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Por favor, vamos parar de culpar as telas por tudo

Publicado em: 26/01/2026
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Este artigo não é um discurso a favor das telas nem da liberação desenfreada do uso, mas uma provocação

No século 21, muito se fala sobre o ambiente digital como o “grande vilão” da infância e da adolescência. Se os adolescentes não saem do quarto no mês de férias, a culpa é do celular. Se dormem mal, se estão irritados, ansiosos, apáticos e desmotivados, a razão é uma: o tempo de uso das telas. E se a criança não brinca mais como “antigamente”, a resposta se repete.

Redes sociais, games e outras plataformas online tornaram-se o bode expiatório para dores e crises muito mais complexas. E, sobretudo, mais difíceis de sustentar. Mas por quê? O que não estamos reparando?

Para além de reforçarmos o fato de que as novas tecnologias estão provocando danos à infância e à adolescência, precisamos fazer uma autoavaliação. Afinal, crianças e adolescentes “de antigamente” não existem mais. Nem os adultos são como um dia foram seus pais. Éramos mais felizes? Havia mais vivências ao ar livre, movíamos mais o corpo, mas também, tínhamos menos conhecimento sobre saúde mental e emocional. O fato é que o mundo saiu da era analógica e mergulhou na era digital.

Relatos de um naufrágio de pais e filhos adolescentes

Atualmente, é comum o relato de adolescentes que passam as férias isolados no quarto, sem interagir com a família. A mãe de uma menina de 15 anos relatou que sua filha não desgrudava do celular, enquanto o sol e a piscina estavam logo ali, disponíveis. Ela contou também que o filho mais velho, criado sob as mesmas regras, valores e oportunidades, usa o celular, mas não deixa de sair para namorar, encontrar os amigos ou jogar futebol. Perfis distintos que receberam a mesma educação materna. Mas, será que a culpada aqui são as telas?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) associa o uso excessivo de telas a prejuízos no sono, no bem-estar emocional e na saúde mental de crianças e adolescentes. A American Psychological Association e a American Academy of Pediatrics são claras ao afirmar que não se trata apenas de quantidade de tempo, mas da combinação entre conteúdo, contexto, fase do desenvolvimento e presença – ou ausência – de mediação dos adultos.

Relatórios de 2024 da UNICEF também reforçam que crianças e adolescentes estão crescendo em ambientes digitais desenhados para capturar atenção, estimular comparação constante e manter engajamento prolongado. Ou seja, elas não estão interagindo em espaços neutros, mas em ambientes programados para maximizar o tempo de permanência, cliques e reações. Algoritmos reforçam padrões irreais de corpo, sucesso e felicidade e atravessam, diretamente, a construção da autoestima, da identidade e do senso de valor pessoal dos jovens.

Além disso, pesquisas acadêmicas no Brasil, conduzidas por universidades públicas, mostram a associação entre uso intensivo de telas e privação de sono, dificuldades de atenção, aumento de sintomas de ansiedade e empobrecimento das relações presenciais. Por isso, especialistas alertam: o ambiente digital não cria o sofrimento do zero, mas amplifica vulnerabilidades já existentes.

Há ainda um aspecto central que aparece com frequência nas análises contemporâneas: as telas deslocam atividades fundamentais ao desenvolvimento. Dormir, brincar, se movimentar, experimentar o corpo no espaço, conviver sem mediação tecnológica, lidar com frustração e tédio vão se fragmentando ou sendo substituídos. Mas o quanto estamos dispostos a deixar os adolescentes a experimentar frustração e tédio?

Uso excessivo das telas esconde sentimento de vazio

Plataformas digitais também são utilizadas como armadilhas dopaminérgicas. Ou seja, aplicativos são desenhados para oferecer recompensas rápidas, fáceis e constantes – uma dopamina imediata, “sem esforço”. Psicólogos e neurocientistas citados pela Psychology Today explicam que esse padrão pode gerar um efeito colateral importante: a vida fora das telas passa a parecer lenta, exigente, desinteressante. O resultado não é prazer, mas apatia. Não é estímulo, mas esgotamento.

Ignorar esse cenário seria irresponsabilidade, mas transformar as telas em vilãs absolutas é confortável demais. Porque, ainda assim, a pergunta que insiste – e talvez incomode – seja outra: o que nós, adultos, estamos deixando de fazer enquanto culpamos as telas? Talvez o excesso de telas diga menos sobre tecnologia e mais sobre vazios. Vazios de presença, de convivência, de tempo compartilhado, de propostas reais de encontro. Espaços que deixamos de ocupar e que as telas ocuparam com eficiência.
Há um conjunto de omissões dos adultos –  famílias, escolas, governo, empresas – que aparece de forma recorrente em pesquisas e na prática clínica. Entre elas está a falta de educação digital. Crianças e adolescentes circulam por ambientes altamente complexos sem ferramentas básicas de leitura crítica.

