Bullying, exclusão social e cancelamento na adolescência: qual a relação entre eles?
Alerta: este texto trata de temas como suicídio, sofrimento psíquico e transtornos mentais. Se você precisa de ajuda ou conhece alguém que está precisando, busque ajuda nos contatos ao final deste artigo.
“Mãe, vem me buscar, por favor.”
Essas foram as palavras de uma adolescente de 15 anos que, após um confronto com um grupo de colegas durante uma festa, tirou a própria vida. Nos dias que antecederam sua morte, ela havia sido progressivamente isolada pelos amigos e exposta nas redes sociais. A exclusão social vivida após o episódio foi apontada por pessoas próximas como um dos elementos que agravou um sofrimento que já havia se tornado insustentável.
A briga naquela noite foi o desfecho de um processo de exclusão e isolamento que já vinha acontecendo entre colegas da escola. Segundo relatos divulgados à época, a adolescente vinha sendo progressivamente afastada do grupo e exposta nas redes sociais e em grupos de mensagens.
Casos como esse não são frequentes, mas também não são exceções. Eles ajudam a iluminar uma questão que vem preocupando pesquisadores, educadores e profissionais de saúde mental em diferentes partes do mundo: qual é o impacto da exclusão social na vida dos adolescentes?
Pertencer é uma necessidade humana fundamental. Na adolescência, essa necessidade ganha uma intensidade particular. É nesse período da vida que os vínculos com os pares assumem um papel central na construção da identidade, da autoestima e da percepção de si no mundo.
Fazer parte de um grupo, ser aceito, reconhecer-se nas relações com os outros e sentir-se incluído não são aspectos periféricos da adolescência. São experiências estruturantes do desenvolvimento. Se, na infância, o brincar ocupa um lugar central na construção subjetiva, na adolescência as relações sociais passam a desempenhar função semelhante.
Por isso, experiências de rejeição, exclusão social, bullying ou cancelamento não podem ser tratadas como acontecimentos menores. Quando persistentes ou sistemáticas, elas podem produzir impactos profundos na saúde mental dos adolescentes e comprometer o desenvolvimento emocional.
Nas últimas décadas, pesquisadores e profissionais da saúde mental têm chamado atenção para a relação entre pertencimento, sofrimento psíquico e comportamento suicida entre jovens. Embora o suicídio seja um fenômeno complexo e multifatorial, estudos apontam que experiências de violência relacional, humilhação pública e isolamento social podem atuar como importantes fatores de risco.
O pertencimento como condição para o desenvolvimento
A adolescência é um período marcado pela busca de referências fora do núcleo familiar. Os grupos de amigos, as redes de convivência e os espaços coletivos passam a ocupar um lugar fundamental na vida dos jovens.
É por meio dessas relações que adolescentes experimentam reconhecimento, constroem repertórios sociais, validam experiências e elaboram quem são. Pertencer não significa apenas fazer parte de um grupo. Significa sentir-se visto, aceito e reconhecido.
Quando esse pertencimento é rompido ou negado de forma recorrente, as consequências podem ser significativas. O isolamento prolongado tende a afetar a autoestima, aumentar sentimentos de inadequação e fragilizar mecanismos de proteção emocional importantes nessa fase da vida.
O que os dados mostram
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o suicídio está entre as principais causas de morte entre jovens em todo o mundo. No Brasil, os números também preocupam. Segundo levantamento feito pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), milhares de adolescentes perderam a vida por suicídio na última década.
De acordo com a OMS, o suicídio esteve entre as principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos em todo o mundo. No país, aparece entre as principais causas nessa mesma faixa etária, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.
Levantamento feito pela SBP mostra que, entre 2012 e 2021, o país registrou 9.954 mortes por suicídio ou lesões autoprovocadas entre jovens de 10 a 19 anos. Desses, a maior parte desses casos ocorreu entre adolescentes de 15 a 19 anos.
Para compreender esses números, é importante lembrar que o suicídio é um fenômeno complexo. A decisão de tirar a própria vida envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais, além de elementos como cultura, religião, contexto familiar e condições socioeconômicas. Além disso, o Ministério da Saúde aponta outros fatores frequentemente associados ao sofrimento intenso e ao comportamento suicida. São eles: violência física ou emocional, bullying, cyberbullying e exclusão social.
Quando a exclusão se transforma em violência
Nem toda exclusão é bullying. Mas toda exclusão sistemática produz efeitos. O bullying caracteriza-se por comportamentos repetitivos de intimidação, humilhação ou agressão, marcados por uma relação de desequilíbrio de poder. Já a exclusão social pode assumir formas mais silenciosas, como deixar alguém de fora, ignorar sua presença, retirar espaços de pertencimento ou romper vínculos coletivamente.
Embora menos visível, essa violência relacional pode ser igualmente devastadora. Para a médica Karen Scavacini, especialista em saúde mental e fundadora do Instituto Vita Alere, a sensação de pertencimento a um grupo é essencial para o bem-estar emocional dos jovens.
“Quando um adolescente se sente rejeitado ou excluído, isso pode levar ao aumento da ansiedade, depressão e pensamentos suicidas, especialmente quando combinado com outros fatores de risco”, afirma.
Um estudo conduzido pela Universidade de Oxford acompanhou mais de 12 mil adolescentes em cinco países, entre 2009 e 2017. Entre as conclusões da pesquisa destaca-se o fato de que jovens que vivenciaram exclusão social ou bullying tinham 3,5 vezes mais chances de desenvolver sintomas depressivos severos quando comparados àqueles que se sentiam incluídos em seus grupos sociais.
