O que a COP das Crianças deixa como legado para a política climática mundial
Um terço da população mundial é composta por crianças e adolescentes – e esse grupo foi contemplado por avanços inéditos em decisões oficiais da 30ª edição Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Realizada em Belém (PA), em 2025, a COP30 foi marcada pela participação de crianças e adolescentes, e deixou como legado progressos significativos na proteção das infâncias frente à crise climática.
“A resposta somos nós”, disse uma menina de 15 anos. “Eu tô como autoridade climática”, afirmou outra, de 9 anos, invertendo uma lógica que restringia a autoridade às gerações que mais contribuíram para o aquecimento global. Um garoto de 16 pediu que os adultos registrassem seu contato no celular – “porque somos nós que devemos ser ouvidos”. Enquanto uma adolescente de 14 resumiu o desequilíbrio estrutural de espaços de decisões políticas: “nossas vozes são escutadas, mas não são consideradas”.
Aliás, foram inúmeras vozes como essas que estiveram presentes nos dois dias da programação oficial da COP 30 dedicada à infância e juventude. Não se tratou de participação ilustrativa. Houve rodas de escuta, plenárias intergeracionais, fóruns conduzidos por lideranças jovens, encontros oficiais com negociadores e organismos internacionais.
Pela primeira vez, em três décadas de Conferências do Clima, crianças e adolescentes não estavam ali “para ver”, mas para incidir. Não como grupo simbólico e sim, como componente necessário nas discussões. O debate, então, não foi sobre “dar voz”, mas sobre reconhecer legitimidade política, reforça João Paulo Amaral, gerente de Natureza do Instituto Alana.
“As crianças são as mais afetadas pela crise climática e também são parte essencial das soluções. Ouvi-las e garantir seus direitos no centro das negociações é construir respostas mais justas e duradouras”, defende.
Efeitos da crise climática sobre a vida de crianças e adolescentes
Segundo a UNICEF, mais de um bilhão de crianças vivem hoje em áreas de risco extremo, expostas, simultaneamente, à escassez de água, poluição do ar, eventos climáticos extremos, calor severo e perda de biodiversidade. Em resposta a esse contexto, surge a COP das Crianças, iniciativa coordenada pelo Instituto Alana, em articulação com a Presidência da COP30.
Afinal, nenhum outro grupo populacional está tão exposto aos impactos climáticos quanto a infância. De acordo com o relatório The Climate Crisis Is a Child Rights Crisis (2021), da UNICEF, cerca de 175 milhões de crianças têm suas rotinas escolares interrompidas anualmente por desastres climáticos.
No Brasil, dados do MapBiomas e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostram que enchentes, deslizamentos e longos períodos de estiagem atingem de forma desproporcional territórios onde há maior concentração de crianças e menor capacidade de resposta do poder público. Por isso, a COP das Crianças assumiu o compromisso de transformar risco em política.
Em Belém, o documento Crianças e as COPs do Clima: uma consideração primordial para seu futuro no presente(2025), apresentado inicialmente na Conferência de Bonn (encontros técnicos que funcionam como uma pré-COP), foi debatido com as autoridades. Nele estão recomendações concretas para incluir a perspectiva da infância nas negociações da Convenção-Quadro da Organização das Nações Unidas (ONU).
Isso significa, por exemplo, que os impactos de cada proposta – da mitigação à adaptação – devem ser avaliados não apenas em toneladas de carbono. Mas, também, em efeitos diretos sobre segurança alimentar, saúde, escolarização, proteção social e bem-estar de crianças e adolescentes.
Declaração da Cop das Crianças: responsabilidade da federação
Em paralelo, outro movimento significativo ocorreu na capital paraense: a assinatura da Declaração da COP das Crianças, articulada pela Rede Nacional das Frentes Parlamentares da Primeira Infância. Ministros, governadores, prefeitos e parlamentares de diferentes regiões assumiram o compromisso público de integrar a pauta climática às políticas destinadas à infância.
Um gesto importante pois desloca a responsabilidade para onde ela precisa estar: na federação. Nos municípios, enchentes destroem escolas. Nos estados, ondas de calor paralisam atividades. E nos territórios vulnerabilizados, crianças caminham quilômetros em busca de água. Ao assumir esse compromisso político nessa escala, o país deu um passo raro numa COP: transformar discurso em infraestruturas possíveis.
Educação é campo estratégico para adaptação climática
A educação também entrou no centro da discussão, não apenas como instrumento de conscientização – enquadramento simplificador que sempre recai sobre a escola –, mas como campo estratégico de adaptação e resiliência. “A educação não é apenas um caminho para o conhecimento, mas um catalisador para a ação climática. Ao empoderar crianças e jovens com ferramentas para entender e enfrentar a crise ambiental, estamos construindo um futuro em que eles não só se adaptem, mas liderem a transformação”, explica o gerente de Natureza do Instituto Alana.
No Dia da Educação da COP30, realizado durante a Conferência em Belém, especialistas brasileiros e internacionais – entre esses, Christopher Castle (Unesco), Andressa Pellanda (Campanha Nacional pelo Direito à Educação), Gersem Baniwa, Laís Fleury e Rachel Trajber (CEMADEN) – trataram de temas importantes. Em pauta: infraestrutura escolar resiliente, protocolos para continuidade da educação durante desastres, formação docente para alfabetização climática e integração da pauta ambiental aos currículos.
Também houve um reconhecimento tardio, mas fundamental: uma escola que não se prepara para eventos extremos está condenada a reproduzir desigualdades. As enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, foram um exemplo disso. Cerca de 2,4 milhões de pessoas foram afetadas, centenas de escolas paralisadas, perdas pedagógicas profundas e um impacto emocional que ainda afeta crianças e adolescentes.
Crianças e adolescentes na mesa de decisões
A presença infantojuvenil na COP30 representou uma conquista simbólica e uma reconfiguração do campo político. Quando uma menina de 9 anos se apresenta como “autoridade climática”, ela não está usando figura de linguagem. Ela está reivindicando um lugar legítimo em um debate que definirá as condições materiais de sua vida adulta. Quando um adolescente diz que suas vozes não são consideradas, ele está indicando que o déficit democrático das negociações climáticas não é apenas geracional, mas estrutural.
Ainda não são as infâncias e adolescências as responsáveis por impedir o avanço da fronteira de desmatamento. Nem por diminuir a emissão global de gases de efeito estufa e eliminar a inércia histórica de países que resistem a transições energéticas justas. Mas a participação das novas gerações altera o horizonte ético das decisões. Além disso, obriga o debate público a reconhecer o que muitas vezes é invisibilizado: quem sofre primeiro, quem perde mais, quem tem menos poder para reagir.
Quando uma menina diz que “a resposta somos nós”, ela não pede protagonismo. Ela denuncia um vácuo de responsabilidade. Essa geração já entendeu algo que os mais velhos continuam adiando: o tempo político da infância não cabe no tempo lento da diplomacia climática.
No entanto, algumas questões permanecem após a Conferência em Belém: que instrumentos legais, institucionais e orçamentários serão construídos depois da participação desses jovens? Conselhos permanentes? Protocolos de consulta? Indicadores de impacto específicos para infância e adolescência? Mecanismos de monitoramento participativo? Depois da COP30, ficou claro que não há mais como ignorar crianças e adolescentes nem decidir algo sem elas.
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Pela primeira vez em três décadas de Conferências do Clima, crianças e adolescentes não estavam ali “para ver”, mas para incidir.
Depois da COP30, ficou claro que não há mais como ignorar crianças e adolescentes nem decidir algo sem elas.