Sociedade e Comportamento

Bullying se torna a principal causa de sofrimento emocional entre adolescentes

Publicado em: 23/09/2024
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Alerta: este texto trata de temas como suicídio, sofrimento psíquico e transtornos mentais. Se você precisa de ajuda ou conhece alguém que está precisando, busque ajuda nos contatos ao final deste artigo.

Uma das violências que mais causa sofrimento emocional entre adolescentes é o bullying. É na escola, lugar de socialização e aprendizagem, que essa violência tem ocupado cada vez mais espaço. Nos últimos anos, o bullying, em suas diversas formas, tem se intensificado e foi apontado por especialistas como gatilho para casos de suícidio.

Embora ele figure entre as principais causas de sofrimento emocional entre adolescentes, especialistas alertam que atribuir exclusivamente às escolas a responsabilidade por casos de sofrimento psíquico grave ou suicídio significa simplificar um problema complexo.

Racismo, desigualdade de gênero, entre outros problemas estruturais da sociedade corroboram a violência dentro e fora do ambiente escolar. Somam-se ainda a fragilidade das redes de apoio e a falta de suporte emocional adequado como responsáveis pelo aumento da vulnerabilidade de adolescentes e jovens.

Tensões que aumentam a vulnerabilidade de adolescentes

Segundo estudos do Ministério da Saúde, realizados no período de 2010 a 2019, as mortes por suicídio entre adolescentes de 15 a 19 anos passaram de 606 para 1.022 por 100 mil habitantes. Os mais vulneráveis são meninos negros e os números continuam a crescer.

Enquanto dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública(2023), publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, confirmam que o número de suicídios no Brasil em 2022 aumentou 11,8% em relação a 2021. No total, foram registrados 16.262 casos, representando uma média de 44 suicídios por dia.

Ainda que muitos fatores sejam responsáveis por essas estatísticas, a escola se tornou um espaço crítico para tensões e violências fazerem eco. Neste ambiente, o bullying se manifesta presencialmente e no campo virtual, exercendo uma grande pressão sobre os jovens. Além disso, o isolamento e a alienação social que muitos adolescentes experimentam nas escolas agravam a situação.

Diferentes abordagens para diferentes contextos

Se por um lado a escola é o ambiente onde as tensões entre crianças e adolescentes costumam aparecer, por outro lado é neste espaço que essas tensões devem ser trabalhadas. Na cidade de São Paulo, a diretora pedagógica do Colégio Magno, Cláudia Viegas Tricate Malta, descreve o ambiente escolar como um espaço onde os conflitos precisam ser mediados com cuidado e sensibilidade.

“Quando trabalhamos com pessoas, as medidas, estratégias e atitudes não seguem um padrão. As crianças são diferentes, as famílias são diferentes e as situações, da mesma forma. Todo e qualquer conflito deve ser mediado de acordo com o contexto”, pondera. Isso mostra que as escolas precisam, segundo a diretora, adotar abordagens flexíveis para atender as necessidades individuais dos alunos.

Portanto, o bullying deve ser compreendido como parte de um conjunto mais amplo de fatores que afeta a saúde mental dos adolescentes. Isso quer dizer que ele exige respostas articuladas entre família, escola, educadores, serviços de saúde e sociedade.

O bullying dentro e fora das redes

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), jovens que enfrentam bullying com frequência têm quatro vezes mais chance de desenvolver pensamentos suicidas. E com o aumento do tempo de uso das redes sociais, o cyberbullying intensifica esse sofrimento, ampliando o alcance das agressões para além dos muros da escola.

A diretora pedagógica Cláudia Malta ressalta que vivemos em um momento de confusão sobre o que caracteriza bullying e cyberbullying. “Nada pode ser banalizado e nem caracterizado de forma irresponsável. Enfrentamos uma crise causada pelo excesso de informação”, alerta. Para a diretora, esse contexto prejudica uma ação eficaz por parte das instituições.

Para enfrentar o bullying e outros tipos de violência, escolas como o Colégio Magno articulam ações individuais e coletivas, focadas na reflexão e no diálogo com os adolescentes. Para isso, a diretora acredita que providências imediatas devem ser costuradas por muita reflexão e diálogo. Caso contrário, os mesmos casos podem voltar a acontecer. “O objetivo é tratar os sintomas, atacando as causas. Isto é, criar um ambiente onde os alunos possam desenvolver empatia e respeito pelos colegas”, explica Malta.

Mas para que essas ações sejam, de fato, eficazes, especialistas recomendam uma prática essencial: criar espaços de escuta. Dessa forma, adolescentes podem expressar seus sentimentos sem temor de represálias.

Como lidar com o efeito de contágio?

Outro ponto fundamental é envolver profissionais de saúde mental capacitados para identificar e intervir precocemente em situações de risco. Isso porque outro aspecto preocupante é o chamado “efeito de contágio”, nos ambientes escolares. Esse quadro acontece quando um jovem tira a própria vida e outros adolescentes da mesma comunidade escolar podem ser impactados a ponto de cogitar a mesma ação.

“Para evitar esse ciclo trágico, valorizamos a importância da prevenção, ou seja, ações de suporte e assistência para os alunos afetados pelo suicídio de um colega”, explica a diretora.  Cláudia Malta também adverte: “se a escola falha em lidar adequadamente com esse impacto, novos casos podem ocorrer”.

Ou seja, o ambiente escolar reflete conflitos e tensões presentes na sociedade e nas relações familiares, que podem impactar diretamente na saúde mental de crianças e adolescentes. E quando não enfrentados, esses conflitos podem se manifestar de maneira trágica.

Criar espaços de acolhimento, escuta e diálogo

Por isso, o papel das escolas é fundamental e estratégico. Iniciativas de prevenção do sofrimento psíquico, ao oferecer suporte emocional, devem se somar a ações consistentes de enfrentamento ao bullying. Além disso, é essencial a criação de espaços de escuta, acolhimento e diálogo.

Cláudia Malta reforça ainda a importância de uma abordagem contextualizada para cada situação vivenciada pelos alunos na escola. “Todo e qualquer conflito deve ser mediado de acordo com o contexto. O esforço coletivo, envolvendo a família, a comunidade e a escola é essencial para transformar o ambiente escolar em um espaço de acolhimento e segurança emocional para todos os alunos”, resume.

AMPLIFICA ESSA

Bullying e cyberbullying somam-se a tensões sociais afetando a saúde mental de adolescentes.

O papel das escolas é estratégico, como espaço de acolhimento, escuta e diálogo.

Onde buscar ajuda

Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, procure ajuda.

CVV – Centro de Valorização da Vida
Telefone 188 | Atendimento gratuito 24 horas.

Canal Pode Falar (UNICEF)
Escuta especializada para adolescentes e jovens.

CAPS – Centros de Atenção Psicossocial (SUS)
Atendimento em saúde mental para crianças, adolescentes e adultos.

Mapa da Saúde Mental
Rede de serviços gratuitos e orientações sobre saúde mental.