Bullying

O que o bullying
revela sobre
pertencimento,
violência e
silêncio na
adolescência

Desenvolvido por:

Minds & Hearts e Amplifica Aí

Realizado entre:

20/04/2025 até 02/05/2025

Tempo de Leitura: 9 minutos e 41 segundos
O bullying não é um episódio isolado nem um excesso passageiro da convivência. Os dados mostram que ele começa cedo, se espalha por diferentes ambientes e continua reverberando muito depois de acontecer.
Pergunta que guia esta análise

Se todos sabem que bullying é violência, por que ele continua sendo tratado como algo normal no cotidiano de crianças e adolescentes?

Sobre o estudo

Estudo feito com base em questionário online com 1000 entrevistas.

mais detalhes
01

Quando a violência é reconhecida, mas continua sendo tolerada

Uma das tensões mais reveladoras deste estudo aparece logo no começo: adolescentes e adultos sabem, em grande medida, o que é bullying. A maioria o define como uma forma de violência psicológica e/ou física. Isso é importante porque mostra que já existe, no plano do discurso, certo reconhecimento de que não se trata de brincadeira, exagero ou sensibilidade excessiva.

Mas reconhecer não é o mesmo que transformar. Quando a pesquisa avança, fica claro que várias formas de bullying seguem sendo naturalizadas na convivência cotidiana. Apelidos, brincadeiras de mau gosto, xingamentos, comentários sobre aparência, racismo, gordofobia, homofobia e misoginia continuam circulando em ambientes sociais como se fossem parte inevitável do crescimento. O estudo sugere que o bullying se mantém não porque seja invisível, mas porque parte dele já foi culturalmente acomodada como normalidade.

O bullying se mantém não porque seja invisível, mas porque parte dele já foi culturalmente acomodada como normalidade.
02

O sofrimento começa antes do
que muitos adultos imaginam

Outro dado central é a precocidade da experiência. Mais da metade dos respondentes localiza episódios de bullying antes dos 10 anos.

Isso desloca a ideia de que se trata de um problema que começa na adolescência. Quando muitos adolescentes chegam a essa fase da vida, eles já trazem uma história anterior de humilhação, exclusão ou desqualificação.

A adolescência, portanto, não inaugura o sofrimento. Em muitos casos, ela o herda, reorganiza e intensifica. Isso ajuda a compreender por que tantos jovens chegam a essa etapa da vida já marcados por experiências de vergonha, inadequação e medo social.

+50%

dos respondentes localiza os primeiros episódios de bullying antes dos 10 anos.

03

A escola continua sendo o centro,

mas deixou de ser o único território

A escola segue aparecendo como principal ambiente de ocorrência do bullying. Isso não surpreende. É nela que pertencimento, hierarquia, comparação e reconhecimento se tornam experiências diárias. Mas o estudo mostra algo decisivo para o presente: entre os mais velhos, o bullying deixa de estar concentrado apenas no espaço escolar.

Conversas com amigos, redes sociais, família e até ambientes de estágio e trabalho passam a compor o mapa dessa experiência. Isso significa que a violência já não termina no fim da aula. Ela acompanha o sujeito em diferentes circuitos de exposição e convivência.

Escola
Principal
espaço de
ocorrência
Redes
Sociais
Ganham
peso entre os
mais velhos
Amigos
Violência fora
do ambiente
formal
Família
Circuito
doméstico de
exposição
Trabalho/Estágio
Extensão na
vida adulta
jovem
04

O bullying também revela as
desigualdades do mundo social

Os dados mostram que o bullying não é homogêneo. A agressão verbal e a exclusão social aparecem como formas mais recorrentes, o que reforça que a dor não depende de agressão física para ser profunda. Ao mesmo tempo, a distribuição dos tipos de violência revela que o bullying reproduz desigualdades já presentes na cultura.

Meninas aparecem mais vulneráveis a gordofobia, machismo e agressões mediadas pelas redes. Meninos relatam mais racismo, agressão física e ameaças. Em escolas particulares, a diversidade de tipos de bullying relatados é maior. O que emerge daí é que o bullying não está fora do mundo social: ele reorganiza, no convívio entre pares, hierarquias já presentes na sociedade.

