O que o bullying
revela sobre
pertencimento,
violência e
silêncio na
adolescência
20/04/2025 até 02/05/2025
Se todos sabem que bullying é violência, por que ele continua sendo tratado como algo normal no cotidiano de crianças e adolescentes?
Estudo feito com base em questionário online com 1000 entrevistas.
mais detalhesQuando a violência é reconhecida, mas continua sendo tolerada
Uma das tensões mais reveladoras deste estudo aparece logo no começo: adolescentes e adultos sabem, em grande medida, o que é bullying. A maioria o define como uma forma de violência psicológica e/ou física. Isso é importante porque mostra que já existe, no plano do discurso, certo reconhecimento de que não se trata de brincadeira, exagero ou sensibilidade excessiva.
Mas reconhecer não é o mesmo que transformar. Quando a pesquisa avança, fica claro que várias formas de bullying seguem sendo naturalizadas na convivência cotidiana. Apelidos, brincadeiras de mau gosto, xingamentos, comentários sobre aparência, racismo, gordofobia, homofobia e misoginia continuam circulando em ambientes sociais como se fossem parte inevitável do crescimento. O estudo sugere que o bullying se mantém não porque seja invisível, mas porque parte dele já foi culturalmente acomodada como normalidade.
O sofrimento começa antes do
que muitos adultos imaginam
Outro dado central é a precocidade da experiência. Mais da metade dos respondentes localiza episódios de bullying antes dos 10 anos.
Isso desloca a ideia de que se trata de um problema que começa na adolescência. Quando muitos adolescentes chegam a essa fase da vida, eles já trazem uma história anterior de humilhação, exclusão ou desqualificação.
A adolescência, portanto, não inaugura o sofrimento. Em muitos casos, ela o herda, reorganiza e intensifica. Isso ajuda a compreender por que tantos jovens chegam a essa etapa da vida já marcados por experiências de vergonha, inadequação e medo social.
dos respondentes localiza os primeiros episódios de bullying antes dos 10 anos.
A escola continua sendo o centro,
mas deixou de ser o único território
A escola segue aparecendo como principal ambiente de ocorrência do bullying. Isso não surpreende. É nela que pertencimento, hierarquia, comparação e reconhecimento se tornam experiências diárias. Mas o estudo mostra algo decisivo para o presente: entre os mais velhos, o bullying deixa de estar concentrado apenas no espaço escolar.
Conversas com amigos, redes sociais, família e até ambientes de estágio e trabalho passam a compor o mapa dessa experiência. Isso significa que a violência já não termina no fim da aula. Ela acompanha o sujeito em diferentes circuitos de exposição e convivência.
O bullying também revela as
desigualdades do mundo social
Os dados mostram que o bullying não é homogêneo. A agressão verbal e a exclusão social aparecem como formas mais recorrentes, o que reforça que a dor não depende de agressão física para ser profunda. Ao mesmo tempo, a distribuição dos tipos de violência revela que o bullying reproduz desigualdades já presentes na cultura.
Meninas aparecem mais vulneráveis a gordofobia, machismo e agressões mediadas pelas redes. Meninos relatam mais racismo, agressão física e ameaças. Em escolas particulares, a diversidade de tipos de bullying relatados é maior. O que emerge daí é que o bullying não está fora do mundo social: ele reorganiza, no convívio entre pares, hierarquias já presentes na sociedade.
Formas mais recorrentes
Agressão verbal e exclusão social lideram — a dor não depende de contato físico para ser profunda.
Meninas
relatam mais
- Gordofobia
- Machismo
- Agressões nas redes
Meninos
relatam mais
- Racismo
- Agressão física
- Ameaças
O que fica depois não é apenas
memória: é marca
Os efeitos subjetivos dessa experiência são um dos pontos mais importantes do estudo. Insegurança, tristeza, baixa autoestima, vergonha, ansiedade, medo e depressão aparecem de forma consistente.
Isso desmonta a leitura de que o bullying “passa” quando o episódio termina.
Em muitos casos, ele permanece reverberando por anos. A violência é lembrada, ruminada, reencenada internamente. E, em parte dos casos, ela reaparece na relação com os outros: muitos adolescentes reconhecem já ter tratado alguém mal do mesmo modo como foram tratados. O sofrimento, quando não encontra elaboração e escuta, pode reaparecer como repetição.
Efeitos que aparecem de forma consistente Relacionados a Outras publicações
Entre imaginar acolhimento e receber,
existe uma distância
Muitos adolescentes dizem acreditar que seriam ajudados se sofressem bullying. Mas a experiência concreta é mais instável. Uma parcela expressiva não contou para ninguém. Entre os que contaram, a mãe aparece como principal canal de escuta. A escola, embora seja o principal espaço de ocorrência, não aparece com a mesma força como lugar de acolhimento.
Mais grave ainda: parte dos adolescentes ouviu respostas minimizantes, como “ignore”, “é coisa da idade” ou “você está exagerando”. A pesquisa mostra, assim, que o problema não está apenas em quem agride, mas também na cultura que deslegitima a experiência de quem sofre.
Os de 18 a 24 foram os quem mais se sentiram ajudados, os mais novos ouviram comentarios minimizantes da situação
"É coisa da idade."
"Você está exagerando."
documenta como parte do problema.
Os adultos chegam,
muitas vezes, depois
Os pais parecem confiar mais na atuação das escolas e imaginar respostas mais eficazes do que aquelas relatadas pelos adolescentes. Não se trata necessariamente de indiferença, mas de distância. Muitas vezes, o adulto toma conhecimento da violência quando ela já se acumulou, quando a vergonha já se instalou ou quando o adolescente já aprendeu a esconder.
Esse descompasso é central para compreender por que tantos casos seguem sem mediação adequada.
O que adolescentes
pedem à escola
Quando a pesquisa pergunta o que as escolas poderiam fazer, as respostas ajudam a deslocar o debate. O pedido mais forte não é apenas por punição ou vigilância. Aparecem com força conscientização, educação emocional, rodas de conversa, apoio psicológico, respeito às diferenças, empatia e diálogo com as famílias.
Isso sugere que adolescentes não estão pedindo apenas controle. Estão pedindo mediação social. Estão dizendo que o bullying não será enfrentado apenas quando explode em caso grave, mas quando o ambiente inteiro se torna menos permissivo à humilhação cotidiana.
Dados e números
Fechamento
Lido como fenômeno social, o bullying não é apenas um conflito entre indivíduos. Ele funciona como mecanismo violento de regulação do pertencimento. Humilha para enquadrar, exclui para hierarquizar e ridiculariza para produzir fronteiras entre quem pode ocupar o centro e quem será empurrado para a margem. Enquanto continuar sendo tratado como brincadeira, fase ou exagero, seguirá produzindo sofrimento, silêncio e repetição.