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É o algoritmo quem dita a referência de masculinidade dos meninos

Publicado em: 06/04/2026
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Na adolescência, meninos e meninas precisam de boas referências. É a partir do espelhamento que irão construir suas identidades. A afirmação pode parecer óbvia, mas estamos esquecendo do óbvio? Cantoras pop, por exemplo, tornaram-se referência de feminino para meninas da Geração Alpha. Mas quais são as referências de masculino para os meninos?

Ao buscá-las na internet, pedindo ajuda a agentes de IA, encontramos algumas respostas: “Não existe hoje uma grande massa de criadores homens com discurso consciente estruturado sobre gênero. O que existe são bolhas, tendências e perfis híbridos”. Então, passamos a buscar perfis que os adolescentes pudessem seguir e admirar, dessa vez, entrando nos perfis dos próprios meninos.

Entre uma enxurrada de perfis de homens machistas, que perpetuam uma masculinidade completamente conservadora e inadequada ao mundo, aqueles que incitam a misoginia com perfis denominados “red pill”, nos deparamos com uma realidade. A dificuldade de meninos adolescentes encontrarem boas referências masculinas.

Meninos estão crescendo imersos num ambiente digital que oferece um volume ilimitado de informações, mas pouca mediação sobre o que significa ser homem em um mundo que exige novas formas de relação, especialmente com as mulheres. Nesse cenário, não é exagero dizer que a formação masculina passou a ser terceirizada, em grande medida, pelo algoritmo.

Conteúdos viralizados em redes sociais propagam discursos da machosfera

O algoritmo não está comprometido com valores como respeito e empatia, mas com engajamento. Ele amplifica o alcance daquilo que prende a atenção de meninos adolescentes, a exemplo de conteúdos misóginos e machistas reproduzidos por um ecossistema digital denominado “machosfera”. Nele, influenciadores e comunidades reforçam a ideia de que homens estão em desvantagem social, que mulheres não são sujeitos de direitos e que todas as relações são, essencialmente, disputas de poder.

Em 2026, pesquisas dimensionam esse fenômeno. Um relatório da organização canadense White Ribbon, em parceria com a Angus Reid Group, aponta que 95% dos educadores do país afirmam que os meninos estão expostos a conteúdos misóginos online, enquanto a maioria  desses professores relata não ter ferramentas para lidar com essa questão em sala de aula.

No Reino Unido, um levantamento feito pela organização Hope Not Hate indica que cerca de metade dos jovens entre 16 e 24 anos já foi exposta, nas redes sociais, a influenciadores com discursos de ódio às mulheres. E que o consumo desse tipo de conteúdo não acontece de forma isolada.

Segundo dados do Institute for Strategic Dialogue, conteúdos produzidos e disseminados pela machosfera operam em uma lógica de “escada de radicalização”. Primeiro, são divulgados temas aparentemente inofensivos – como autoestima, sedução ou desenvolvimento pessoal. Em seguida, narrativas de ressentimento, desconfiança e hostilidade em relação às mulheres evoluem gradualmente.

Por isso, em um ambiente digital guiado por algoritmos, a progressão de discursos preconceituosos não é acidental. Ela é incentivada por modelos de recomendação que privilegiam conteúdos mais polarizadores e emocionalmente carregados. O resultado é um ecossistema em que inseguranças comuns da adolescência – como rejeição, frustração e sensação de inadequação – são capturadas e transformadas em discursos simplificadores.

Uma resposta simplista para os dilemas enfrentados pelos meninos

Em vez de ampliar repertórios, os conteúdos digitais oferecem respostas rápidas: “o problema não está em você, mas nas mulheres” e “não é preciso compreender, mas dominar”. É justamente essa dinâmica que aparece no documentário Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera(2026), da plataforma Netflix, ao expor como jovens são progressivamente capturados por essas narrativas enviesadas.

O que começa como uma orientação sobre “como se dar bem com mulheres”, transforma-se em uma visão de mundo que naturaliza a objetificação, relativiza o consentimento e reforça a ideia de que a masculinidade precisa ser constantemente provada. Com isso, o documentário questiona esse tipo de conteúdo considerado “entretenimento”, como prejudicial à socialização.

Para além do problema que mora no teor dos perfis da machosfera está o vazio que ocupa o outro lado. Faltam referências masculinas jovens, acessíveis e consistentes para oferecer outras possibilidades de construção de identidade aos meninos. Faltam homens falando de emoção sem ironia, de vulnerabilidade sem constrangimento, de respeito às mulheres como ponto de partida, de saúde emocional.

Como aponta o sociólogo Michael Kimmel, um dos principais estudiosos das masculinidades, “a raiva que atravessa muitos jovens não nasce do excesso de poder, mas de expectativas frustradas sobre o que significa ser homem”. Em um mundo onde os papéis tradicionais estão sendo questionados, e novos modelos ainda não se consolidaram, muitos meninos ficam à deriva e acabam encontrando nas respostas simplificadas da machosfera uma sensação de pertencimento.

Momento crítico para a formação de masculinidade saudável

A adolescência é um período de intensa construção de identidade. Nela, o olhar do outro e a validação do grupo ganham um peso central. Meninos aprendem a ser homens observando outros homens. Porém, quando as referências disponíveis reforçam padrões de superioridade, insistência e objetificação, esses elementos tendem a ser incorporados como norma.

Não se trata de demonizar a internet ou as redes sociais, mas reconhecer que hoje a formação dos adolescentes acontece em um ambiente muito disputado. Como lembra o educador Jackson Katz: “a violência contra mulheres não é apenas uma questão de mulheres, mas um problema de homens e, portanto, precisa ser tratada também como uma questão de formação masculina”.

Ou seja, não basta controlar ou proibir o conteúdo consumido pelos meninos. É preciso participar desse processo. De que maneira? Conhecer o que eles estão consumindo, escutar, perguntar, tensionar e ajudar a desenvolver uma leitura crítica sobre tais conteúdos. Porque, na ausência de uma mediação, a interpretação fica por conta de quem produz o conteúdo e de um algoritmo que recompensa exatamente aquilo que mais simplifica e radicaliza.

A pergunta que muitos pais fazem – “quem meu filho deveria seguir?” –, talvez seja apenas o início de uma reflexão mais profunda. Mais importante do que indicar nomes é entender que, hoje, a formação masculina acontece em um território fragmentado, acelerado e altamente influenciado por dinâmicas digitais. Por isso, é urgente ocupar esses espaços para oferecer novas referências e possibilidades de masculinidade.

AMPLIFICA ESSA

Meninos buscam referências de masculinidade no ambiente digital, mas são bombardeados por conteúdos misóginos e machistas.

É urgente o controle e a mediação desse conteúdo para que jovens não reproduzam discursos de ódio e violência contra as mulheres.