Formas mais
recorrentes

Agressão verbal
e exclusão social lideram — a dor não depende de contato físico para ser profunda.

É na escola particular que
se percebe a ocorrência de mais tipos de bullying.

Meninas
relatam mais

  • Gordofobia
  • Machismo
  • Agressões
nas redes

Meninos
relatam mais

  • Racismo
  • Agressão física
  • Ameaças
05

O que fica depois não é apenas
memória: é marca

Os efeitos subjetivos dessa experiência são um dos pontos mais importantes do estudo. Insegurança, tristeza, baixa autoestima, vergonha, ansiedade, medo e depressão aparecem de forma consistente.

Isso desmonta a leitura de que o bullying “passa” quando o episódio termina.

Em muitos casos, ele permanece reverberando por anos. A violência é lembrada, ruminada, reencenada internamente. E, em parte dos casos, ela reaparece na relação com os outros: muitos adolescentes reconhecem já ter tratado alguém mal do mesmo modo como foram tratados. O sofrimento, quando não encontra elaboração e escuta, pode reaparecer como repetição.

Efeitos que aparecem de forma consistente Relacionados a Outras publicações

06

Entre imaginar acolhimento e receber,
existe uma distância

Muitos adolescentes dizem acreditar que seriam ajudados se sofressem bullying. Mas a experiência concreta é mais instável. Uma parcela expressiva não contou para ninguém. Entre os que contaram, a mãe aparece como principal canal de escuta. A escola, embora seja o principal espaço de ocorrência, não aparece com a mesma força como lugar de acolhimento.

Mais grave ainda: parte dos adolescentes ouviu respostas minimizantes, como “ignore”, “é coisa da idade” ou “você está exagerando”. A pesquisa mostra, assim, que o problema não está apenas em quem agride, mas também na cultura que deslegitima a experiência de quem sofre.

Os de 18 a 24 foram os quem mais se sentiram ajudados, os mais novos ouviram comentarios minimizantes da situação

"Ignore." 

"É coisa da idade."
"Você está exagerando."
respostas que a pesquisa

documenta como parte do problema.
07

Os adultos chegam,
muitas vezes, depois

Os pais parecem confiar mais na atuação das escolas e imaginar respostas mais eficazes do que aquelas relatadas pelos adolescentes. Não se trata necessariamente de indiferença, mas de distância. Muitas vezes, o adulto toma conhecimento da violência quando ela já se acumulou, quando a vergonha já se instalou ou quando o adolescente já aprendeu a esconder.

Esse descompasso é central para compreender por que tantos casos seguem sem mediação adequada.

08

O que adolescentes
pedem à escola

Quando a pesquisa pergunta o que as escolas poderiam fazer, as respostas ajudam a deslocar o debate. O pedido mais forte não é apenas por punição ou vigilância. Aparecem com força conscientização, educação emocional, rodas de conversa, apoio psicológico, respeito às diferenças, empatia e diálogo com as famílias.

Isso sugere que adolescentes não estão pedindo apenas controle. Estão pedindo mediação social. Estão dizendo que o bullying não será enfrentado apenas quando explode em caso grave, mas quando o ambiente inteiro se torna menos permissivo à humilhação cotidiana.

09

Dados e números

90–96%
dos adolescentes relatam já ter sofrido algum tipo de bullying.
Mais de cinquenta por cento localiza os primeiros episódios antes dos 10 anos.
A maioria define bullying como violência psicológica e/ou física.
A escola segue sendo o principal espaço, mas redes sociais, amigos e família ganham peso entre os mais velhos.
As formas mais recorrentes são agressão verbal e exclusão social.
Meninas relatam mais gordofobia, machismo e agressões nas redes.
Meninos relatam mais racismo, agressão física e ameaças.
Insegurança, tristeza, baixa autoestima, vergonha, ansiedade e depressão - efeitos mais frequentes.

Fechamento

Lido como fenômeno social, o bullying não é apenas um conflito entre indivíduos. Ele funciona como mecanismo violento de regulação do pertencimento. Humilha para enquadrar, exclui para hierarquizar e ridiculariza para produzir fronteiras entre quem pode ocupar o centro e quem será empurrado para a margem. Enquanto continuar sendo tratado como brincadeira, fase ou exagero, seguirá produzindo sofrimento, silêncio e repetição.