Geração Alfa amplia inteligência emocional em meio a desafios da era digital
Pela primeira vez no país, as crianças terão oportunidade de desenvolver um letramento socioemocional nas escolas. Conhecida como Geração Alfa (nascida entre 2010 e 2025), ela foi a maior beneficiada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aprovada em 2017, que estabelece a obrigatoriedade de incluir o desenvolvimento das competências socioemocionais em todas as etapas da educação básica no Brasil.
Isso quer dizer que há uma geração chegando com mais letramento emocional que a sua antecessora. Em outras palavras, estamos diante de uma parte da população que vai crescer com as chamadas “aulas de habilidades socioemocionais” na sala de aula.
De acordo com o Ministério da Educação (MEC), a BNCC define essas competências em três dimensões principais: o pensamento crítico e criativo, a colaboração e comunicação, e o autogerenciamento emocional. Uma mudança curricular que joga luz para a importância de preparar os alunos não só para os desafios acadêmicos, mas também para a vida em sociedade.
Benefícios de reconhecer e trabalhar as emoções
A integração desse conjunto de aprendizagens essenciais na educação básica já demonstra resultados positivos. Pesquisa realizada pela Universidade de Harvard, em 2015, aponta que alunos que desenvolvem habilidades socioemocionais desde a infância têm 54% mais chances de concluir o ensino superior e alcançar estabilidade emocional na vida adulta.
Também a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destaca que além de competências cognitivas, as habilidades socioemocionais são cruciais para o sucesso no mercado de trabalho do século 21. Profissionais com maior capacidade de comunicação, empatia e gerenciamento de emoções são mais resilientes a crises e possuem maior capacidade de inovação.
O diferencial da educação socioemocional desde a infância
Diante de tempos complexos, de altos índices de transtornos mentais, exposição excessiva às telas e dificuldades para se relacionar, a possibilidade de aprender a lidar com conflitos internos e externos será um diferencial nos currículos da Geração Alpha. Afinal, a capacidade de lidar com frustrações, administrar a autoestima e interagir de forma saudável nos ambientes, dentro e fora das telas, são fundamentais para um desenvolvimento saudável.
Isso porque as habilidades socioemocionais referem-se à capacidade de reconhecer e gerenciar emoções, estabelecer relacionamentos saudáveis, tomar decisões responsáveis e lidar com situações adversas de maneira construtiva. Para isso, competências como empatia, autocontrole, resiliência, cooperação e comunicação fazem parte do conjunto de habilidades socioemocionais. De acordo com o Relatório Global de Educação da Unesco (2021), essas habilidades são essenciais para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, pois promovem tanto o bem-estar pessoal, quanto o sucesso acadêmico.
Impacto dos programas Pleno e LIV
No Brasil, essa atualização do currículo escolar depende de programas estruturados que apoiem as instituições em maneiras de ensinar e medir o desenvolvimento das habilidades socioemocionais. Atualmente, dois programas têm se destacado na implementação dessas ferramentas: o Laboratório Inteligência de Vida (LIV) e o Programa Pleno.
O LIV trabalha com uma metodologia ativa, incentivando discussões e atividades que promovam o autoconhecimento, a empatia e o respeito às diferenças. Enquanto o Programa Pleno busca impactar toda a comunidade escolar – estudantes, famílias e professores. Ambos oferecem abordagens estruturadas para o ensino dessas competências, com conteúdos práticos e teóricos adaptados para crianças e adolescentes.
“Ser intencional no ensino das habilidades emocionais desperta nos alunos uma consciência mais profunda sobre suas ações e comportamentos”, observa a professora Ana Caroline Pereira Silva, do colégio Anglo Alante Crescer, de Jundiaí (SP). A professora destaca que a escola já havia assumido o desenvolvimento socioemocional como prioridade há anos.
“Estamos em constante aperfeiçoamento nesse campo essencial e os resultados são evidentes em várias áreas. Notamos impacto nas interações com as famílias, que compartilham como os alunos têm aplicado em casa o que aprendem, e também nos dias de prova, quando demonstram maior segurança emocional”, conta a professora.
Diretora pedagógica do Colégio São Sabas, na cidade de São Paulo, Rosana Ziemniak compartilha um dos principais resultados desse novo currículo na escola: “O programa socioemocional foi fundamental para apoiar alunos, pais e professores durante o período pandêmico”, conta. Para que fosse implementado, ela reforça: “perseverança e uma equipe comprometida para alcançar resultados positivos, como a mudança de comportamento e a melhora na forma como os alunos lidam com suas emoções e desafios do cotidiano”, acrescenta.
Diretora pedagógica da Beacon School, também na capital paulista, Audrey Peverelli descreve os esforços da instituição. “Criamos o Student Well-Being Center (SWBC), uma área que trabalha para atender tanto às necessidades de aprendizagem em termos de apoio escolar, quanto às necessidades socioemocionais de nossos alunos”, descreve.
Há ainda, segundo Peverelli, “suporte psicológico em momentos de necessidade e um programa preventivo que visa oferecer aos alunos as habilidades necessárias para enfrentar desafios socioemocionais de diversos tipos”, acrescenta. A diretora pedagógica da Beacon School ainda destaca esforços em um contexto onde as redes sociais oferecem aos alunos acesso a uma quantidade muito grande de informações.
“Acreditamos que a educação é a chave para a prevenção. Se eles conhecem os perigos que enfrentam, é menos provável que se tornem vítimas. A cada aula e discussão que frequentam, estão se educando cada vez mais e se preparando gradualmente para uma vida adulta saudável, com menos probabilidade de enfrentar desafios de saúde mental”, complementa Peverelli.
Aprender a lidar com conflitos para se desenvolver
A Secretaria Escolar Digital (Seduc-SP), plataforma da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (SEDUC-SP), por meio do Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar – Conviva SP, orienta as escolas a adotar uma abordagem proativa para o acolhimento e mediação de conflitos.
Para as assessoras do Conviva SP Ana Rafaella Drumond e Marília Maiani, as divergências são uma parte natural da interação social e é essencial que sejam tratadas como oportunidades de crescimento. Além disso, diferentes práticas como círculos restaurativos, rodas de conversa e fomento ao protagonismo estudantil têm sido fundamentais para criar um ambiente escolar mais positivo e inclusivo.
Diante de uma diversidade de contextos sociais, programas como o LIV ganham ainda mais relevância ao criar ferramentas para que crianças lidem com desafios, desenvolvendo o autocontrole e a autorregulação emocional. “Estabelecer um espaço seguro e reconhecido de fala e escuta, com amparo formativo para os educadores, tem sido transformador”, orienta a psicóloga Renata Ishida, gerente pedagógica do LIV.
Neste novo contexto, as escolas criam espaços para que crianças e jovens possam mostrar suas vulnerabilidades. “Esse é um caminho saudável para acolher suas questões e entender que todos passam por dificuldades”, acredita Ishida.
Ao final, desenvolver habilidades socioemocionais é aprender a lidar com as próprias vulnerabilidades e escutar suas emoções, sejam elas quais forem. E quanto mais cedo for o ensino dessas ferramentas, mais preparadas estarão as novas gerações.
AMPLIFICA ESSA
A Geração Alfa vive um grande diferencial: o currículo escolar incorpora habilidades socioemocionais no processo de aprendizagem.
Para a implementação dessa diretriz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), é preciso o fomento e acompanhamento de programas de apoio às instituições de ensino.