Sociedade e Comportamento

Entre ficantes, crushes e casinhos: entenda a forma fluida de amar dos adolescentes

Publicado em: 09/06/2025
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“Os jovens estão namorando menos.” Essa frase se repete em pesquisas, reportagens e conversas de família. Costuma vir acompanhada de um certo espanto, como se estivéssemos assistindo ao desaparecimento do amor romântico. Mas será que é isso que está acontecendo?

Talvez o namoro daquele jeito que gerações anteriores conheceram esteja sendo adiado, substituído ou repensado. Quem sabe os jovens estejam demorando mais para entrar em relações duradouras.

Talvez os vínculos não caibam mais tão facilmente em categorias como “ficando”, “namorando” ou “casando”. Mas uma coisa parece clara: os adolescentes e jovens continuam amando, desejando e se conectando. Só que eles estão criando laços de outra maneira.

Entre trocas de mensagens, encontros mais esporádicos, conversas que duram semanas e relações que nem sempre recebem um nome, os jovens parecem estar redesenhando o mapa dos afetos. O namoro perdeu protagonismo, mas não necessariamente importância. Em seu lugar surgem relações mais fluidas, menos previsíveis e, ao mesmo tempo, mais complexas.

Por trás dessa mudança existem transformações culturais, históricas e subjetivas. E, como alertam os especialistas, não se trata simplesmente de uma rejeição ao modelo tradicional de relacionamento. O que está em curso é uma reconfiguração afetiva que ajuda a compreender desejos, angústias e contradições de uma geração que busca novos jeitos de amar.

O amor deixou de ser prioridade?

Os adolescentes e jovens reorganizaram suas prioridades afetivas. E isso aparece nas pesquisas. Um levantamento feito pela Universidade da Califórnia, em 2024, entrevistou 1.644 jovens de 10 a 24 anos como parte do Estudo Anual sobre Adolescentes e Telas. Um dos resultados mostrou que entre as dez prioridades de vida desses jovens estão: estar seguro, se divertir, aceitar a si mesmo, mudar o mundo e fazer parte de uma comunidade. Porém, o amor romântico não aparece entre os principais desejos.

O mesmo estudo mostrou que 63,5% dos adolescentes preferem histórias centradas em amizades ou relações platônicas, em vez de histórias de amor. Isso não significa que o amor tenha deixado de existir. Talvez signifique, apenas, que ele deixou de ocupar o centro de tudo.

Uma pesquisa de 2023 do Survey Center on American Life revelou que apenas 56% dos adultos da Geração Z estiveram em um relacionamento romântico durante a adolescência, contra 76% da Geração X, e 78% dos Baby Boomers. Outro estudo que ilustra esse cenário é a Pesquisa Social Geral dos Estados Unidos (2021), 54% dos jovens entre 18 e 34 anos disseram não ter um parceiro estável. Em 2004, esse número era de apenas 33%.

No Brasil, levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgado em 2023, mostra que o número de solteiros (81 milhões) já ultrapassa o de pessoas casadas (63 milhões). Reflexo de um quadro que tem sido associado ao crescimento da chamada “agamia”: conceito utilizado para descrever a rejeição ou o adiamento de modelos convencionais de união e casamento.

Ficar, rolo, casinho: uma cultura afetiva brasileira

Antes mesmo de as estatísticas começarem a falar sobre a redução dos namoros tradicionais, os brasileiros já viviam formas mais fluidas de relacionamento. Termos como ficante sério, crush, casinho, rolo e conversante fazem parte de uma cultura afetiva bastante particular.

“No Brasil, não é novo as pessoas estarem em relacionamentos fluidos. Quando eu era adolescente, há 20 anos, já era assim”, afirma a professora e socióloga-antropóloga Marília Moschkovich, do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo a socióloga, desde os anos 1970, os modelos rígidos de relacionamento vêm sendo questionados no país. Mudanças legais e culturais, como a lei do divórcio, o fim do Estatuto da Mulher Casada e a Constituição de 1988, ampliaram as possibilidades de organização da vida afetiva.

Existe, no entanto, uma nuance importante. “O que a gente vê nas pesquisas é que justamente essa fluidez faz com que a rigidez do modelo tradicional seja mais reforçada. A pessoa curte relações fluidas, mas deixa o casamento – que é visto como algo muito sério – para depois”, explica Moschkovich. Em outras palavras: fluidez e compromisso não são necessariamente desejos opostos.

Redes sociais, ansiedade e novos vínculos

As redes sociais transformaram profundamente a forma como adolescentes e jovens se encontram, se aproximam e se relacionam. Instagram, TikTok e outras plataformas passaram a funcionar como espaços de observação, aproximação e construção de interesse. Em muitos casos, substituíram os aplicativos de relacionamento como ponto de partida para novas conexões.

Ao mesmo tempo, a vida afetiva digital também produz efeitos menos positivos. Nesse caso, existem novas práticas como o chamado “throning”, quando alguém inicia uma relação por interesse social ou financeiro. Somam-se ainda o aumento de ansiedade, insegurança e comparação, que têm levado muitos jovens a rever suas formas de se relacionar. Talvez por isso, exista uma busca crescente por experiências mais autênticas, presenciais e menos mediadas por algoritmos.

Menos namoro não significa menos amor

A pesquisa global Love Life Satisfaction (2025), do Instituto Ipsos, mostra que os brasileiros estão entre os mais insatisfeitos com a vida amorosa na América Latina. A Geração Z aparece como a menos satisfeita e também como a que menos se sente amada. Ainda assim, os dados não apontam para o desaparecimento dos vínculos afetivos. Pelo contrário, eles sugerem que muitos jovens estão tentando construir formas diferentes de viver o amor.

Ao mesmo tempo em que parte deles adia relacionamentos duradouros, outra parcela busca vínculos mais tradicionais. “Muitos jovens estão mais conservadores. Entram em igrejas, buscam casamento. E há namoros que surgem nesse contexto: namoro para casar, muitas vezes mediado pela religião”, observa Marília Moschkovich.

A socióloga também chama atenção para algo que costuma ser confundido quando se fala sobre relacionamentos. “A pessoa pode namorar sem ter prática sexual. Pode ter prática sexual sem namorar. A sociedade é complexa, com processos concorrentes acontecendo ao mesmo tempo”, explica.

Talvez essa seja a principal conclusão: o comportamento afetivo dos jovens não é linear. Há contradições, sobreposições e paradoxos. A fluidez convive com o desejo de estabilidade. E a liberdade convive com o desejo de compromisso.

A insatisfação amorosa caminha lado a lado com a valorização do amor romântico. “As pesquisas ajudam a entender, mas precisam ser relativizadas de acordo com a população estudada. O que a estatística descreve é só uma parte do fenômeno. Tem outros processos acontecendo que ela não capta”, alerta a socióloga.

De fato, o que parece estar mudando não é a capacidade de amar, mas a forma como se vive esse amor. Amar não saiu de moda. Mas os moldes, definitivamente, mudaram.

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Adolescentes e jovens reorganizaram suas prioridades afetivas.

Entre ficantes, crushes, casinhos e namoros para casar (ou não), os adolescentes estão apenas buscando novos jeitos de amar à sua maneira.