Educação midiática: saiba o que é e qual a importância na aprendizagem de crianças e adolescentes
Não é novidade que crianças e adolescentes estão expostos de maneira excessiva aos mais diversos tipos de conteúdo difundidos com o aumento do tempo de uso de telas. Games, redes sociais, desenhos animados, séries, memes, vídeos do YouTube são alguns. Sem falar na habilidade desenvolvida para pesquisas e download de aplicativos – materiais que servirão para realizar trabalhos da escola ou para compartilhar entre amigos. Enfim, um recurso que parece inesgotável.
No entanto, a entrada precoce dessa geração em um ambiente complexo e composto por distintas camadas e acessos, como o da internet, mostra a necessidade de um letramento para bom uso e para desenvolvimento do senso crítico. Como usuários de uma tecnologia, precisamos aprender a discernir o que é um conteúdo autêntico e compartilhável de uma fake news, por exemplo.
Neste sentido, a educação midiática entra em cena como um conjunto de ferramentas que auxiliam nesse desenvolvimento, sobretudo, por conta do grande fluxo de informações da web.
Antes, vale lembrar que esse ramo da educação, não é novidade. O termo “educação midiática” foi criado na década de 1960, nos Estados Unidos com o envolvimento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em decorrência da manipulação da mídia que já ocorria naquele tempo – principalmente no rádio e no cinema.
Um farol no mar de desinformação e fake news
A educação midiática trabalha habilidades de criação de conteúdos, interpretação, pesquisa e curadoria. Seu objetivo é preparar as pessoas para os usos e efeitos da tecnologia, em período da história em que o número de informações e de “influenciadores” na rede só cresce. Por isso, é preciso que a sociedade desenvolva a capacidade de apuração e análise em relação às intenções e perspectivas de cada conteúdo publicado e compartilhado.
“É nossa responsabilidade ensinar os jovens a se empoderar do contexto real e tecnológico, onde vivem. A gente tem falado de ‘emancipação técnica’, dar aos jovens a possibilidade de entender como esse ambiente funciona, quais são as estruturas técnicas por trás das mensagens, como essa informação chegou, de que forma o buscador seleciona as imagens que eu vou ver, como funciona o algoritmo, etc.”, explica Mariana Ochs, coordenadora do EducaMídia, programa desenvolvido pelo Instituto Palavra Aberta.
A especialista em tecnologias da educação destaca a necessidade das pessoas aprenderem a vencer a ingenuidade ainda comum na posição de consumidor passivo de mídias. Ou seja, é preciso criar um ceticismo saudável. E assim, aprender a interrogar essas mídias que são consumidas por toda sociedade diariamente.
Uma publicação do Jornal da USP, da Universidade de São Paulo (USP), mostrou que pelo menos 76% da população brasileira foi exposta a informações falsas sobre política, no segundo semestre de 2022. A pesquisa feita pelo Panorama Político (2023), apontou que 89% dos entrevistados acreditam que tiveram contato com fake news, sendo 67% pelos aplicativos de mensagens, e 83% por redes sociais, como Facebook, Instagram e YouTube.
Por esse motivo, o foco da educação midiática está na formação de pessoas para que sejam capazes de lidar com todos esses formatos de mídias e tecnologias que se apresentam, e saibam como acessar e verificar a qualidade e o intuito do conteúdo a que têm acesso. Um exemplo é a técnica de examinar um texto ou mensagem de modo crítico.
Esse tipo de ação demanda, por exemplo, algumas perguntas: quem escreveu ou falou isso?; trata-se de um especialista, de autoridade no nicho ou é apenas alguém comentando sua opinião?; qual o sentido por trás desta mensagem?; onde foi publicada?. No final, a sensação é de que aprendemos a fazer um checklist mental e crítico para consumir conteúdos.
Dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil, em parceria com a Unesco, divulgados em 2023, mostram que quase todas as crianças e jovens, de nove a 17 anos no país, acessam a internet, mas 43% não sabia checar se uma informação estava correta. O levantamento apontou, ainda, que 38% não sabia identificar se um site era ou não confiável, e 33% relatou ter passado por alguma situação na internet que não gostou, foi ofendida ou chateada.
Direitos, desigualdades e o papel da educação midiática
O acesso ao conhecimento sobre o impacto da tecnologia em nossos direitos digitais – informação, privacidade, livre-arbítrio e proteção contra violência ou discriminação – deveria ser garantido a todos. “A educação midiática vai além de distinguir o falso do verdadeiro. Ela abrange a democracia, cidadania, justiça social e direitos humanos”, esclarece Mariana Ochs, coordenadora do EducaMídia.
Da mesma forma que a sociedade precisa adaptar a educação a essa nova realidade, é preciso exigir uma regulação séria das próprias plataformas. Inclusive, estas já são orientadas por organizações internacionais a incluir funcionalidades no próprio design de suas ferramentas para que sejam mais seguras e equitativas.
Saber filtrar o fluxo imenso de informações do universo digital não é apenas um exercício cotidiano, mas também um divisor que determina a inclusão ou exclusão social. E isso leva, de acordo com Mariana Ochs, a necessidade de analisar que essas novas tecnologias operam em realidades desiguais, que também precisam ser levadas em consideração.
“Quando as novas tecnologias são introduzidas em uma sociedade já marcada por injustiças, desigualdades e exclusões, elas têm o potencial de agravar os problemas existentes. Portanto, é fundamental que todos os jovens tenham acesso a uma educação que os capacite a navegar com confiança nesse ambiente tecnológico”, destaca Ochs. Esse acesso à educação miditária permitiria aos jovens “aproveitar ao máximo as oportunidades oferecidas pelo mundo onde vivem”, acrescenta.
Para a especialista, ainda existe um paradoxo na necessidade de promover a autonomia tecnológica das crianças frente às restrições amplas ao acesso a dispositivos e plataformas digitais. “Embora o uso excessivo de telas seja um problema sério, proibir seu uso nas escolas impede as oportunidades de aprendizado exploratório e crítico sobre a tecnologia, mediado por educadores”, pondera.
AMPLIFICA ESSA
A maior parte dos adolescentes não sabe discernir entre conteúdos falsos e verdadeiros na internet.
A educação midiática é uma ferramenta indispensável para uma relação segura, crítica e saudável com o ambiente digital.