Sociedade e Comportamento

Meninos à deriva: adolescência, masculinidade e o risco de ódio. O que fazer?

Publicado em: 18/08/2025
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Em um mundo que tenta redefinir a masculinidade, mas repete velhos padrões, meninos crescem bombardeados por discursos de ódio, principalmente, nas plataformas digitais. O que fazer?

A sociedade contemporânea ainda se baseia na necessidade de uma definição para o que significa “ser homem”. Essa ideia permanece acompanhada por padrões de força e dominação. Assim, meninos adolescentes são ensinados a viver conforme tais estereótipos. Assim, eles crescem expostos a discursos de ódio.

E grande parte dessas estigmatizações é reforçada pelo ambiente digital, transformado em armadilha para a formação emocional e social de um garoto. Dessa maneira, a masculinidade se constrói em um cenário de excesso de informação e hiperconexão. As redes sociais, especialmente YouTube, TikTok, tornaram-se um dos principais espaços de formação de opinião.

Pesquisas do Instituto Promundo (2022) mostram que 48% dos meninos adolescentes já tiveram contato com conteúdo misógino online. Já o levantamento Jovens e o Ódio nas Redes (SaferNet, 2023) aponta que o Brasil registrou um aumento de 58% nas denúncias de discurso de ódio contra mulheres em um único ano. E os adolescentes estão entre os principais consumidores e propagadores desse tipo de conteúdo.

As violências nos discursos de masculinidade

Meninos não são monstros, nem vilões. Numa fase de desenvolvimento e construção da própria  identidade, eles estão tentando entender quem são. Entre “seja forte” e “seja gentil”, muitos ficam perdidos em meio a expectativas contraditórias. Muitos acabam reproduzindo frases machistas, piadas violentas e julgamentos disfarçados de opinião porque é isso que ouvem, assistem e acessam, diariamente, como referência.

Historicamente, a masculinidade esteve associada à força física, competitividade e liderança, enquanto a vulnerabilidade sempre esteve associada à fraqueza. Mesmo que um novo discurso público valorize sensibilidade e igualdade, o “treinamento”, cotidiano que muitos meninos recebem – em casa, no ambiente escolar, nas telas e nos jogos – reforça comportamentos de dominação e desrespeito.

Dados da Unesco de 2023 mostram que meninos expostos a conteúdos violentos e misóginos têm maior probabilidade de naturalizar a violência de gênero. O que ainda aumenta os riscos de reproduzi-la por onde eles circulam. E quem sofre os impactos desse cenário não são apenas as meninas, mas também os próprios meninos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que meninos têm quatro vezes mais chances de morrer por suicídio do que meninas. Além disso, segundo dados de 2023 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, esses jovens são as principais vítimas e os principais autores de violência letal. Portanto, estamos diante de um ciclo de masculinidade associado ao risco e à morte.

Segundo artigos publicados entre 2023 e 2025 pelo professor estadunidense Scott Galloway, da Universidade de Nova York, esses jovens têm três vezes mais chances de desenvolver dependência de substâncias químicas, quatro vezes mais probabilidade de tirar a própria vida e 12 vezes mais chances de serem presos. Os níveis recorde de depressão também agravam esse quadro.

A pornografia e a masculinidade tóxica

Discursos que promovem uma masculinidade tóxica também assumem o formato de conteúdo adulto consumido por meninos. O médico hebiatra – especialista em adolescentes – do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (NESA) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Felipe Fortes explica que a pornografia exerce um papel crucial na formação sexual dos adolescentes. Em vez de servir como ferramenta de aprendizado, esse tipo de conteúdo se baseia em roteiros irreais, violentos e centrados em performance.

“Os meninos adolescentes estão sendo educados sexualmente pela pornografia, o que é muito grave. A esmagadora maioria dos jovens que atendo só consegue se masturbar com vídeos pornográficos, conteúdos roteirizados, irreais e violentos”, constata o médico hebiatra. Para Fortes, esse recurso afeta diretamente a construção social da masculinidade

contemporânea. “Eles perdem a capacidade de valorizar o subjetivo, afetuoso e delicado”, observa.

Entre os impactos gerados pelo consumo de pornografia na adolescência, um estudo da UNICEF (2021), mostra que quanto mais cedo o contato com esse tipo de conteúdo, maiores os impactos na percepção de consentimento, afetividade e respeito nas relações. De acordo com uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Sexologia (2022), 81% dos meninos entre 13 e 17 anos afirmaram que o primeiro contato com pornografia foi antes dos 14 anos. Entre esses meninos, mais da metade relatou assistir vídeos pornográficos pelo menos uma vez por semana.

