Escola, Educação e Famílias

Pesquisa mostra que 72% dos professores enfrentam problemas de saúde mental

Publicado em: 23/08/2021
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Falta de estrutura educacional, conhecimento das ferramentas digitais e sobrecarga na rotina escolar agravou o estado de saúde mental de mais da metade dos professores do país, no período de pandemia de covid-19. Segundo levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), entre 2022 e 2023, 62% dos docentes da educação básica relataram sintomas frequentes de estresse, ansiedade ou depressão.

Sobrecarregados, 2,6 milhões desses profissionais tiveram que aumentar a carga horária de trabalho. Professores passaram horas do dia fotografando páginas de apostilas de atividades para enviar aos estudantes, tudo para não comprometer o processo de aprendizagem. Afinal, 79% dos alunos assistiram aula pelo WhatsApp no período da pandemia, de acordo com dados de estudo da UNICEF Brasil, divulgados em 2021.

Muitas vezes, esses esforços foram reconhecidos pelas famílias dos alunos e pela sociedade civil de forma geral. Mas também ficou evidente a pressão que estes profissionais sofreram diante dos desafios impostos pela pandemia. Enfrentaram angústias, medos e ansiedades durante uma pandemia de incertezas. Aliás, essa classe de trabalhadores é uma das que mais sofre do chamado burnout, síndrome de esgotamento físico e mental.

Sequelas que permanecem ainda hoje. Tanto que  um estudo da Fiocruz (2023) revelou que sete em cada 10 docentes apresentam sinais de depressão ou ansiedade. Mais recentemente, o Brasil registrou mais de 65 mil de professores por problemas de saúde mental apenas na rede pública, segundo dados do Ministério da Previdência Social, divulgados em 2025.

A pandemia obrigou as escolas a recalcular a rota

Os calendários das escolas exigiram uma maleabilidade de todos. Enquanto a gestão escolar precisou flexibilizar planejamentos e os professores tiveram que enfrentar as incertezas de ambos os lados somadas ao próprio contexto. Como resultado, um número alto de professores apresentaram problemas de saúde mental.

Entre os fatores apontados estavam a dupla jornada, a falta de formação no ambiente remoto, o excesso de atividades e a insegurança de um futuro. No caso das mulheres, que representam 85% da classe, elas apresentaram um maior nível de estresse por conta da jornada extra com os cuidados da casa e dos filhos.

Muitas vezes responsáveis por auxiliar alunos com depressão, ansiedade e estresse, professores se viram imersos nas mesmas questões. Consequentemente, quem tanto cuidou precisou ser cuidado e foi, nas escolas privadas, que apoio e suporte vieram mais rápido. Por exemplo, a Escola Vera Cruz, na capital paulista, organizou uma jornada de cursos e formações para que professores e coordenadores pudessem se familiarizar com metodologias digitais e ferramentas específicas.

Assessora de tecnologia educacional da Vera Cruz, Ana Paula Gaspar recorda que, em uma semana, sua equipe organizou um plano de contingência, junto à gestão escolar. “Quando a escola fechou totalmente em 2020, já tínhamos uma estrutura de apoio desenhada com equipes de atendimento e ações de suporte de tecnologia educacional.”

Outra ação nessa escola foi a criação da Jornada Digital, que continua aberta e disponível a qualquer outra escola. Nela, fizeram mais de cinco mil atendimentos individuais de equipes em um semestre. Com recursos financeiros e equipamentos tecnológicos, instituições de ensino, como a Escola Vera Cruz, conseguiram rapidamente responder a uma demanda emergencial.

Iniciativas direcionadas à saúde mental dos educadores

Professores precisavam – e ainda precisam – de apoio emocional e de escuta. De um espaço para que possam ser cuidados, principalmente porque a demanda de trabalho é intensa e de grande volume. E os relatos são de um esgotamento que parece ser inexaurível.

Foi isso que observou a professora Tânia Sztutman, do Vera Cruz. “O trabalho não tinha fim, os problemas não tinham fim”, desabafa. “A gente estudou, adaptou aulas e atividades para o ambiente remoto, aprendeu a se vincular através de telas, acolher à distância e quando parecia que tudo iria ficar bem, que tínhamos uma rotina que funcionava, havia uma nova diretriz pública – pautada nas normas de segurança da saúde – que nos fazia começar outra vez”, conta.

Para Sztutman, a palavra “reinvenção” nunca fez tanto sentido. Ela só percebeu o tamanho do desgaste quando, no primeiro dia de retorno às aulas presenciais, ao vestir uma calça, se deu conta de que nenhuma lhe servia. “Foram 12 quilos a mais e muito aprendizado acumulado.”

Na rede pública, não foi diferente. Quando governo e prefeitura se deram conta, rapidamente lançaram mão de programas e parcerias já existentes para expandir o atendimento aos educadores. No estado de São Paulo, o projeto Saúde Mental na Escola, em parceria com o Instituto Ame Sua Mente, envolveu 10 instituições estaduais.

Composto por ações de sensibilização e rodas de acolhimento sobre questões que envolvem a promoção da saúde mental, o projeto considerou o contexto crítico do início da pandemia e o momento delicado no qual os educadores se encontravam. Ao todo, foram mais de 3.200 profissionais atendidos.

