Existe uma dinâmica de exclusão silenciosa nos grupos de meninas
Entre meninas adolescentes, a violência nem sempre aparece no grito. Às vezes, ela aparece no silêncio, em uma foto publicada ou na piada sofisticada demais para parecer microagressão, mas cruel demais para ser esquecida. No comentário sobre a roupa que uma delas veste, na frase “amiga, era brincadeira”. Até mesmo no olhar trocado entre duas meninas enquanto a terceira continua falando sem perceber que virou um alvo.
Esse tipo de dinâmica costuma se instalar dentro do grupo das “melhores amigas”, justamente onde a expectativa deveria ser de proteção, confiança, intimidade e pertencimento. Por isso mesmo, gera tanta confusão. Afinal, onde tem intimidade não deveria haver exclusão. Só que não é isso que está acontecendo.
Uma mãe escreveu recentemente para a pesquisadora especialista no comportamento adolescente Carolina Delboni dizendo que vê esse comportamento entre meninas consideradas “perfeitinhas”. Ou seja, boas alunas, comunicativas, participativas, em resumo: o orgulho das famílias. Meninas que sabem se portar, dominam os códigos sociais da escola, são gentis diante de adultos, mas que, quando se deparam com outra menina que não segue o mesmo padrão, dispara comentários e gestos que geram isolamento.
Aos poucos, essa menina que “não passa no controle de qualidade” do grupo é deixada de fora. Isso não acontece repentinamente nem de maneira explícita. Determinados comportamentos demonstram, em pequenas e contínuas doses, que ela é inadequada, deslocada e errada. E essa é uma das faces mais dolorosas das microviolências, porque ela opera no intervalo entre o que foi dito e o que foi sentido.
“Nossa, mas você vai com essa roupa?”; “Calma, era só brincadeira”; “Você leva tudo muito a sério”; “A gente nem falou nada demais” – são algumas frases que parecem inofensivas. Mas, na verdade, elas machucam. A menina que escuta esses comentários pode até rir para não parecer frágil. Ela acaba ficando quieta para não ser chamada de “dramática”, e tenta se adaptar para não perder seu lugar no grupo. Até perceber que está pedindo desculpas por ser do jeito que ela é.
Pode não parecer violência, mas machuca muito
A série Ginny & Georgia(2021), da plataforma de streaming Netflix, mostra muito bem essa dinâmica. Nas cenas de Ginny com o grupo MANG (sigla com as iniciais das melhores amigas), há um comportamento de provocação, julgamento, competição e pertencimento. Cada movimento parece estar sendo avaliado, como um teste. Elas se gostam, querem estar juntas, mas também se medem o tempo todo.
O corpo, a roupa, a sexualidade, o jeito de falar, o quanto cada uma é desejada ou aceita. Tudo pode virar moeda de poder. A série estadunidense acompanha Ginny e sua família tentando recomeçar a vida em outra cidade. No entanto, é nas relações entre as adolescentes que aparece a maior parte das tensões que envolvem pertencimento e exposição próprias dessa fase.
O mais importante no enredo não é procurar uma vilã. Talvez seja essa a armadilha dos adultos quando olham para esse tipo de situação. Queremos encontrar “a menina má”, “a manipuladora”, “a líder do grupo”, como se a violência estivesse centralizada em uma pessoa. Mas ela não está em alguém e sim, na dinâmica. Está no riso que confirma a piada, no silêncio de quem percebeu e não interferiu, na mensagem não respondida, no convite que não chega, na foto postada para mostrar quem estava dentro e quem ficou de fora.
O problema está na dinâmica que se instalou nas relações sociais entre adolescentes e pré-adolescentes. Magoar, xingar, zombar, excluir são partes do jogo de quem quer pertencer e ser aceito. No fundo, ninguém gosta, ninguém se sente bem, mas replica aquilo que vê e, muitas vezes, também vive o mesmo.
Precisamos falar da “agressão oculta” entre meninas
Pesquisas brasileiras sobre bullying entre meninas mostram essa dimensão relacional da violência. Em vez de aparecer apenas como agressão física ou xingamento direto, o bullying pode se organizar pela manipulação de pertencimento, pela exclusão, pela fofoca, pela desqualificação moral e pela disputa por atributos femininos valorizados socialmente.
As meninas podem usar códigos de feminilidade, como ser bonita, discreta, desejada, popular, madura, querida pelos adultos. Atributos utilizados como forma de estabelecer hierarquias entre si. A pesquisadora estadunidense Rachel Simmons, autora do livro Odd Girl Out(2002), descreve esse fenômeno como uma “agressão oculta”.
Ou seja, uma violência que não aparece necessariamente em confrontos explícitos, mas que opera pela exclusão social, pelo silêncio e pelo controle emocional dentro dos grupos de amizade femininos. Para Simmons, muitas meninas aprendem, desde cedo, que não devem demonstrar raiva abertamente. Então, a agressividade acaba encontrando caminhos mais sutis, porém profundamente dolorosos.