Pouco se conversa sobre a diferença entre persona online e vida real, sobre manipulação algorítmica, cultura da comparação, cyberbullying, discursos de ódio ou economia da atenção. Exigimos autocontrole e maturidade digital de quem ainda está em formação. Mas não oferecemos uma mediação.

A maioria dos pais não entra no universo digital dos filhos. Eles não sabem o que os adolescentes jogam, que perfis seguem, que vídeos consomem. Em vez de curiosidade, oferecem vigilância. Em vez de aproximação, impõem controle. Então, as telas viram território de disputa, não de diálogo. Estudos publicados na Psychology Today mostram que adolescentes tendem a se afastar ainda mais quando sentem que o adulto só se aproxima para proibir, punir ou corrigir.

Por que o celular virou distração e refúgio?

Já pensou em tentar outra via de diálogo com o adolescente? O que você está fazendo quando vocês se sentam à mesa para uma refeição juntos? Tarefas cotidianas contribuem para fortalecer vínculos e são nestes momentos que surgem oportunidades para conversas sensíveis e importantes. Inclusive, sobre o uso das telas.

Há também a questão do exemplo. Pesquisas sobre comportamento parental mostram que crianças aprendem menos pelo discurso e mais pelo modelo. Pedimos que os filhos larguem o celular enquanto respondemos mensagens à mesa. Checamos notificações durante conversas e nos refugiamos no próprio aparelho ao final do dia.

Ou seja, os pais têm um discurso, mas a prática é outra. Afinal, o que os adultos estão deixando de fazer neste tempo diante das telas? Será que eles também podem ser chamados de “geração ansiosa”?

Segundo análises de especialistas publicadas em artigos na revista estadunidense The Atlantic,em 2024 e 2025, telas raramente são a causa principal de muitos dos problemas vividos na infância e adolescência. Elas funcionam como substitutas. Quer dizer, elas substituem o tédio que crianças e jovens não toleram, a solidão que não sabem nomear, a pressão que não conseguem aliviar.

Para muitos adolescentes, o celular não é apenas distração: é um refúgio, uma anestesia e um pertencimento possível. Quando adultos enxergam apenas o dispositivo e não o que ele encobre, perdem a chance de intervir onde realmente importa.

Há também uma omissão estrutural que raramente entra na conversa: a falta de alternativas reais. Isso acontece quando se diz que as crianças não brincam mais, no entanto, é a cidade que não possui espaços públicos seguros. Reclamam-se que adolescentes ficam trancados no quarto, mas não se oferecem convivência comunitária, atividades acessíveis, tempo compartilhado.

Esse encolhimento dos espaços de encontro é o que empurra crianças e jovens para dentro de casa e, consequentemente, para dentro das telas. Também estamos falando de adultos capturados por esses dispositivos. O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de tempo de tela, de acordo com o relatório Digital 2023:Global Overview Report da DataReportal.

Trocas e diálogos precisam entrar em campo

Não se trata apenas de “quanto tempo meu filho passa no celular”, mas também quanto tempo sobra na rotina dos pais para se conectar com os filhos. Talvez o movimento mais potente seja menos fiscalização, mais companhia. Entrar no jogo, assistir juntos a um conteúdo, perguntar sem ironia, escutar sem julgamento. Não para validar tudo, mas para estar junto.

A literatura internacional é clara: adolescentes que se sentem acompanhados, e não vigiados, tendem a regular melhor o próprio uso. Pais, mães e responsáveis: saiam do celular enquanto estão com seus filhos. Conversem, caminhem, assistam a um filme juntos, fiquem em silêncio, não façam nada.

Os pais precisam permitir que seus filhos também fiquem entediados, sintam tristeza e frustração. É importante para o desenvolvimento nessa fase da vida que os adolescentes sintam essas emoções que geram desconforto. A vida não precisa, e não deve, ser extraordinária a todo momento. O que ela precisa ser é real.

AMPLIFICA ESSA

O uso excessivo de telas é apenas a ponta de um iceberg de conflitos internos, vazios e emoções experimentadas na adolescência.

Pais precisam desconectar seus aparelhos para se reconectar com seus filhos e assim entender o que eles sentem e que conteúdos consomem para mediação do uso de telas.