Gênero, Corpo e Relações

É preciso exercitar as emoções assim como se exercita o corpo

Publicado em: 19/08/2024
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Desde cedo, crianças e adolescentes são ensinados a cuidar do corpo. Consultas médicas, alimentação equilibrada e prática de atividades físicas fazem parte da rotina de muitas famílias. Mas o mesmo cuidado nem sempre é direcionado às emoções.

Especialistas alertam que aprender a lidar com sentimentos como medo, tristeza, angústia e frustração é parte fundamental do desenvolvimento humano. Afinal, a dificuldade em reconhecer e elaborar emoções pode contribuir para quadros de ansiedade, depressão e sofrimento psíquico, cada vez mais frequentes entre os jovens.

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde, em 2024, mostram que as internações de crianças e adolescentes, relacionadas à ansiedade e ao estresse, cresceram 136% em uma década. O aumento chama atenção para um fenômeno que antecede a pandemia de covid-19, embora tenha sido intensificado por ela.

Caso dos resultados obtidos pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2020, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação. Naquele ano, o PeNSe já apontava sinais de agravamento de questões relacionadas à saúde mental entre estudantes brasileiros.

Recentemente, o PeNSe 2026 acendeu um novo alerta: 3 em cada 10 estudantes de 13 a 17 anos afirmaram que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes. Isso ainda inclui 42,9% de alunos que assumiram ficar “irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa”, e 18,5% que costumam pensar sempre, ou na maioria das vezes, que “a vida não vale a pena ser vivida”.

O impacto das telas sobre o isolamento social

Durante a pandemia, telas e redes sociais se tornaram praticamente a única forma de interação social para milhões de jovens. Com a retomada das atividades presenciais, muitos adolescentes encontraram dificuldades para reconstruir vínculos e retomar experiências sociais interrompidas. Especialistas observam que parte dos jovens voltou às escolas apresentando sintomas de ansiedade social, dificuldades de convivência e comportamentos mais agressivos.

A interrupção de experiências importantes de socialização compromete o desenvolvimento de habilidades emocionais e relacionais fundamentais para essa fase da vida. Outro aspecto apontado por pesquisadores é o crescimento de práticas parentais marcadas pela superproteção. Em muitos casos, pais e responsáveis assumem a resolução de conflitos, dificuldades escolares e desafios cotidianos que antes eram enfrentados diretamente pelos filhos.

Essa dinâmica tende a reduzir oportunidades para que crianças e adolescentes desenvolvam autonomia, capacidade de decisão e tolerância à frustração. Em vez de aprenderem a lidar com obstáculos, muitos jovens crescem com pouca experiência para enfrentar contrariedades e administrar emoções difíceis.

Quando sentimentos viram “problemas”

A médica e pesquisadora estadunidense Tracy Dennis-Tiwary disse em entrevista ao podcast Raising Good Human, em maio de 2024: “quando a gente super interpreta um sentimento ou emoção natural da criança ou do adolescente como se ali houvesse um problema, começamos a agir de maneira inadequada frente aos eventos da vida”. Para a especialista, a mensagem que isso passa aos filhos é extremamente perigosa. Essa percepção pode dificultar o desenvolvimento de recursos emocionais importantes no adolescente para a vida adulta.

Esse cenário também é influenciado pela valorização crescente do alto desempenho e da excelência. A pressão para alcançar sucesso acadêmico, profissional, estético e social afeta crianças, adolescentes e adultos. A busca constante por resultados pode gerar sentimentos de inadequação e aumentar os níveis de ansiedade, especialmente entre jovens que ainda estão construindo sua identidade e sua relação com o mundo.

Especialistas apontam que a combinação entre uso intensivo de telas, superproteção familiar, dificuldades de socialização e pressão por desempenho contribui para o aumento da vulnerabilidade emocional entre adolescentes. Embora as redes sociais sejam frequentemente apontadas como protagonistas desse processo, outros fatores entram nessa equação. Como formas de educar, proteger e preparar crianças e adolescentes para lidar com frustrações e desafios.

O desafio de construir caminhos possíveis

Diante do crescimento dos indicadores de sofrimento psíquico, especialistas defendem a necessidade de fortalecer vínculos, promover espaços de escuta e ampliar oportunidades. Dessa maneira, crianças e adolescentes experimentam emoções, desenvolvem autonomia e constroem um repertório para enfrentar as adversidades da vida.

Mais do que identificar problemas, o desafio está em criar condições para que as novas gerações possam desenvolver resiliência emocional. E assim, estabelecer relações saudáveis e encontrar formas de lidar com situações adversas do cotidiano com apoio, afeto e pertencimento.

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Adolescentes crescem com pouca experiência em enfrentar contrariedades e administrar emoções difíceis.

Formas de educar, proteger e preparar crianças e adolescentes para lidar com frustrações e desafios devem surgir em casa e na escola.