Isso não significa dizer que meninas são naturalmente assim. Pelo contrário. Elas aprendem com a cultura da comparação: a exigência de perfeição, a vigilância sobre o corpo e a ideia de que precisam ser aceitas, agradáveis e desejadas. Fora isso, elas são ensinadas a ser fortes o bastante para não demonstrar dor. Desde pequenas, aprendem que a autoimagem importa, que o grupo define valor, que errar pode custar seu pertencimento e ser diferente pode significar a solidão.
A violência entre meninas, portanto, não nasce de uma “essência feminina”. Ela nasce de uma educação afetiva precária, de modelos sociais competitivos, da cultura digital da exposição e de uma identidade e feminilidade ainda muito reguladas pelo olhar do outro. O grupo de amigas, que poderia ser um território de cuidado, muitas vezes se torna um tribunal silencioso. Nele, cada uma aprende a medir o que a outra deve vestir, falar, desejar, postar e até sentir. Quem escapa da norma pode ser punida com a pior pena da adolescência: a exclusão.
Famílias e escolas percebem o problema?
Neste contexto, os adultos levam tempo para entender o que está acontecendo. Primeiro, porque muitas dessas meninas têm bom desempenho escolar, boa aparência social, boa relação com professores e famílias. Segundo, porque a agressão vem em uma embalagem sutil. E terceiro, porque ao ouvir queixas, respondem com frases que encerram a conversa: “isso é coisa de menina”, “amizade é assim mesmo”, “daqui a pouco passa” ou “você precisa aprender a se defender”.
No entanto, há meninas que pedem para sair da escola porque nela não encontram acolhimento. Outras adoecem dentro desses grupos de amigas aparentemente “normais”. Muitas tentam explicar a violência que sofrem, mas não conseguem provar porque não houve um tapa, um xingamento ou ameaça. Apenas deixaram de chamá-la, fizeram uma piada, riram dela ou postaram fotos de encontros que não a incluíram. Depois, disseram que sua reação era um “exagero”.
Nesse caso, o papel das famílias não é vigiar cada amizade nem transformar qualquer conflito em caso grave. Tampouco é invadir a vida social dos filhos tentando resolver tudo. Na verdade, o papel dos adultos é ajudar a nomear. Perguntar menos “quem fez isso?” e mais: “como você se sentiu?”; “isso acontece sempre?”; “você consegue ser você nesse grupo?”; “você sente que precisa mudar para ser aceita?”. E, quando a filha estiver do outro lado, participando da exclusão de outra, é preciso coragem para responsabilizá-la.
A escola, por sua vez, precisa olhar para além da agressão evidente. Nem sempre a violência aparece na aluna que grita ou desafia. Às vezes, ela está no grupo com “ótimo comportamento”, no corredor silencioso, no comentário sofisticado, na liderança social que decide quem pertence e quem não pertence. Combater microviolências exige adultos capazes de perceber nuances e não ignorar as queixas apresentadas pelas adolescentes.
Para pertencer, ninguém deve aceitar humilhação
Na adolescência, pertencer não é mero detalhe – é uma estrutura psíquica. Pela validação do olhar dos pares é que muitos adolescentes organizam uma parte importante da autoestima. Ser expulsa simbolicamente de um grupo pode significar muito mais do que perder companhia no recreio. Significa perder o chão, a referência, o espelho, a segurança.
Afinal, essa fase da vida é um tempo de ensaios de identidades, afetos, amizades, limites. Também é um momento de exercer formas de poder. Tanto que toda vez que uma menina aprende que pode excluir outra, ela aprende algo perigoso sobre as relações. Do mesmo modo, toda vez que uma menina encontra adultos capazes de escutar, nomear e intervir, ela aprende que amizade não opera pelo “controle de qualidade”.
Para pertencer, ninguém deve aceitar a humilhação. Da mesma forma, o desejo de ser aceita não deveria custar a própria espontaneidade. Muitas das microviolências que atravessam grupos de meninas adolescentes passam despercebidas, num primeiro momento.
Talvez o primeiro gesto de alerta seja parar de chamar de brincadeira aquilo que uma menina faz e que provoca dor em outra. Isso não quer dizer que conflitos não façam parte das relações. Ou seja, é natural que amigas discordem, se frustrem, se afastem, voltem, conversem, reparem. Mas é preciso começar a identificar e nomear as violências sutis.
AMPLIFICA ESSA
As meninas aprendem que a autoimagem importa, que o grupo define valor, que errar pode custar seu pertencimento e ser diferente pode significar a solidão.
A “agressão oculta” é uma violência que opera pela exclusão social, silêncio e controle emocional dentro dos grupos de amizade femininos.
Combater microviolências exige adultos capazes de perceber nuances e não ignorar as queixas apresentadas pelas adolescentes.