Políticas Públicas e Garantia de Direitos

Meninos também precisam falar sobre menstruação

Publicado em: 01/06/2026
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Dignidade menstrual não é uma pauta apenas das meninas. É uma conversa sobre corpo, cuidado, vergonha, convivência e educação que inclui os garotos. “Se mais meninos pudessem aprender sobre o que acontece no corpo das meninas, a gente poderia conversar com eles sobre muitas coisas e não teria tanto bullying menstrual como tem nas escolas”, disse Beatriz, 17 anos, uma das adolescentes do Girl Up, movimento presente no evento Ser menina não deveria doer, sobre proteção das meninas da infância à adolescência, realizado pelo Instituto Alana, em maio de 2026, na cidade de Brasília (DF).

A adolescente Beatriz mora no estado do Maranhão e participou de um dos painéis do evento, na discussão da importância de trazer os meninos para dentro da conversa sobre saúde menstrual. Essa, aliás, foi uma das pautas da Semana Internacional da Dignidade Menstrual na capital do país. Beatriz levanta uma questão que ainda é recente no debate público: será que os meninos não deveriam aprender sobre o tema?

Como os garotos não menstruam, essa última pergunta pode parecer estranha à primeira vista. Talvez por isso, essa questão deva ser refletida por todos. Inclusive, para que o tema não esteja restrito às meninas e mulheres que menstruam e com isso torna-se “estranho” para meninos e homens. Afinal, a escola – e o mundo – não é feita apenas de corpos, experiências e dores iguais. O ambiente escolar é o primeiro espaço público onde crianças e adolescentes aprendem, diariamente, a olhar um para o outro em todas as suas particularidades, com respeito e empatia.

Assim, quando os meninos não aprendem sobre o que é menstruação, eles não ficam neutros. Pelo contrário, eles criam preconceitos. Fazem piadas, provocam as meninas e as colocam em situações constrangedoras, como ao fazer “cara de nojo” quando o assunto vem à tona. E isso acontece porque eles não têm informação nem conhecimento sobre o que está acontecendo com o corpo das meninas.

Tabu atravessado por cochichos, vergonha e medo

“Se eu soubesse que aquele jeito nervoso era por conta das dores que ela tava sentindo, eu não teria provocado tanto.” A frase foi dita por um menino adolescente à pesquisadora especialista no comportamento adolescente Carolina Delboni, em uma roda de conversas no evento Ser menina não deveria doer. Naquele momento, a especialista explicou ao jovem o que era Tensão Pré-Menstrual (TPM) e por quê havia dores provocadas pela cólica menstrual. Sua constatação foi de que ninguém havia ensinado os meninos a respeito.

É que durante muito tempo, a menstruação foi considerada um tabu. Tratada como uma conversa exclusiva de meninas e mulheres, de preferência no banheiro feminino, em cochichos. Uma questão a ser escondida no estojo, no bolso da mochila, na pressa para atravessar o corredor sem que ninguém percebesse. Só que aquilo que uma sociedade nos obriga a esconder costuma voltar como vergonha. E a vergonha, na adolescência, provoca muitas sequelas.

A vergonha pode moldar o jeito como uma menina sente o próprio corpo, como participa das aulas na escola, pratica um esporte, pede ajuda, fala da dor, compreende seus limites e se sente autorizada, ou não, a existir sem pedir desculpas. O policy paper Ser menina não deveria doer, lançado pelo Instituto Alana, ajuda a ampliar essa discussão na sociedade. Para isso, o documento propõe mudanças estruturais nas políticas de saúde e educação no Brasil para combater a naturalização da dor menstrual e garantir a dignidade menstrual.

Um direito que extrapola a distribuição de absorventes

A dignidade menstrual não deve ser reduzida à distribuição de absorventes higiênicos femininos, embora esse acesso seja básico, urgente e inegociável. É que o tema ainda abrange: saúde integral, educação, infraestrutura, acesso à informação, dor menstrual, permanência escolar, lazer, esporte, profissionalização, convivência familiar e comunitária. Ele também demanda a compreensão de que a menarca não define nem transforma uma menina em mulher adulta.

