Notas, curtidas e padrões de sucesso: os custos emocionais de crescer
Cobrança por desempenho escolar, expectativa de sucesso no futuro, pressão estética sobre as meninas, busca por aprovação nas redes sociais. Ser adolescente hoje significa lidar com exigências que vêm de todos os lados. Em meio a essa engrenagem de cobranças, o que está em jogo não é apenas o rendimento acadêmico, mas a saúde emocional de uma geração.
Mas por que tanta exigência sobre eles? Será que o desempenho “brilhante” na escola garante um posto de sucesso no mundo profissional? Para Daniel Helene, coordenador pedagógico do Ensino Fundamental 2 da Escola Vera Cruz (SP), “precisamos rever a ideia de sucesso que passamos aos adolescentes”.
O Brasil é hoje o segundo país com maior número de adultos diagnosticados com burnout, uma estafa mental causada pelo trabalho. Os mesmos adultos que cobram desempenho dos adolescentes. “Muitos crescem acreditando que só há espaço para quem se destaca em tudo, mas isso é uma ilusão perigosa. O papel da escola deveria ser ajudar a construir projetos de vida que façam sentido, e não apenas impor metas inalcançáveis”, enfatiza o coordenador pedagógico.
Redes sociais intensificam autocobrança
Pesquisas apontam a gravidade do cenário. Segundo a Fiocruz, 45% dos alunos foram diagnosticados com ansiedade generalizada no primeiro ano da pandemia, e 17% relataram sintomas de depressão. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), transtornos de saúde mental respondem por 16% da carga global de doenças entre jovens de 10 a 19 anos, sendo a depressão uma das principais causas de incapacidade nessa faixa etária.
No Brasil, a UNICEF calcula que 1 em cada 6 adolescentes vive com algum transtorno mental. Durante a pandemia, 72% disseram sentir necessidade de ajuda psicológica, mas 41% nunca recorreram a ninguém. Além disso, 8 em cada 10 manifestaram sentimentos negativos, como ansiedade, nervosismo ou tristeza.
Entre os fatores responsáveis por esse quadro está o uso excessivo das redes sociais. De acordo com o relatório Digital 2023:Global Overview Report da DataReportal, entre 45 nações, o Brasil é o segundo país com mais pessoas em frente a uma tela. Em média, os brasileiros passam 56,6% das horas em que estão acordados em frente a telas, ou seja, cerca de nove horas do dia. Entre os efeitos desse comportamento, especialistas alertam para a comparação constante, a cobrança por performance digital e o aumento do risco de frustração, insegurança e solidão.
Projetos fortalecem atenção e escuta no ambiente escolar
Nesse contexto, a escola ganha um papel central. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEDUC-SP), por exemplo, dispõe de dois programas voltados à promoção do bem-estar socioemocional, da convivência democrática e da melhoria dos processos de ensino aprendizagem, como o Conviva SP e Psicólogos nas Escolas. Além disso, dispõe de projetos interdisciplinares e avaliações contínuas.
Na rede municipal, o Núcleo de Apoio e Acompanhamento para a Aprendizagem (NAAPA) atua em situações de sofrimento psíquico com escuta qualificada e articulação com as famílias. Já em escolas privadas, um exemplo de iniciativa é realizado pelo Centro Educacional Pioneiro e a Escola Vera Cruz. A instituição de ensino cria espaços de proteção e pertencimento – da ampliação da arte e do esporte – e coletivos como o Guardião das Diferenças e da Equidade, que fortalecem a diversidade e a convivência.
Outro caminho é uma educação digital que estimule o pensamento crítico. “Não se trata de demonizar a internet, mas de criar espaços de reflexão sobre como ela afeta nosso olhar para nós mesmos e para o outro”, explica o coordenador pedagógico Daniel Helene. Sendo assim, “a escola precisa oferecer escuta e debate contínuos, porque são nesses espaços que o adolescente entende que não está sozinho”, acrescenta.
Derrubar modelos de sucesso e estereótipos
As pressões de gênero também apresentam desafios. No Centro Educacional Pioneiro, na cidade de São Paulo, um comitê de alunas propôs mudanças no uniforme escolar para adequá-lo ao conforto e ao respeito aos corpos femininos. Um exemplo de como a escola pode escutar e ajustar estruturas que, muitas vezes, reforçam padrões de cobrança e invisibilizam as demandas dos jovens.
“A adolescência não é apenas uma ponte para a vida adulta, mas uma etapa em si, que precisa ser vivida com dignidade. A escola não deve impor um modelo único de sucesso, mas apoiar a construção de trajetórias singulares, que deem espaço para a saúde emocional”, ressalta o coordenador pedagógico.
Mais do que formar alunos de destaque, o desafio da sociedade é proteger adolescentes de uma sobrecarga que ameaça seu equilíbrio emocional. Dar espaço para que errem, experimentem, encontrem o próprio ritmo e não sejam apenas medidos por boletins, métricas ou padrões de aparência é tarefa urgente e coletiva.
Adultos precisam fazer a lição de casa
Pais e mães ainda depositam muitas exigências sobre seus filhos adolescentes. Tal como a cobrança por notas altas, a superlotação de agendas com atividades, a expectativa de melhor desempenho em todas as frentes. Tudo isso é como uma bomba no colo do adolescente. Ao final, esse tipo de comportamento pode reforçar a lógica de que só há espaço para jovens “bem-sucedidos”.
Então, como aliviar a pressão sobre os adolescentes? Pegar mais leve nas cobranças significa incentivar o esforço de maneira saudável. Lembre-se de que transformar cada nota ou resultado em prova de valor pessoal só amplia a ansiedade do adolescente. Reconheça o processo, não apenas a performance.
Outra orientação: exija sem extrapolar. Metas são importantes, mas precisam ser realistas. E cobranças desmedidas em múltiplas áreas – escola, esporte, aparência, redes sociais – podem se tornar insustentáveis.
Também é importante proteger os filhos sem sufocar. Afinal, estar presente não significa controlar cada passo. Criar espaços de diálogo e escuta protege mais do que vigiar o adolescente. Além disso, o excesso de tutela pode minar a autonomia e a confiança.
Adultos não podem esquecer de valorizar o descanso e o ócio. Rotinas superlotadas de compromissos eliminam momentos de respiro do adolescente. O ócio criativo é parte fundamental do desenvolvimento saudável dessa fase da vida.
Outra ação importante para os pais é criar espaço para uma conversa sobre redes sociais. Isso pode ajudar o adolescente a desenvolver uma visão crítica sobre padrões irreais e comparações no mundo digital, além de dialogar sobre riscos e possibilidades. Por fim, ofereça apoio emocional. Validar sentimentos e acolher fragilidades dos jovens ajudam a reduzir o peso da solidão que muitos experimentam. Se necessário, busque apoio profissional.
AMPLIFICA ESSA
Ser adolescente hoje significa lidar com exigências que vêm de todos os lados.
O desafio da sociedade é proteger adolescentes de uma sobrecarga que ameaça seu equilíbrio emocional.