Autoestima: “eu só queria me sentir seguro com a minha imagem”, diz adolescente
“Não sei se eu quero ser aquele filtro. Queria me sentir seguro com a minha imagem”. A frase de João Pedro abre o primeiro vídeo de uma sequência que fala sobre a construção da autoestima na juventude, produzida pela Fundação José Luiz Egydio Setúbal. A série Crises na Adolescência, disponível no YouTube, tem como objetivo discutir algumas entre tantas questões dessa fase da vida – e a autoestima é uma delas.
Afinal, a autoestima é um aspecto fundamental da saúde mental de uma pessoa. Ela se refere à avaliação que alguém faz de si e da sua capacidade para lidar com os desafios da vida. Traduzindo esse conceito para o cotidiano, até para o aspecto mais mundano da palavra, autoestima tem a ver com nossa capacidade de se olhar no espelho e se sentir bem, bonito, confiante.
Achar-se o máximo ou bom o suficiente para existir no mundo, encarar milhões de outros olhares e não se abalar. Mas que isso é possível? Ao longo da história da humanidade, diferentes padrões estéticos foram estabelecidos provocando a inclusão de uns e a exclusão de outros. E esses determinantes a serem seguidos pela sociedade mostraram-se capazes de abalar a autoconfiança de todo indivíduo.
Impermanentes, padrões estéticos se atualizam década após década. No entanto, a impressão é de que vivemos uma eterna não-aceitação, que culmina em uma relação conflituosa com a imagem real e aquela observada na frente do espelho. Quem consegue olhar para seu reflexo e não encontrar defeitos? Ou ser capaz de se elogiar em vez de buscar o que gostaria de mudar na aparência?
Experimente recordar sua adolescência e lembrar esse momento de auto-observação. É nesta fase que meninos e meninas começam uma relação mais consciente com a própria imagem refletida no espelho. É durante este exercício diário de se perceber e de se conhecer, que a autoestima vai sendo construída e fortalecida.
Eu sou mais do que só um corpo
Outra jovem da série Crises na Adolescência, Ana Beatriz fala que na infância, gostava muito de se olhar no espelho. Mas esse hábito mudou quando ela entrou na adolescência. “Diziam que eu tava muito magra, ou diziam que eu tava gordinha e eu acabei desenvolvendo um transtorno alimentar porque eu sempre achava que meu corpo não era bom”, relata.
A autoestima não é totalmente construída ou pautada por padrões de beleza. Ainda que o peso de “ser bonito” seja grande, há uma série de fatores que trabalham a favor, ou contra, desse olhar positivo de si. Não é fácil se achar bonita, quando se tem um nariz supostamente “torto” ou “de batata”. Ou mesmo quando se tem uma pele “cheia” de acne, um corpo mais “redondinho”, cabelos encaracolados “demais”.
Nas plataformas digitais, o tempo de exposição a imagens, vídeos e influenciadores que ditam um padrão de beleza é ainda maior do que há 20 ou 30 anos, quando apenas revistas, televisão e cinema poderiam afetar a autoestima. Em um contexto de telas, a aceitação da autoimagem é ainda mais complexa.
“Eu sou mais do que só um corpo”, diz Giovanna, outra adolescente que participou da série, ao falar sobre autoestima. No entanto, ela reforça: “Nunca apareceria assim na internet, sem filtros. É uma coisa para se pensar, não sei por que, mas não tenho coragem”.
Quando a mídia também alerta sobre a influência das telas
Em abril de 2023, a marca de higiene pessoal Dove lançou um filme chamado O Custo da Beleza, que conta a história de uma garota estadunidense que vivia bem até seus 14 anos, quando ganha um celular de aniversário. Como quase todo adolescente, a menina cria uma conta nas redes sociais e passou a dedicar mais tempo às telas. De maneira gradual e assustadora, essa menina passa a desenvolver questões relacionadas à saúde mental.
Primeiro, ela deixa de sair com as amigas, passa a ficar mais tempo na cama do quarto, olha-se constantemente no espelho e se acha feia, começa a fazer dieta, come quase nada por se achar gorda, até o dia em que ela vai parar no hospital. A adolescente desenvolveu um transtorno alimentar: anorexia.
Baseada em um caso real, a história dessa jovem não é exceção. Isso acontece com milhares de meninas e também meninos ao longo da adolescência. Por isso, é preciso falar do impacto das redes sociais na construção da autoimagem quando se fala em autoestima.
No Brasil, a pesquisa Dove Pela Autoestima, realizada pela empresa em dezembro de 2020, revelou que 35% das 503 meninas entrevistadas já se sentiram “menos bonitas” ao verem fotos de influenciadores e celebridades nas redes sociais. O levantamento também mostrou que 84% das jovens brasileiras com 13 anos já aplicaram filtro ou usaram aplicativo para mudar a própria imagem em fotos.
Regulamentação em resposta à distorção da realidade
Em 2023, a França aprovou um projeto de lei que regulamenta a atividade de influenciadores digitais no país, proibindo a promoção de produtos ou serviços considerados de risco, como tratamentos estéticos. Na Noruega e em Israel, já existem leis que obrigam fotos e vídeos a serem rotulados quando tiverem filtros aplicados. Por quê?
O grande problema dos filtros é que eles projetam padrões irreais, portanto, inatingíveis de beleza. Ou seja, se hoje os ideias já se mostram inalcançáveis – e dependem de uma série de intervenções estéticas cirúrgicas –, os filtros ampliam os critérios a serem alcançados. É como se elevar à máxima potência uma meta, e isso torna o processo de aceitação da própria imagem mais doloroso e difícil.
“Eu nunca postei uma foto assim, natural”, conta João Pedro. “Eu não sei se eu quero ser aquele filtro. Mas eu uso só pra esconder um pouco do que tá me incomodando no momento. Às vezes me sinto até culpado de colocar um filtro no meu rosto. Não queria fazer isso. Eu queria mostrar a minha acne. Queria me sentir seguro com a minha imagem”, desabafa.
O sentimento ambíguo do adolescente, entre a importância de usar o filtro para esconder a acne e a culpa por ter que recorrer à ferramenta, revela a necessidade de segurança com a autoimagem. “O problema é que as redes sociais passam a existir como uma vitrine para corpos ‘perfeitos’, peles impecáveis e uma vida aparentemente glamourosa, o que faz com que a gente passe a se sentir inadequado”, acrescenta João Pedro.
O resultado de tudo isso é uma distorção da realidade. O que deveria ser saudável e natural no processo de adolescer passa a ser penoso e cruel. Por isso, conversar com adolescentes e jovens sobre como se sentem ainda é a melhor saída para enfrentar o problema. Além disso, aprender a usar as redes sociais e se relacionar dentro desses ambientes é fundamental.
Quando existe um pensamento crítico a respeito da influência que determinados conteúdos podem exercer sobre a autoestima, todos damos um passo para estabelecer outro tipo de relação com as redes sociais. Sentir-se bem consigo é essencial para a saúde mental do ser humano. O desafio não é simples, mas é possível. Afinal, é bonito ser quem a gente é.
AMPLIFICA ESSA
Adolescentes desenvolvem problemas de saúde mental relacionados à autoimagem, agravados pelo tempo de uso de telas.
Filtros, padrões estéticos e conteúdos de influenciadores nas redes sociais acendem um alerta para o perigo de distorção da realidade.