Uma menina que menstrua continua sendo uma menina – seja ela criança ou adolescente –, que precisa de proteção, cuidado, informação e escuta. Esse ponto é fundamental porque a menstruação, para muitas, não chega apenas como um evento biológico. Chega como um marco social. “Agora você já é uma mocinha”, é uma das sentenças proferidas pelos adultos A partir desse momento, algumas passam a ser mais vigiadas, controladas, sexualizadas e cobradas a esconder o corpo, a suportar dor e a “dar conta”.

A Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (PeNSe) 2024, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde e apoio do Ministério da Educação, mostrou os desafios enfrentados pelas meninas nesse cenário. Dados revelam que 15,3% das adolescentes de 13 a 17 anos deixaram de ir à escola ao menos um dia no ano por falta de absorvente. Na rede pública, esse índice sobe para 16,9%; na rede privada, fica em 6,4%. No Amazonas, chega a 27,9%.

Isso significa que a falta de um item básico de higiene ainda prejudica a formação escolar das meninas. E quando uma delas falta a aula porque menstruou e não tinha absorvente, isso não significa apenas um dia perdido. Esta é uma mensagem violenta sobre a invisibilidade desse corpo para a política pública.

Outro levantamento, desta vez feito pelo Instituto Alana, em parceria com o Instituto Equidade.info, revela outra camada: a dor. Divulgada no evento em Brasília, a pesquisa ouviu estudantes, docentes e gestores das redes pública e privada de todas as regiões do país e mostrou que seis em cada dez estudantes que menstruam relatam cólicas moderadas ou fortes que atrapalham a rotina escolar e exigem uso de medicação.

Soma-se ainda a estimativa de que 4 em cada 10 alunas faltam às aulas mensalmente por causa de dores menstruais. E o principal sintoma que as impede de ir à escola é a cólica, embora também apareçam: cansaço, dores no corpo, dor de cabeça, vergonha, medo de vazamento do fluxo menstrual, falta de banheiro e ausência de produtos de higiene.

Diante desse cenário, constata-se uma mudança importante na pauta pública. Durante anos, falar de dignidade menstrual significou, sobretudo, falar de pobreza menstrual e da falta de absorventes. Questões que não devem sair do debate. No entanto, outros fatores entram nessa equação.

As meninas estão faltando aulas por causa de dores pélvicas. E a dor menstrual, quando naturalizada, ensina a desacreditarem no próprio corpo. Elas aprendem que sentir dor “faz parte”, que reclamar é “exagero” e que pedir ajuda é “fraqueza”. Dessa forma, começam a acreditar que o problema é somente delas e que o corpo feminino deve suportar tudo, em silêncio.

Desconhecimento gera preconceito e bullying

Onde entram os meninos nessa história? Eles entram nesse contexto justamente porque a menstruação não acontece fora da convivência. A menstruação acontece na escola, no grupo, na aula de educação física, no corredor, no banheiro, no transporte, na casa, na internet, na roda de amigos. A experiência menstrual de uma menina não é determinada apenas pelo absorvente que ela tem ou não tem, mas pelo ambiente onde ela está inserida. E esse espaço inclui os meninos, que ainda não conseguem compreender a dimensão do contexto.

De acordo com dados da pesquisa realizada pelos institutos Alana e Equidade.info, 36,8% dos estudantes do sexo masculino dizem não pensar muito sobre menstruação, quase o dobro do percentual entre meninas. Também mostrou que aproximadamente 25% dos meninos acredita que a menstruação pode atrapalhar a escola ou a prática esportiva, enquanto mais de 40% das alunas reconhecem esse impacto.

Ou seja, não se trata apenas de falta de informação sobre biologia. Trata-se de uma distância emocional. Os garotos não pensam muito sobre o tema porque foram educados a se distanciar daquilo que não lhes diz respeito. Só que, na prática, não é bem assim.

Afinal, os meninos dividem com as meninas a sala de aula, trabalhos, quadras poliesportivas, ônibus, festas, grupos de WhatsApp, amizades, namoros, famílias e, mais tarde, relações de trabalho. Quer dizer, a menstruação diz respeito a eles porque muitos serão pais, parceiros, professores, gestores, médicos, políticos, comunicadores.

