Gênero, Corpo e Relações

Meninos aprendem a odiar, meninas aprendem a se odiar

Publicado em: 12/05/2025
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Enquanto a atenção da sociedade se volta para meninos capturados por discursos de ódio nas redes sociais, outro movimento silencioso avança na adolescência: meninas adoecem em frente ao espelho. Ao mesmo tempo em que garotos são tragados por comunidades e vídeos red pill, com promessas de poder, as meninas são empurradas para o universo da vigilância estética, da culpa, da magreza extrema e da comparação permanente.

Em 2025, o debate sobre o impacto da misoginia nas redes ganhou repercussão com a minissérie britânica Adolescência, da plataforma de streaming Netflix. Na produção audiovisual, levanta-se essa questão não apenas pelo olhar social da adolescência em si, mas para um cenário machista e misógino criado por adultos que cooptam meninos cada vez mais novos. Mas e as meninas? Por quais discursos elas são capturadas? Para onde elas vão enquanto os meninos mergulham em fóruns que reproduzem violências?

Meninas mergulham para dentro de si, ou melhor, elas fazem um movimento de dentro para fora quando tentam caber em corpos considerados padrão de beleza. Dessa maneira, o que antes soava como empoderamento revela-se como uma estratégia de controle sofisticada. Estéticas como Clean Girl, Master Girl ou Glam Mom são vendidas como metas. Mas, na prática, funcionam como manuais de autopoliciamento feminino.

Meninos e meninas são atravessados por autocobrança

Meninos aprendem a “dominar o mundo” e meninas são ensinadas a “dominar” cada centímetro do corpo. Cabelo, pele, postura, alimentação, respiração, olhar. Tudo deve ser contido, refinado, ajustado. E, se possível, apagado. A filósofa estadunidense Sandra Lee Bartky já denunciava, nos anos 1990, que o poder sobre os corpos femininos não era apenas físico, mas sutil, psicológico e interiorizado.

No século 21, esse controle tem nome, algoritmo e alcance global. Transtornos alimentares se tornaram o retrato mais cruel dessa lógica. Segundo a Academia Internacional de Transtornos Alimentares (IAEDP), mais de 90% dos casos surgem entre a infância e a adolescência – e o crescimento, na última década, é alarmante.

Estudo publicado na revista Nutrients (2023), com 350 jovens usuários de redes sociais, mostrou que 41% apresentavam uso compulsivo das plataformas digitais, e 42% desenvolveram algum transtorno alimentar. Já a Associação Nacional de Transtornos Alimentares da Argentina aponta que os transtornos alimentares representam a segunda maior taxa de mortalidade entre todos os transtornos mentais, atrás apenas da dependência de opioides.

No Brasil, ainda não existem regulamentações específicas para redes sociais que publicam conteúdos que instigam o aumento de casos de transtornos alimentares. A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), o Marco Civil da Internet e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) trazem diretrizes gerais que são insuficientes diante da complexidade da situação.

Consequências de um ideal reproduzido nas redes

De acordo com o médico Wagner Gurgel, psiquiatra da Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq-USP), o aumento de transtornos alimentares entre meninas é uma realidade dentro e fora do país. “Existem pesquisas por todo mundo comprovando esse aumento”, atesta.

O psiquiatra destaca que “também foi sentido um movimento pela procura de atendimento, tanto ambulatorial, quanto na nossa fila de espera para internação pelo PROTAD na enfermaria infantil”, conta. Sendo que o Programa de Atendimento, Ensino e Pesquisa em Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência (PROTAD) atende somente pacientes pelo SUS que tenham entre 7 e 17 anos incompletos.

Segundo Gurgel, vários fatores explicam esse fenômeno. “Isolamento durante um período crítico de socialização e formação de identidade no início da adolescência; menor contato com pares e mudanças do corpo durante a puberdade. Questões que facilitaram o aumento da ocorrência de distorção da autoimagem”, esclarece.

Nesse contexto, observa o especialista, o ambiente familiar também tem peso. Da mesma forma que os pais podem detectar comportamentos atípicos dos adolescentes durante as refeições, em outros casos, a família representa um modelo negativo, pela repetição da cultura da dieta. “A pandemia de covid-19 também aumentou riscos de insegurança alimentar em extratos de renda mais baixos, o que costuma elevar comportamentos de compulsão alimentar e casos de obesidade”, recorda.

Por fim, o aumento do tempo de tela e de uso de redes sociais, como Instagram e TikTok, impactaram negativamente a autoimagem, enfatiza o psiquiatra, devido a criação de padrões estéticos e filtros de imagem. Outro fator preocupante é que “crianças cada vez mais jovens têm tido acesso às redes sem supervisão adequada”, alerta.

