Infância roubada: em frente às telas, crianças brincam cada vez menos
As razões são diversas, assim como a necessidade e a dinâmica de cada família, mas o fato é que crianças e adolescentes têm passado cada vez mais tempo em frente às telas. Entre as consequências desse contexto, especialistas já observam uma crescente inabilidade para brincar e socializar. Afinal, por que as crianças se atraem tanto pelas telas?
“Quando eu vejo essa geração de crianças e o que elas estão consumindo, eu penso que nunca queria ter sido uma delas”. A frase é de uma adolescente de 15 anos e chama atenção. A jovem também observa que “a inspiração deles vêm do YouTube e das redes sociais, mas acho melhor vir de alguém de verdade”. O resultado, ela acrescenta: “as impressões do mundo vêm toda da internet e a gente precisa de pessoas reais para falar as coisas para a gente”.
Especialistas advertem que a relação telas x infância e adolescência é uma bomba relógio. Pesquisas têm apresentado evidências do que já foi apenas uma percepção. Dados de um estudo do Programa de Pós-graduação em Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelam que 72% das crianças avaliadas apresentaram sintomas de estresse, ansiedade e depressão decorrente do uso excessivo das telas.
E quando permaneceram longe dos aparelhos, elas apresentaram o que a medicina chama de “nomofobia”, medo de ficar distante do celular. Uma possível explicação para essa relação de dependência é o aumento de horas diárias em frente às telas, principalmente após a pandemia de covid-19. Isso porque esses dispositivos são cada vez mais utilizados para trabalho, entretenimento e estudo. Mas qual a consequência desse hábito?
Brincar estimula subjetividade, criatividade e bem-estar
Crianças e adolescentes que passam mais tempo em dispositivos móveis do que interagindo com outras pessoas e/ou seus pares perdem oportunidades importantes de desenvolver habilidades sociais, emocionais e físicas. Segundo Gabriel Salgado, coordenador da área de Educação do Instituto Alana, o brincar – especialmente o brincar livre, que parte da iniciativa da criança e não depende de brinquedos prontos – é fundamental para a formação da subjetividade, desenvolvimento e bem-estar emocional de crianças e também de adultos.
“Brincar é uma condição para a expressão de vitalidade e criatividade do ser humano e possibilita sua participação ativa na sociedade. No brincar livre, as crianças expressam sua singularidade, demonstrando suas emoções, interesses, gestualidades e habilidades motoras, cognitivas e sociais. É a forma de a criança ser, se expressar, se afetar, criar, compreender, investigar, aprender e estar no mundo,” explica Salgado.
O coordenador da área de Educação do Instituto Alana ainda reforça que é por meio da experiência do brincar que a criança vai se constituindo como uma pessoa que sente, pensa e age no mundo de forma própria e singular. “O brincar proporciona o sentimento de estar vivo, de ter um lugar no mundo, de pertencer ao próprio corpo e participar da comunidade e cultura do seu entorno. Seus efeitos e benefícios perduram ao longo da vida,” complementa.
Crianças e adolescentes também precisam de interações sociais presenciais para aprenderem a se relacionar, a se comunicar, a conviver com a diversidade, a negociar, a ter empatia, cuidado consigo e com o outro. Essas relações presenciais desenvolvem a habilidade de entender e usar expressões faciais, bem como a linguagem corporal. Enquanto no ambiente virtual, essa capacidade fica comprometida.
Segundo o pediatra Daniel Becker, o excesso de permanência das crianças nas telas e, especialmente, as atividades que elas têm executado em aplicativos como WhatsApp, Telegram, YouTube Shorts, TikTok e Instagram, é extremamente tóxico para a infância. “Se esses aplicativos viciam os adultos, que já têm um cérebro maduro, imagine o das crianças, cuja formação ainda é imatura e que não têm qualquer capacidade de controle ou habilidade para tomar decisões,” alerta.
Em janeiro de 2024, um artigo do jornal The New York Times chamou atenção para a correlação entre a proliferação de algoritmos que viciam e o colapso da saúde mental dos jovens, incluindo fatores como depressão, pensamentos suicidas e automutilação. No artigo, a colunista Michelle Goldberg menciona os impactos catastróficos em relação ao uso excessivo das redes sociais Instagram e TikTok, que estimulam padrões de beleza e popularidade irreais e, que afetam o comportamento dos adolescentes, em especial das meninas.