A organização britânica Children's Commissioner também constatou outras consequências. Dados de 2023 mostram que 50% dos adolescentes do sexo masculino acreditam que a pornografia retrata com precisão o que as mulheres gostam. E essa crença contribui para a perpetuação de práticas violentas e relações desiguais.

Em outras palavras, a exposição precoce a conteúdos pornográficos molda expectativas e reforça a ideia de que relações são baseadas em dominação e desempenho, e não em cuidado e reciprocidade. Dessa forma, os meninos perdem a capacidade de valorizar o afeto, a subjetividade e o tempo do outro. “Estão numa disputa acirrada na qual ninguém ganha. Todos perdem”, resume Fortes.

Para o médico hebiatra, no final, o machismo se volta contra os próprios meninos porque não permite a livre expressão de sentimentos, especialmente na adolescência, fase marcada por um turbilhão de emoções. E essa repressão gera sofrimento mental, ansiedade, problemas de sono, dificuldades escolares e lacunas na socialização. Impactos que se estendem para a vida adulta.

Caminhos para mudanças estruturais na sociedade

Coordenadora do Protocolo Eu Te Vejo, projeto da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, a juíza Vanessa Cavalieri destaca que nenhuma legislação consegue resolver sozinha essa questão. “Quando falamos de mudança de uma cultura machista, de uma estrutura social que silencia os homens e impõe uma masculinidade tóxica, isso não se muda com legislação. Precisamos realmente de uma mudança social, uma mudança na cultura da sociedade e dessa geração que está educando esses meninos”, reforça.

Para isso, a juíza destaca algumas ações. “Acho que precisamos trazer a educação socioemocional para dentro das escolas, algo que embora esteja na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), desde 2017, ainda não foi implementado pelo Ministério da Educação (MEC) nem é realidade na maioria das escolas brasileiras”, analisa.

Ou seja, no ambiente escolar, a incorporação da educação socioemocional ao dia a dia de crianças e adolescentes poderia, segundo a juíza, realizar mudanças profundas. “O Protocolo Eu Te Vejo defende que conflitos nas escolas sejam tratados como oportunidades de aprendizado, para desenvolver habilidades socioemocionais como negociação, escuta ativa e comunicação não violenta”, explica.

Consequentemente, “esses métodos, uma vez aprendidos na escola, chegam até mesmo às famílias, criando ambientes mais saudáveis e pacíficos para todos”, complementa Cavalieri. Nos casos de violência de gênero praticados por adolescentes, Vanessa Cavalieri acredita em medidas restaurativas que têm sido adotadas. “Na Vara da Infância e Juventude acreditamos que, além da medida socioeducativa, é possível promover mudanças reais em adolescentes”, conta.

Para isso, a juíza explica o impacto da organização de grupos reflexivos sobre gênero. Um espaço “onde esses jovens participam de dinâmicas, assistem vídeos, ouvem histórias e são incentivados a refletir sobre seus valores e crenças, questionando modelos recebidos e aprendendo a se relacionar com respeito, de forma não violenta e não machista”, acrescenta.

Masculinidade não deve ser uma ameaça

Refletir sobre a adolescência de meninos hoje é reconhecer que a sociedade está diante de uma encruzilhada. De um lado, ainda se permite que modelos que adoecem e violentam permaneçam. Por outro lado, procura-se construir, coletivamente, novas formas de educar, conviver e cuidar.

A transformação da masculinidade não é uma ameaça, mas uma chance. Ao adotar esse caminho que demanda grandes mudanças, será preciso escutar os adolescentes, oferecer ferramentas para que se expressem com autenticidade, criar ambientes onde possam ser vulneráveis e demonstrar afeto sem medo, sem precisar se esconder.

Para isso, múltiplas frentes devem entrar em ação. Famílias atentas, escolas comprometidas, redes sociais regulamentadas, políticas públicas eficazes e adultos dispostos a ser exemplo devem fazer parte dessa articulação. Só assim, cada menino poderá se desenvolver plenamente e com liberdade para sentir e escolher seu próprio caminho, sem reproduzir nenhum tipo de violência de gênero.

AMPLIFICA ESSA

A masculinidade não deve ser uma ameaça, mas estereótipos que definem o que é “ser homem”, ganham reforço em um cenário de excesso de informação e hiperconexão.  

É preciso escutar os adolescentes, protegê-los de ameaças no contexto digital e criar ambientes onde possam expressar inseguranças, vulnerabilidades e afeto, sem medo.