, sendo 77,8% de homens. Entre adolescentes, o impacto é ainda mais preocupante: o suicídio já figura como a terceira causa de morte entre 15 e 19 anos, e a quarta, entre 20 e 29 anos.

Há também outras situações que são alarmantes, mas raramente viram manchete: as autolesões e as tentativas. Somente em 2021, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) registrou 114.159 notificações de violências autoprovocadas, sendo 70,3% em mulheres. Entre adolescentes, 21,5% tinham de 15 a 19 anos e 9,3%, entre 5 e 14 anos.

Realizado no período de 2011 a 2022, um estudo da Fiocruz mostra que a taxa de suicídio entre jovens de 10 a 24 anos cresceu em média 6% ao ano, enquanto as notificações de automutilação dispararam 29% ao ano. Um avanço muito acima da média da população geral.

Fatores sociais por trás da falta de vontade de viver

Ao analisar esses dados, é preciso investigar o que está por trás dessas medidas extremas tomadas por adolescentes cada vez mais novos. Especialistas observam que esse esvaziamento do sentido de viver tem muitas faces. Para uma parte dos jovens, o futuro simplesmente não lhes pertence.

Isso está diretamente relacionado ao medo crônico de não encontrar trabalho, à violência no território onde vivem, à percepção de que o mundo caminha para um colapso climático, político e social. A combinação desses fatores produz desesperança e fragiliza o valor atribuído à própria vida. Soma-se ainda: uma pressão estética e de produtividade, a comparação difundida nas redes e a precariedade econômica. Diante disso, a autolesão aparece como uma tentativa de dar forma física a uma dor sem linguagem.

Embora a intoxicação por medicamentos seja o meio mais frequente de tentativa de tirar a vida, seguida por objetos cortantes, a letalidade é maior entre meninos, que tendem a recorrer a métodos mais violentos. Portanto, afirmar que os adolescentes fazem isso “só para chamar atenção” é descredibilizar a dimensão do sofrimento deles. “Do ponto de vista cognitivo, a incerteza constante é um fator de risco para ansiedade e para a percepção de que não há sentido para viver”, explica Guilherme Polanczyk, psiquiatra da infância e adolescência e professor da Universidade de São Paulo (USP).

O psiquiatra lembra que manchetes recorrentes de mudanças climáticas, tensões políticas e tecnologias disruptivas reforçam a instabilidade para todas as gerações, porém atingem os adolescentes de forma mais aguda. Estilos parentais mais ansiosos e a parentalidade intensiva – espelhada na tentativa constante de evitar frustrações – também interferem na formação emocional dos adolescentes.

Redes sociais, tabagismo e álcool na adolescência

A tecnologia pode ser utilizada de maneira a beneficiar uma comunidade, ampliando o alcance à informação, estimulando a criação e fortalecimento de vínculos sociais, atuando como aliada da medicina, da comunicação, das artes, entre outros campos. No entanto, sem regulamentações ou diretrizes, ela pode ser parte de um problema.

Na adolescência, a exposição contínua a narrativas de violência e autoagressão nas redes sociais pode banalizar comportamentos de risco e criar efeitos de identificação em grupo. Há ainda novos perigos relacionados ao uso indiscriminado de ferramentas de Inteligência Artificial, envolvidas em episódios de incentivo a suicídio.

O consumo excessivo de telas – muitas vezes acima de sete horas diárias – amplia a exposição a conteúdos como pornografia, jogos de aposta e dietas extremas, gerando  impactos sobre um cérebro ainda em desenvolvimento. Todos esses riscos ganham ainda mais força com o tabagismo, o consumo de álcool e, agora, novas drogas e dispositivos químicos, agravando um cenário em que mesmo as ações preventivas em curso não conseguem conter os efeitos.

A literatura científica aponta que cerca de 90% das pessoas que morrem por suicídio apresentam algum transtorno mental, como depressão, bipolaridade ou esquizofrenia, ou uso problemático de álcool e outras drogas. Entre adolescentes, somam-se fatores sociais e relacionais – abuso físico, psicológico ou sexual; isolamento; discriminação; perdas familiares; violência doméstica; bullying; impulsividade; baixa autoestima; e desesperança.

“Os jovens percebem que valores como solidariedade e gratidão foram corroídos. Sentem-se invisíveis em uma sociedade movida pelo poder econômico e pela indiferença”, observa a psiquiatra Ana Cecília Petta Roselli Marques, especialista em Saúde Coletiva e Saúde Mental pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e doutora em neurociências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Para a psiquiatra, a prevenção começa em casa e se sustenta em rede: família, escola, atenção básica e serviços especializados. Somente uma política robusta, integral e baseada em evidências pode alterar esse quadro.

Como enxergar os sinais e o que fazer?

Adolescência saudável não significa ausência de turbulência, mas quando a dor persiste e desmonta a vida cotidiana é preciso acender o alerta. Mudanças bruscas de humor, tristeza profunda, perda de interesse por atividades antes prazerosas, isolamento, irritabilidade, alterações de sono e apetite, queda acentuada no rendimento escolar, conflitos recorrentes com colegas e familiares e doenças frequentes compõem um quadro que exige atenção.

Perguntar diretamente ao adolesecente sobre sofrimento, pensamentos de morte ou de se ferir não atrapalha, nem aumenta o risco. Pelo contrário, abre portas para acolhê-lo e encaminhamento da situação.

Na escola, protocolos claros de identificação e acolhimento, formação continuada de educadores e educação socioemocional baseada em evidências são indispensáveis. Diretrizes que têm como foco pertencimento, regulação emocional, projetos de vida e comunicação responsável.

Em casa e na comunidade, entra a escuta ativa antes de aconselhamentos. São também espaços de legitimação da dor e discussão sobre masculinidades. É na comunidade onde se dá a elaboração de planos de segurança que incluam pessoas de referência e a redução do acesso a meios letais. Cultura, esporte e projetos comunitários funcionam como fatores de proteção. Onde há vínculo, há saída.

O problema não é do adolescente: ele espelha um contexto social que cobra demais, oferece de menos e se ausenta nos momentos críticos. Prevenir medidas extremas provocadas pelo sofrimento psíquico na adolescência é uma responsabilidade coletiva. E começa por algo simples, mas radical: escutar de verdade os jovens e reconhecer que a dor deles também nos atravessa.

AMPLIFICA ESSA

Os adolescentes têm questionado o sentido da vida diante de diversos fatores, como:  violência, guerras, crise climática, falta de emprego, pressão nas redes sociais e contextos familiares adversos.

Cuidar da adolescência é uma responsabilidade coletiva.

Onde buscar ajuda

Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, procure ajuda.

CVV – Centro de Valorização da Vida
Telefone 188 | Atendimento gratuito 24 horas.

Canal Pode Falar (UNICEF)
Escuta especializada para adolescentes e jovens.

CAPS – Centros de Atenção Psicossocial (SUS)
Atendimento em saúde mental para crianças, adolescentes e adultos.

Mapa da Saúde Mental
Rede de serviços gratuitos e orientações sobre saúde mental.