O pediatra Daniel Becker enfatiza que as redes sociais não são apenas serviços de entretenimento, nem educativas, mas formativas. “Se a gente pensar que uma criança passa uma hora por dia conversando com os pais, três ou quatro horas ouvindo os professores na escola, e umas cinco ou seis horas nas redes, elas estão ouvindo muitos desconhecidos no YouTube, entre manipuladores e até criminosos como pedófilos. Ou seja, pessoas que estão ali com uma série de interesses por trás, além de toda uma toxicidade e o incentivo ao consumismo”, explica.
Pais e filhos: uso excessivo de telas atrapalha vínculos
Para além do retardo no desenvolvimento motor em crianças e a inabilidade social de adolescentes, existe uma outra questão preocupante: o distanciamento entre pais e filhos.
Crianças e adolescentes têm se queixado da falta de presença dos pais. Do olhar atencioso, da escuta verdadeira, da conversa, do brincar juntos. Isso porque os pais também estão viciados nas telas e isso só retroalimenta esse ciclo que começa dentro de casa.
Em março de 2024, um estudo da Pew publicado no jornal The Washington Post, mostrou que 50% dos adolescentes entrevistados dizem que os pais têm problemas com as telas e se distraem nelas enquanto “conversam” com os próprios filhos. No Brasil, não é diferente.
Estudo publicado na revista Frontiers in Psychology, em 2026, mostra que pais de crianças e adolescentes têm passado mais tempo ao celular quando chegam em casa, portanto, demonstram menos atenção aos filhos. Essa falta de presença, troca, diálogo, cuidado tem provocado adolescentes menos confiantes em recorrer a esses adultos em busca de apoio e conexão. Então, como lidar com os efeitos do excesso de telas entre crianças e adolescentes se os próprios pais se ocupam no ambiente digital?
Famílias devem repensar dinâmicas para fortalecer presença
É comum em relatos e desenhos feitos por crianças nas escolas a ilustração da presença do aparelho celular na vida familiar. “Meu pai me levou no karatê, mas toda vez que eu olhava para ele, estava olhando o celular. Depois da aula, falei pra ele que fiquei triste, mas ele disse que quando eu não estava olhando, ele me viu fazer aula. Eu sei que é mentira”, conta um menino de sete anos durante uma atividade na escola.
Outra menina da mesma idade escreveu que ficou chateada com a mãe no celular quando tropeçou nela, provocando a queda da criança no chão. “Eu queria que ela tivesse me pedido desculpas, mas ela não percebeu.” A menina também recorda: “Eu tava almoçando no meu aniversário e minha mãe me deu um diário de presente. Eu fiquei muito feliz, mas meu pai não viu porque ele tava no celular.”
Diante desse contexto, mesmo que uma geração de pais busquem recursos para que seus filhos fiquem menos horas nas telas, que exemplo eles dão? E o que fazer para que o vínculo com crianças e adolescentes não seja ameaçado? Entre alguns caminhos possíveis para mudanças, propiciar espaços e momentos de brincadeira, experiência e vivência, além de trocar tempo de tela por presença. Mas como? É aí que entra um esforço conjunto entre escola, família, governo, empresas e sociedade.
“Precisamos ter cada vez mais políticas públicas que apoiem as famílias a levarem suas crianças para brincar em praças e bem-cuidadas, poliesportivas. Vilas olímpicas com atividades recreativas e gratuitas para crianças, lugares arborizados, bem iluminados, acessíveis e com atividades diversas, para que elas não fiquem jogadas no sofá e no celular”, orienta o pediatra Daniel Becker.
No dia a dia, que tal sentar-se à mesa, sem o celular na mão, dando chance para as conversas em família durante as refeições? Ou mesmo vivenciar o silêncio até que surja um diálogo. Experimente aceitar o convite para brincar com seu filho.
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Crianças e adolescentes que passam mais tempo nas telas deixam de desenvolver habilidades sociais, emocionais e físicas.
Pais precisam servir de exemplo para que o uso de telas não prejudique as relações familiares.