Só que quando uma sociedade educa meninos a ignorar o que acontece no corpo das meninas, ela também os educa a não reconhecer o sofrimento que elas. Como resultado, a ignorância se transforma em piadas que, por sua vez, geram constrangimento. Dessa postura podem surgir comentários indiscretos sobre a roupa manchada de sangue e um deboche sobre a TPM.

Comentários também podem se tornar uma desqualificação da dor menstrual, que acompanha uma frase bastante conhecida: “isso é coisa de mulher”. Uma sentença curta que, no entanto, diz muito sobre as desigualdades de gênero. Ela separa o mundo entre o que merece ser discutido publicamente e o que deve ficar escondido porque diz respeito ao corpo feminino. Uma crença de que determinados assuntos não cabem aos meninos pois não dizem respeito ao corpo deles. Portanto, “corpo de menina é problema de menina” e “dor de menina é exagero”.

Quando se ensina que menstruação é algo “sujo”, “íntimo demais”, “vergonhoso demais” ou “irrelevante” para entrar na conversa de todos, outra educação precisa intervir. Principalmente na última década, quando se fala de um contexto que envolve violência, misoginia, machosfera, cultura digital, consentimento, pornografia, masculinidade e relações afetivas.

Educação para masculinidades saudáveis

Diante de tudo isso, é preciso agir de maneira propositiva. Isso significa defender que a educação dos meninos envolva situações concretas, por exemplo, o aprendizado sobre ciclo menstrual, sobre cólica e dores que podem incapacitar meninas e mulheres. Significa reformular o significado da menstruação, não mais determinado por uma “cara nojo”.

Precisamos de uma educação que reconheça quando uma menina necessita ajuda sem ser exposta, sem transformar incômodos em humilhação, sem risos sobre absorvente. Uma educação que não associe a TPM a insulto, nem reduza o corpo feminino às ideias de mistério, piada ou ameaça.

Meninos precisam aprender sobre o próprio corpo e sobre o corpo do outro. Esse também é o ponto de virada para a construção de masculinidades mais saudáveis. Afinal, eles não nascem machistas, mas aprendem a se tornar machistas. Quando uma cultura ensina, de muitas formas, que o feminino é menor, frágil e confuso, a menstruação torna-se mais um componente estigmatizado.

Com isso, ao convidar os mesmos para essa roda de conversa, eles poderão chegar abertos, dispostos a aprender e a mudar antigos comportamentos. Isso não significa, claro, transformá-los em protagonistas de uma pauta que nasce da experiência das meninas. Mas sim, responsabilizá-los como integrantes da mesma sociedade, na qual todos têm direito ao respeito e ao cuidado.

Para isso, a escola precisa entender que dignidade menstrual não é um problema de acesso a banheiro feminino, mas de política educacional, saúde pública, infraestrutura e da cultura de gênero, que atravessa as relações. Por fim, a dignidade menstrual nos obriga a refletir sobre uma importante pergunta: que tipo de educação oferecemos aos meninos sobre a vida das meninas?

Não adianta cobrar, na vida adulta, homens empáticos, parceiros, respeitosos e capazes de dividir responsabilidades se, na adolescência, ensinamos que existem questões e situações restritas às meninas e que isso não é problema deles. Tampouco adianta falar de combate à misoginia sem ensiná-los a reconhecer as microagressões cotidianas, aparentemente banais, nas quais a desigualdade se instala.

Uma sociedade que invisibiliza a violência contra meninas e mulheres que menstruam precisa rever seu conceito de direitos e deveres. Talvez seja essa uma das dimensões mais bonitas e difíceis da educação: formar alguém capaz de se importar com aquilo que não vive na própria pele. Meninos não menstruam, porém convivem com quem menstrua. E isso basta para que essa conversa também seja com eles.

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Meninos não menstruam, mas convivem com quem menstrua. E isso basta para que essa conversa também seja com eles.

A escola precisa entender que dignidade menstrual não é um problema de acesso a banheiro feminino e absorvente, mas de política educacional, de saúde pública, de infraestrutura e da cultura de gênero, que atravessa as relações.