Entre o corte e o grito: o que a adolescência tenta dizer e o mundo insiste em não ouvir
Alerta: este texto trata de temas como suicídio, sofrimento psíquico e transtornos mentais. Se você precisa de ajuda ou conhece alguém que está precisando, busque ajuda nos contatos ao final deste artigo.
Se você já assistiu à série Ginny & Georgia(2021), da plataforma de streaming Netflix, deve ter prestado atenção em um tema que atravessa a adolescência: a autolesão. Na trama, a protagonista Ginny (Antonia Gentry) recorre à automutilação com um isqueiro como forma de lidar com emoções e pressões que a sufocam. O comportamento se agrava até ser descoberto pelos pais. A partir daí, ela passa a ter um acompanhamento terapêutico e aprende a desenvolver estratégias de enfrentamento mais saudáveis.
A automutilação não é um recurso dramático. Não é para chamar atenção. Machucar o próprio corpo como válvula de escape para alguma dor é um comportamento que está presente nas escolas e nos serviços de saúde do país. Cada vez mais adolescentes recorrem à autolesão como suporte de um sofrimento emocional difícil de nomear e acolher.
Ato de cortar, queimar, bater ou ferir o próprio corpo sem intenção imediata de tirar a vida, a autolesão não é, necessariamente, uma tentativa de suicídio. Muitas vezes é um esforço para tornar uma dor emocional tolerável, controlar a ansiedade ou provocar algum alívio temporário.
O tema é cercado por tabus, mas se tornou um alerta público. Nos últimos anos, o número de casos de autolesão entre adolescentes disparou no Brasil. Estudos da Fiocruz divulgados em 2025 apontam que no país as notificações de autolesão entre pessoas de 10 a 24 anos aumentaram 29% ao ano. E o que mais preocupa especialistas é o fato de que muitos adultos – pais, professores, colegas – ainda não sabem como identificar os sinais nem o que fazer diante deles.
Como reconhecer sinais e agir sem julgamentos
Nesse caso, profissionais relatam frases recorrentes nos atendimentos, como: “é o único jeito de sentir que estou viva” ou “dói menos cortar a pele do que sentir o que eu sinto por dentro”.
Essa complexidade exige uma escuta informada e não julgamentos rápidos. As bases públicas de dados seguem sendo atualizadas, e isso permite o acompanhamento da evolução, com o objetivo de orientar protocolos locais.
A automutilação costuma vir com sinais imperceptíveis aos distraídos: mangas compridas em dias quentes, isolamento, faltas ou queda abrupta no rendimento escolar, frases como “não aguento” em cadernos ou redes. A leitura como “drama” ou “escândalo” afasta e retarda a intervenção, ampliando riscos.
Segundo a psiquiatra Maria Carolina Pinheiro, essa não é uma fase. “A autolesão, principalmente entre adolescentes, nem sempre está ligada ao desejo de morrer”, explica. Na maior parte das vezes, segundo a especialista, “ela funciona como uma forma de lidar com emoções muito intensas como tristeza, raiva ou vazio, e aparece como um recurso, geralmente temporário, para aliviar a dor psíquica”.
Nesses casos, a médica esclarece que o objetivo do adolescente pode não ser tirar a vida, mas encontrar uma saída para o sofrimento, quando ele ainda não tem ferramentas saudáveis de enfrentamento. “Ao mesmo tempo, a presença de autolesões já indica um sofrimento significativo e aumenta o risco de pensamentos suicidas no futuro. Por isso, não podemos minimizar ou ignorar esse comportamento. Cada episódio de autolesão deve ser visto como um pedido de ajuda”, adverte.
Autolesão se tornou um problema de saúde pública
A incidência de automutilação entre jovens aumentou nos últimos anos e já se tornou um grave problema de saúde pública. “É preciso atenção conjunta de famílias, escolas, profissionais de saúde e sociedade para que não se perpetue nem evolua para desfechos ainda mais graves”, orienta a psiquiatra Maria Carolina Pinheiro.
Entre os fatores de risco, a médica destaca o uso de redes sociais. “O fenômeno do contágio social digital facilita a disseminação e normalização da autolesão, além da exposição ao cyberbullying e aos padrões de comparação realísticos”, analisa. Soma-se ainda, segundo a especialista, “um contexto familiar adverso, marcado por conflitos, ausência de diálogo e negligência emocional, bem como a pressão escolar e o ambiente competitivo, associados ao bullying e à falta de suporte institucional”.
