Políticas Públicas e Garantia de Direitos

Os 20 e poucos anos: por que entrar no mercado de trabalho virou teste de resistência?

Publicado em: 18/05/2026
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O sonho de muitos adolescentes é, finalmente, entrar na vida adulta. Em neon, brilham em letras garrafais a expectativa de liberdade e autonomia fora de casa e do controle dos pais. Os 20 e poucos anos foram vendidos como essa idade simbólica. A fase em que a vida adulta começaria a se abrir, ainda sem o peso total das responsabilidades, mas já com alguma promessa de futuro.

Um tempo para a escolha das primeiras experiências profissionais, dos vínculos amorosos mais consistentes, da construção de uma identidade própria. No entanto, a geração que chega a essa etapa está apresentando um reação bem diferente: a de que a vida adulta não começa, mas emperra. O currículo é enviado, a resposta não vem.

O estágio exige experiência anterior. A vaga de entrada pede competências de quem já está no meio do caminho. O processo seletivo se alonga por etapas, testes, vídeos, dinâmicas, entrevistas automatizadas, retornos que não chegam. Antes mesmo de começar, muitos jovens já se sentem atrasados.

Esse talvez seja um dos retratos mais duros da juventude contemporânea: a cobrança ainda chega cedo, mas as condições chegam cada vez mais tarde. Espera-se que o jovem seja autônomo, produtivo, financeiramente organizado, emocionalmente estável, disponível para aprender, flexível para mudar, resiliente diante da frustração e otimista sobre o futuro. Porém, a realidade é a instabilidade.

A promessa de um futuro que parece tão distante

A entrada no mercado de trabalho, que historicamente funcionava como uma espécie de passagem simbólica para a vida adulta, tornou-se um corredor estreito, competitivo e impessoal. Não se trata apenas de não conseguir emprego. Trata-se de não conseguir entrar no mundo que prometeram que estaria de braços abertos, à espera deles.

No Brasil, a contradição é ainda mais evidente porque as estatísticas de emprego podem parecer positivas à primeira vista. A taxa de desocupação fechou o quarto trimestre de 2025 em 5,1%, o menor patamar da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre os jovens de 18 a 24 anos, a desocupação também caiu e chegou a 11,4%, menor nível desde o início da série. Ainda assim, continua sendo mais que o dobro da média nacional – um detalhe que importa.

Esses dados mostram que o mercado pode estar aquecido e, ao mesmo tempo, seguir sendo mais difícil para quem está tentando começar. O desafio dos jovens não aparece apenas na ausência de vagas, mas na qualidade da inserção, na informalidade, na rotatividade, nos estágios prolongados, nos contratos frágeis, na remuneração insuficiente e na sensação de que o primeiro degrau da escada foi retirado.

O economista Michael Madowitz, chefe do Roosevelt Institute, comparou o cenário atual a “um engarrafamento horrível”, em entrevista ao jornal The New York Times, em 2026. “Se você acabou de sair da faculdade, é como tentar entrar numa rodovia e ninguém te deixa entrar”, disse. Mesmo quando conseguem emprego, jovens relatam intensificação do trabalho e redução de autonomia.

Essa percepção também aparece em estudos internacionais. Uma pesquisa do National Bureau of Economic Research identificou aumento expressivo do sofrimento mental entre jovens trabalhadores na última década. Entre trabalhadores com menos de 25 anos, os níveis de sofrimento se aproximaram aos registrados entre jovens desempregados – dado considerado inédito pelos pesquisadores.

Ou seja, o emprego, que antes funcionava como fator de proteção em relação à saúde mental, deixou de cumprir esse papel da mesma forma para parte dos jovens. O trabalho existe, mas muitas vezes não organiza a vida. Gera renda, mas não necessariamente segurança. Ocupa o tempo, mas nem sempre produz sentido.

Um paradoxo cruel na trajetória profissional de jovens

Nunca houve tanta informação disponível sobre carreira, cursos, competências, networking, tecnologia, idiomas, portfólio e marca pessoal. Ao mesmo tempo, nunca tantos jovens relataram a experiência de se preparar indefinidamente sem conseguir transformar preparação em pertencimento. O diploma já não garante entrada. A pós-graduação muitas vezes vira adiamento. O curso complementar vira exigência mínima. A fluência digital, que parecia um diferencial, tornou-se um pressuposto.

Soma-se ao cenário a Inteligência Artificial, que introduz uma nova camada de incerteza. Afinal, tarefas antes associadas às vagas de iniciantes – organizar dados, produzir textos básicos, responder demandas operacionais, fazer triagens, elaborar relatórios simples – estão sendo automatizadas ou reorganizadas. Não é apenas o medo de perder o emprego. Mas de nem mesmo chegar a ocupá-lo.