Desse total, 97,5% professores disseram que o Saúde Mental na Escolaos  ajudou a lidar com a própria saúde mental. Enquanto 95% achou útil ou extremamente útil para compreender o impacto da pandemia e desenvolver estratégias de autocuidado. Por fim, 92.5% dos educadores disseram compreender a importância da saúde mental para a vida pessoal.

Criado e presidido pelo psiquiatra Rodrigo Bressan, o Instituto Ame Sua Mente vem trabalhando em estratégias que auxiliam a comunidade escolar. Para isso, partem do princípio de que a saúde mental é um elemento imprescindível, fosse na condução do período de distanciamento social, provocado pela pandemia de covid-19, ou no momento de reabertura das escolas.

Acolher professores para que possam acolher alunos

Segundo Fátima Santana de Almeida, gestora da Escola Estadual Dom Agnelo Cardeal Rossi, na zona Sul de São Paulo, o programa Ame, do Instituto Ame Sua Mente, já fazia parte das escolas. Mas com a pandemia, ele se estruturou, abrindo ainda mais espaço para a voz dos educadores. “Alguns tiveram muito medo de voltar e houve uma perda de autoestima muito grande”, lembra.

A gestora atribui esse quadro ao longo período dentro de casa, quando professores também estavam isolados dos colegas, sem ter com quem trocar ideias, imersos nas próprias questões. “Alguns foram até o fundo do poço e precisaram de ajuda pra sair. Fizemos inúmeras reuniões, rodas de conversa e deixamos os canais com a gestão sempre abertos”, conta.

Neste contexto, o programa Ame foi vital para ajudar na recuperação dos profissionais da educação. “Eu fico emocionada com os resultados porque vi a necessidade deste cuidado”, desabafa Almeida. “Na escola, sempre pensamos no acolhimento, na ideia de cuidar de quem cuida e quando a gente cuida do professor e do funcionário, eles passam a cuidar mais dos alunos e o resultado aparece no desempenho geral da escola”, explica.

A gestora da escola estadual ainda reforça: “Se eu não tenho um professor emocionalmente estável, eu não tenho uma sala emocionalmente estável e os índices começam a cair”. Ou seja, “é um ofício de formiguinha e fico muito feliz que as secretarias tenham se reunido para desenvolver esse trabalho com especialistas”, acrescenta.

Por isso, a meta é a formação de educadores para que identifiquem sinais de estresse mental entre seus alunos, em sala de aula. Ao serem identificados previamente, diminuem-se as chances de os estudantes desenvolverem doenças como: síndrome do pânico, distúrbios alimentares entre outros. Razões pelas quais, muitos jovens abandonam a escola ou podem cometer suicídio.

“Temas como ansiedade e depressão já estão sendo trabalhados nos encontros formativos. A perspectiva é atingir 70 escolas da rede estadual paulista e beneficiar, aproximadamente, 300 educadores, entre lideranças escolares (diretores, vice-diretores, supervisores de ensino), professores e núcleos pedagógicos”, conta o psiquiatra Rodrigo Bressan, presidente do Instituto Ame Sua Mente.

Uma vez que educadores recebem uma formação prática para lidar com alunos que já tenham algum tipo de transtorno ou que, eventualmente, possam desenvolver, o psiquiatra observa que os índices entre os jovens melhoram consideravelmente. E isso impacta diretamente o desempenho escolar. Mais do que nota “boa” ou nota alta, trata-se de aprendizado. Ou seja, de um aluno ser realmente capaz de internalizar e carregar aquele conhecimento ao longo da vida.

Nas escolas municipais, o programa Ame foi implementado em parceria com o Núcleo de Apoio e Acompanhamento para Aprendizagem (NAAPA), que atua no desenvolvimento de práticas pedagógicas para crianças e adolescentes em situações de vulnerabilidade. Durante a pandemia, ampliou-se o atendimento aos educadores da rede com esse programa de olhar específico para a saúde mental.

Ao todo, foram quase 3.600 reuniões voltadas ao acolhimento dos profissionais com acompanhamento psicológico. E o principal tema desenvolvido nas rodas de conversa foi o medo. Medo de morrer, medo do futuro, medo de inúmeras situações fora de controle. Professores afirmaram que sentiram – e ainda sentem – medo.

No entanto, para que o ambiente escolar tenha alunos saudáveis, com capacidades plenas e integrais de aprendizado, é preciso professores saudáveis. Ou seja, cuidar desse profissional que cuida. Para isso, o atendimento integral aos professores deve fazer parte das práticas educacionais e de programas de formação continuada nas instituições de ensino.

Além disso, deve haver a consciência de que, para além do intelecto, professores carregam um corpo físico e emocional que demanda atenção e cuidados. Professores também choram. Talvez isso tenha que ser dito explicitamente para que a sociedade não se esqueça de que, em sala de aula, existe um ser humano dotado de emoções.

AMPLIFICA ESSA

Professores precisam de cuidado para cuidar.

Iniciativas da rede privada e pública de ensino adotam iniciativas e programas de apoio e acolhimento contínuo e permanente para os educadores.