O cancelamento na era digital
As redes sociais transformaram a forma como adolescentes se relacionam, constroem reputações e vivenciam o pertencimento. Se antes, conflitos e constrangimentos ficavam restritos aos espaços físicos de convivência, hoje eles podem ganhar escala, permanência e visibilidade pública.
Nesse contexto, o cancelamento assume características particularmente preocupantes. A exposição coletiva, os julgamentos públicos e a rápida disseminação de ataques podem ampliar sentimentos de vergonha, isolamento e desesperança.
Segundo levantamento de 2022, realizado pelo Pew Research Center, grande parte dos adolescentes relata já ter sofrido algum tipo de violência online. Para muitos deles, o impacto emocional dessas experiências é profundo e duradouro. Aproximadamente 6 em cada 10 jovens nos Estados Unidos já sofreram cyberbullying ou assédio.
A American Psychological Association também alerta que a humilhação pública em ambientes digitais tende a permanecer disponível, além de ser compartilhada e revisitada continuamente, o que prolonga os efeitos do sofrimento. Como observa Karen Scavacini: “Quando um jovem é ‘cancelado’ publicamente, isso pode desencadear um sentimento de não pertencimento em larga escala, que acaba se estendendo para todas as áreas de sua vida, aumentando os sentimentos de solidão e desesperança”.
O papel da escola e da família
A prevenção da violência entre adolescentes exige uma atuação articulada entre família, escola e sociedade. Mudanças abruptas de comportamento, isolamento, perda de interesse por atividades anteriormente prazerosas, alterações de sono e queda no rendimento escolar podem sinalizar sofrimento emocional e merecem atenção. Criar ambientes seguros para a expressão dos sentimentos, fortalecer vínculos e desenvolver estratégias permanentes de convivência são medidas fundamentais.
A legislação brasileira já reconhece a gravidade do problema. A Lei nº 13.185/2015 instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying) e reforçou o papel das escolas na prevenção, identificação e enfrentamento dessas situações. No entanto, os desafios permanecem. Pesquisas recentes mostram que muitas redes de ensino no país ainda apresentam dificuldades para estruturar políticas permanentes de convivência, monitoramento e enfrentamento das violências escolares.
Uma responsabilidade coletiva
O bullying hoje faz parte do cotidiano escolar e garantir a criação de campanhas sistemáticas de prevenção e enfrentamento também deveria estar no cotidiano das escolas. E isso cabe à responsabilidade constitucional das instituições de ensino e do compromisso coletivo com a proteção de crianças e adolescentes.
Por isso, é fundamental capacitar docentes e colaboradores sobre essa questão, uma vez que eles podem identificar os atores envolvidos: vítimas, agressores e testemunhas. Também é essencial capacitar os próprios estudantes para que compreendam o que é bullying, reconheçam seus impactos e possam se fortalecer como coletivo escolar na construção de um ambiente acolhedor para todos.
Na prática, das 196 secretarias estaduais e municipais de educação nas cinco regiões do país, apenas metade está “parcialmente estruturada” para gerir o clima e a convivência no ambiente escolar, considerando questões de equidade de gênero e raça. Isso significa que 89 pastas (45,7%) possuem algumas iniciativas voltadas para questões como violência, bullying e racismo, mas ainda não alcançaram o nível máximo de estruturação. E somente oito redes (4,1%) foram classificadas como “muito estruturadas”.
Esses dados são da pesquisa Gestão das redes de ensino e clima escolar: mapeamento das ações e uma proposta de matriz avaliativa sensível à equidade, desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisa em Desigualdades Escolares da Universidade Federal de Minas Gerais (Nupede/UFMG). Publicado em 2024, o estudo analisou políticas e intervenções relacionadas à melhoria do clima escolar implementadas por secretarias estaduais e municipais de educação.
O levantamento ainda mostra que as estratégias de comunicação entre escolas e secretarias para a identificação, intervenção e monitoramento de situações que afetam o clima escolar são pouco desenvolvidas. Apesar da frequência de redes que afirmam investir na formação continuada de docentes, poucas desenvolveram planos de convivência ou incluíram a questão do clima escolar em documentos como o Projeto Político-Pedagógico.
Ainda que o país apresente obstáculos desafiadores, a pesquisa revela um cenário promissor. Isso porque os órgãos gestores têm discutido cada vez mais sobre o tema do clima escolar e da convivência sob a perspectiva pedagógica e das relações interpessoais. Sendo assim, pode estar em curso uma mudança para impactar positivamente a vida de milhões de estudantes.
Talvez esse seja um dos maiores desafios da contemporaneidade educacional, por isso envolver toda a escola e seus diversos setores e pares para construir um novo caminho é a solução mais assertiva. Do contrário, vamos continuar perdendo adolescentes para dados e estatísticas de violência e suicídio no Brasil.
AMPLIFICA ESSA
O bullying não começa quando alguém é humilhado. Ele começa quando uma comunidade aprende que pertencer significa excluir alguém.
Enfrentar o bullying é muito mais do que combater uma violência: é aprender a construir vínculos e convivência.
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, procure ajuda.
CVV – Centro de Valorização da Vida
Telefone 188 | Atendimento gratuito 24 horas.
Canal Pode Falar (UNICEF)
Escuta especializada para adolescentes e jovens.
CAPS – Centros de Atenção Psicossocial (SUS)
Atendimento em saúde mental para crianças, adolescentes e adultos.
Mapa da Saúde Mental
Rede de serviços gratuitos e orientações sobre saúde mental.