Reportagens sobre a participação da Geração Z no mercado de trabalho confirmam a erosão das vagas de entrada. Em diferentes países, jovens recém-formados relatam enviar dezenas ou centenas de currículos, passar por plataformas que filtram candidatos antes de qualquer contato humano e receber como retorno o silêncio. Há uma espécie de desumanização do começo.

Aquilo que deveria ser aprendizado passa a ser transformado em seleção permanente. Em vez de alguém que ensina, existe um algoritmo que elimina. Perde-se a cultura de formação daquele profissional que está entrando no mercado de trabalho. É nesse ponto que a questão deixa de ser apenas econômica e passa a ser também cultural: como construir confiança em si quando o mundo do trabalho parece dizer, repetidamente, que você não serve?

Nesse sentido, a comparação com gerações anteriores costuma produzir mais culpa entre os jovens do que compreensão. Muitos adultos enxergam neles: fragilidade, ansiedade, baixa tolerância à frustração ou excesso de expectativa.

Do outro lado, esses mesmos jovens cresceram ouvindo que devem sonhar alto, empreender e se destacar, porém chegam à idade de começar e encontram aluguel proibitivo, salário de entrada insuficiente, competição globalizada, processos seletivos opacos e um futuro tecnológico que ninguém sabe explicar direito.

Frustração e sentimento de fracasso afetam saúde mental

O sofrimento que aparece aos 20 e poucos anos não está relacionado ao medo de trabalhar, mas ao receio de não encontrar lugar. Medo de não conseguir sair da dependência financeira, de escolher errado e ser punido. O impacto dessa combinação entre pressão social e instabilidade econômica desemboca em sofrimento psíquico.

Para o psiquiatra da infância e adolescência Guilherme Polanczyk, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), essa faixa etária tem exigido atenção especial. “Essa é uma população do final da adolescência, início da idade adulta, que tem chamado bastante atenção”, conta.  Isso acontece porque, “nessa faixa da vida há um aumento da incidência de depressão”, alerta.  

Na prática clínica, o sofrimento aparece como vazio e falta de perspectiva. Há uma desesperança. “A ansiedade já vem aumentando ao longo do tempo, mas episódios de depressão começam com incidência grande nesse período. Outros quadros mais graves, como abuso de substâncias e psicose, também podem aparecer”, explica o psiquiatra.

O peso das expectativas também intensifica esse quadro. “Existe uma expectativa de renda rápida e alta, principalmente a partir de modelos de jovens empreendedores que, com 15 ou 20 anos, já têm milhões. Cria-se a ideia de que o sucesso financeiro pode ser rápido e que esse é o objetivo final”, observa Polanczyk.

Quando essa promessa não se concretiza, o especialista observa o surgimento de frustrações e sentimentos de fracasso, que podem evoluir para uma depressão. Por isso, chama atenção para fatores estruturais que estão fora do controle individual. “O tempo de treinamento vem aumentando, a necessidade de especializações, a competição pelo mercado de trabalho e as mudanças que vêm acontecendo. Tudo isso gera um senso de incerteza e insegurança”, avalia.

Em resposta, o psiquiatra explica que o cuidado com a saúde mental deve estar associado ao fortalecimento da autonomia dos pacientes. “É importante oferecer cuidado em saúde mental sem tirar a autonomia e a agência das pessoas. Terapia ou medicação não devem virar uma bengala. O cuidado precisa fortalecer a autonomia.”

Como sociedade e Estado devem olhar para essa geração

As famílias precisam escutar os jovens sem reduzir as questões apresentadas pelos filhos como se fossem “drama”, “preguiça” ou “falta de esforço”. Da mesma forma, escolas e universidades devem aproximar a formação educacional das demandas do mercado de trabalho, sem vender certezas ou promessas.

Empresas também precisam recuperar alguma responsabilidade formativa, uma vez que deveria haver espaço para todos que estão começando a trabalhar. E, por fim, políticas públicas precisam dar garantias a essa juventude, uma geração decisiva na inclusão produtiva e construção de futuro. Aos jovens, fica a mensagem: às vezes, é a sociedade que muda a linha de chegada sem avisar e, depois, chama de fracasso quem busca a largada.

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A juventude contemporânea sofre com uma cobrança que chega cada vez mais cedo, enquanto as condições de trabalho e autonomia financeira surgem cada vez mais tarde.

Especialistas alertam para o aparecimento de sofrimentos psíquicos provocados pelo contexto econômico e cultural.

Estado, empresas, instituições de ensino e famílias devem agir para preservar e incentivar os jovens, que serão fundamentais para a construção de futuro