Paralelamente ao aumento no número de casos de distorção da autoimagem, a natureza do sofrimento também mudou. Se meninos são atraídos por discursos de ódio direcionados a outros, meninas se punem de forma silenciosa. Essa característica nas meninas, explica Gurgel, é uma expressão moderna da violência, embora internalizada e muitas vezes invisível. “Assim como vimos, há cerca de uma década, o aumento de comportamentos autolesivos sem intenção suicida entre jovens, principalmente do sexo feminino, como uma forma de expressar sofrimento.”

O médico reforça que esse auto-ódio é alimentado pela exposição constante a padrões estéticos impostos no ambiente digital. “Os padrões de beleza estão, em geral, associados ao que é exclusivo. Índice de Massa Corporal (IMC) inatingíveis, como a volta dos corpos magros como ideal, só atendem ao mercado da cultura da dieta e a influenciadores de emagrecimento.

Também atendem ao mercado de uso indiscriminado de medicações antiobesidade, sem indicação clínica segura, como em crianças”, alerta.

Alfabetização digital é ferramenta de cuidado e segurança

Como as meninas absorvem, cada vez mais cedo, mensagens e imagens que vinculam seu valor pessoal à aparência física, isso as leva à autocobrança excessiva e à autovigilância. “Esse tipo de exposição pode produzir padrões neurológicos semelhantes aos da depressão e estresse pós-traumático, com níveis elevados de cortisol e alterações nos circuitos de recompensa”, adverte.

Diante desse cenário, a alfabetização digital seria uma resposta, segundo o especialista. “Concordo plenamente com a necessidade de educar as crianças sobre como utilizar a internet e dispositivos conectados a uma vastidão de conteúdos. Considerar a idade mais adequada para o acesso às redes sociais é outro tema difícil, mas fica cada vez mais claro que quanto mais tarde, melhor”, observa.

Nesse processo de alfabetização digital, o psiquiatra Wagner Gurgel destaca a necessidade de ensinar jovens a analisar criticamente os conteúdos de mídia que consomem. Principalmente quando se referem a questões como alimentação e imagem corporal. Uma saída mais efetiva seria o trabalho em conjunto, no qual os pais moderam e dão exemplos de como lidar com os conteúdos acessados pelos filhos.

Família e escola devem acompanhar de perto

Os pais precisam estar presentes desde o início da alfabetização digital dos filhos. “Ela sempre deve ser parte do tratamento dos transtornos alimentares, ainda mais na infância e na adolescência. Também é importante manter diálogo aberto para servir como ponto de apoio para adolescentes que estejam sofrendo”, orienta Gurgel.

Para o  médico, as escolas também exercem um papel importante. Programas educativos sobre nutrição adequada, imagem corporal positiva e autoestima somam-se à capacitação de professores para identificar sinais precoces de transtornos alimentares e políticas de tolerância zero com bullying, especialmente relacionado a peso e aparência.

“Os principais sinais de alerta incluem mudanças comportamentais em relação aos alimentos, como decisões radicais e repentinas de mudar alimentação (como adoção repentina do veganismo), consultas frequentes a rótulos de alimentos, aumento excessivo de exercícios físicos, maior isolamento social e maior tempo no banheiro após refeições”, descreve.

Alterações físicas como perda ou ganho repentino de peso, bradicardia em repouso, dores de cabeça constantes e fadiga são outros sinais importantes. Assim como desculpas frequentes para não comer junto a outras pessoas.

“É fundamental manter um diálogo aberto sobre padrões de beleza irreais, valorizar qualidades além da aparência física e buscar ajuda profissional ao primeiro sinal de problema. Promover refeições em conjunto, criar ambientes seguros para observar hábitos alimentares e monitorar o uso de redes sociais são outras medidas essenciais”, aconselha o psiquiatra.

Por fim, detecção e intervenção precoces são determinantes para a recuperação desses jovens. “Muitos pacientes podem sofrer anos antes de buscar ajuda, em parte pela culpa associada aos comportamentos compulsivos e purgativos. Por isso, as famílias precisam ficar atentas para perceber os sinais previamente”, conclui.

AMPLIFICA ESSA

Meninos aprendem a odiar, enquanto meninas aprendem a se odiar.

Muitas vezes silencioso, o sofrimento das meninas está associado à autocobrança e autovigilância do corpo para atender padrões estéticos determinados pelas redes sociais.