O resultado, complementa Maria Carolina Pinheiro, “é uma tempestade perfeita para o agravamento dos casos de autolesão em adolescentes brasileiros, combinada a fatores como traumas, abusos, transtornos psiquiátricos ou à convivência com pessoas que também se automutilam”. A psiquiatra recomenda algumas estratégias como alternativas seguras para a expressão da dor emocional dos adolescentes. “Comunicação verbal, atividades artísticas, esportivas ou técnicas de relaxamento, sempre com o envolvimento da família e acionamento da rede protetiva quando houver risco elevado.”
Mudanças de comportamento sinalizam cuidados
Especialista em pedagogia e saúde mental do Instituto Ame sua Mente, a psicóloga Ana Carolina D’Agostini reforça a necessidade de atenção aos sinais físicos e comportamentais.
No desempenho escolar, “isso pode aparecer com a queda nas notas, uma postura mais apática em sala de aula, menos participação, e também no convívio social, como querer passar os intervalos mais sozinho, e não participar da educação física, mesmo sendo uma atividade da qual gostava antes”, descreve a psicóloga.
Sobre sinais físicos, D’Agostini aponta: “cortes pelo corpo, nos braços e nas coxas, queimaduras na pele, arranhões, retirada de crostas ou até mesmo arrancar cabelo e outros pelos do corpo”. Para identificar esses sinais, a especialista recomenda não comparar o jovem com outros. “Como ele era antes e como ele está agora? Fique atento a falas como: ‘isso nunca vai mudar’, ‘minha vida vai ser sempre assim’, e também a sinais de isolamento, comportamento impulsivo e uso abusivo de substâncias”, alerta.
Outra questão muito importante é não rotular o jovem. “O registro desses sinais deve ser feito de forma cuidadosa e objetiva, limitado à descrição do que foi observado, sem interpretações”, orienta a psicóloga.
Sobre a garantia de dignidade e confidencialidade
Para o acolhimento inicial nesses casos, a psicóloga Ana Carolina D’Agostini recomenda a garantia de um espaço reservado para a escuta, como primeiro passo. Um espaço que transmita segurança e acolhimento genuínos, sem reações de choque ou julgamentos. A família deve ser envolvida obrigatoriamente, mas o jovem deve participar dessa decisão para não fragilizar o vínculo.
Já as escolas precisam de protocolos claros. “Como é feito o encaminhamento?. Qual a linguagem no registro?; Quem deve ser acionado? Tudo isso garantindo, sempre, a dignidade e a confidencialidade do adolescente”, reforça D’Agostini.
Outra ferramenta importante é a implementação da aprendizagem socioemocional, que integra a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A partir desse letramento, é possível fortalecer competências como: empatia, modulação emocional, resolução de conflitos e assertividade, que protegem a saúde mental. E as escolas podem recorrer a materiais formativos, como o Caderno de Saúde Mental sobre Autolesão, elaborado pelo Instituto Ame Sua Mente, que atende gestores escolares.
Como prevenção, a psicóloga defende a valorização de ações diárias para o cuidado da saúde mental na rotina escolar. “Isso inclui projetos com arte, música, esporte, maneiras de vínculo, práticas de escuta ativa e rodas de conversa sobre temas pertinentes à vida”, sugere. Sobre outras redes de apoio, Ana Carolina D’Agostini sublinha: “é fundamental articular com a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)”.
Dentro da RAPS, fazem parte os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferecem atendimento comunitário em saúde mental. Além disso, a psicóloga reforça: “Somos todos responsáveis: escola, família e serviços de saúde mental. Quando pensamos sobre esses temas de forma contínua, a escola tem mais chance de se tornar um espaço emocionalmente seguro”.
No final, quanto mais cedo o adolescente tiver acesso a tratamento e suporte emocional, menores são os riscos de agravamento. Portanto, maiores são as chances de recuperação.
AMPLIFICA ESSA
A autolesão de adolescentes não é uma reação dramática nem deve ser julgada.
Redes de escuta, acolhimento e suporte emocional nas escolas, na família e em ações de políticas públicas mostram um caminho para agir e prevenir nesses casos.
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, procure ajuda.
CVV – Centro de Valorização da Vida
Telefone 188 | Atendimento gratuito 24 horas.
Canal Pode Falar (UNICEF)
Escuta especializada para adolescentes e jovens.
CAPS – Centros de Atenção Psicossocial (SUS)
Atendimento em saúde mental para crianças, adolescentes e adultos.
Mapa da Saúde Mental
Rede de serviços gratuitos e orientações sobre saúde mental.