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Pais viciados em tela: dependência do celular não é exclusiva dos filhos

Publicado em: 03/06/2024
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Se tem um assunto que parece incomodar a maioria das famílias de hoje é a tecnologia e o uso exagerado de smartphones. As reclamações sobre excesso de tempo em frente às telas são unânimes em muitas rodas de conversa de pais e mães. Sem controle sobre os filhos, esgotados e também viciados em tecnologia, eles se rendem aos pedidos de “só mais um pouquinho”. Mas e quando são os pais que se distraem e passam mais tempo no aparelho do que dando atenção aos filhos?

A convivência familiar tem sido trocada pela tela. Adultos fixados em celulares, tablets ou computadores enquanto crianças tentam chamá-los para brincar. Adolescentes tentam compartilhar algo do círculo de amizades, da escola ou uma música que acabaram de escutar e lá estão: pais e mães entretidos com redes sociais. Quando o jogo vira e o problema é o comportamento dos adultos no ambiente digital, como isso afeta as famílias?

Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, relataram que mais de 70% dos pais passam muito tempo no celular, cerca de duas horas por dia, mesmo com a presença dos filhos. A entrevista foi realizada com 170 pais e mães de crianças entre 1 e 5 anos, e perguntou sobre o impacto desse hábito na relação com os filhos.

Segundo o estudo realizado em 2017, a maioria dos pais admitem que esse comportamento interfere na qualidade do tempo que passam com as crianças. Alguns disseram que se sentem culpados e irritados quando usam o aparelho e estão com seus filhos. O que gera conflitos e reclamações.

Outra pesquisa foi realizada pela Universidade de Waterloo, no Canadá, em 2022. Foram entrevistados 549 pais e filhos, entre 5 e 18 anos. Os adultos disseram passar entre três e quatro horas diárias nas telas, além de demonstrar mais irritação com seus filhos. Inclusive, eles relataram que buscam na tecnologia uma maneira de “fugir da realidade”, como uma distração para momentos de ansiedade.

O celular pode esperar, mas a vida não

Para ter ideia, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2023, apontou que o uso diário da internet já era uma realidade para 93,4% da população, em 2022. E com base na pesquisa Digital 2024: Global Overview Report da DataReport, o Brasil ocupa o segundo lugar, entre 45 países, em termos de proporção de pessoas que usam telas regularmente.

O país fica atrás, apenas, da África do Sul, onde os habitantes dedicam 58,2% de seu tempo utilizando computadores ou smartphones. Curiosamente, apesar de ser um país altamente tecnológico, o Japão ficou em último lugar no estudo. Os usuários japoneses apresentaram as taxas mais baixas de tempo de tela do mundo, consumindo apenas 21,7% de seu tempo para interagir com dispositivos eletrônicos.

Ainda segundo a pesquisa Digital 2024, aproximadamente 56,6% do tempo dos brasileiros é dedicado ao uso de telas, ou seja, nove horas diárias. Mas quais as consequências desse tempo nas plataformas digitais?

Publicado em 2024 pelo jornal estadunidense The Washington Post, um estudo feito pela Pew Research Center aponta que quase metade dos adolescentes dos Estados Unidos acham que os pais se distraem com seus telefones durante as conversas. No entanto, 31% dos pais disseram que isso também é algo que os filhos fazem. Algo como: “já que eles vivem na tela, a gente também pode”. Será?

Um problema que surge, silenciosamente, em paralelo às questões de saúde mental é a quebra de vínculo na relação pais e filhos. E o fortalecimento de laços entre os familiares é essencial para que os filhos se sintam protegidos, respeitados e aceitos. Inclusive é o que reforça a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) divulgada em 2026, em relação ao contexto familiar.

Saber que os pais ou responsáveis legais se importam com seus problemas ou o que elas fazem no seu tempo livre é considerado um importante fator de proteção por essas crianças e adolescentes, conforme diz o levantamento do PeNSe. Entre os dados, 39,7% das meninas e 33,5% dos meninos acham que os pais ou responsáveis não entendem suas preocupações, enquanto 33% das meninas e 19% dos meninos acreditam que ninguém se preocupa com eles.

A falta de atenção e a ausência da família na vida dos filhos podem criar várias barreiras que afetam o desempenho geral de crianças e adolescentes. Entre as consequências estão: a falta de compromisso com os estudos, rebeldia, agressividade, ansiedade e insegurança. Somam-se ainda baixa autoestima, dificuldade de aprendizagem, entre outros fatores.

Pais precisam dar o exemplo

Pesquisadores da Universidade de Michigan, alertam que o uso extrapolado de celulares pelos pais pode afetar negativamente o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças, porque elas precisam de atenção, interação e estímulo para crescerem felizes e saudáveis. Sendo assim, é preciso que os adultos estejam conscientes do que representa essa “fuga da realidade” por meio do uso de telas. Sobretudo, nos momentos em que os filhos mais precisam de assistência e atenção.

Crianças demonstram progresso emocional, social e educacional quando pais se importam com elas. Quando prestam atenção. Por isso, estabelecer limites saudáveis para o próprio tempo de uso de telas é o primeiro passo dos adultos – principalmente, quando estiverem com os filhos.

Valorizar e priorizar atividades que envolvam brincadeiras ao ar livre, ou mesmo em casa mesmo, além de momentos que estimulem conversas e leituras significa fortalecer vínculos afetivos para toda a vida.

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Pais precisam aprender a controlar o próprio uso de telas para não negligenciar os filhos.

Criar espaço e tempo para atividades, brincadeiras, conversas e refeições em família é fundamental para a saúde mental de crianças e adolescentes.