Políticas Públicas e Garantia de Direitos

Adolescência no Brasil: o país cortou orçamento e a sociedade cortou afeto

Publicado em: 27/04/2026
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O que acontece quando um país não investe em políticas públicas voltadas à adolescência? Em 2026, foi divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), que entrevistou em 2024, aproximadamente, 120 mil adolescentes com idades entre 13 e 17 anos, em mais de quatro mil escolas brasileiras. Os resultados revelam um cenário preocupante. Meninas e meninos são atravessados por uma combinação de fatores: diferentes tipos de violência, sofrimento psíquico, humilhação, desigualdade material e exposição precoce a riscos.

De acordo com dados da PeNSE 2026, 26% das estudantes sofreram algum tipo de violência sexual, número que cresceu quase 6% desde 2019. Quase metade das meninas entre 13 e 17 anos (43,4%) relatou ter sentido vontade de se machucar de propósito. E uma em cada quatro delas considera que a vida não vale a pena ser vivida. Além disso, 121 mil meninas dessa faixa etária já engravidaram, quase 40% não usou camisinha na primeira relação sexual. Soma-se ainda 15,3% de meninas que já faltaram à escola por não ter absorvente higiênico.

O bullying também cresceu: 27,2% dos estudantes relataram tê-lo sofrido, e os motivos revelam como a sociedade pune um adolescente em formação: aparência do rosto e cabelo (30,2%), corpo (24,7%), cor ou raça (10,6%), entre outros fatores, como jeito de falar, religião, gênero e orientação sexual. Além disso, o uso do cigarro eletrônico quase dobrou entre jovens de 13 a 17 anos, passando de 16,8% para 29,6%. E  mais da metade deles já experimentou bebidas alcoólicas.

Diante deste contexto, o IBGE sinaliza que o Brasil tem falhado em garantir proteção, dignidade, saúde e pertencimento a meninos e meninas adolescentes. E essa postura provoca sequelas evidenciadas em números. Quando um país falha nos cuidados com essa geração, isso também revela uma falha de toda a sociedade, que ainda coloca a adolescência em segundo plano.

Afinal, aprende-se a associar essa fase da vida apenas a problemas e conflitos. Sob essa ótica, adultos se afastam dos adolescentes em vez de se aproximarem. Ao contrário da infância, que é celebrada, fotografada e admirada, a adolescência é tolerada.

Adolescência enfrenta negligências ao redor do mundo

No Brasil, estima-se que uma em cada seis meninas e meninos entre 10 e 19 anos viva com algum transtorno mental. E essa parcela encontra-se mais exposta ao risco de automutilações, depressão e suicídio, segundo a UNICEF. Mas esse quadro não é uma exclusividade do país.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que pelo menos um em cada sete adolescentes no mundo sofre de algum transtorno mental. Sendo que a ansiedade e a depressão são condições que prevalecem, de acordo com dados publicados pelo Journal of Adolescent Health, em 2024. Importante destacar que metade de todas as condições de saúde mental começa aos 14 anos, só que a maioria dos casos não é diagnosticada nem tratada, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS).

Relatório da OMS aponta que o suicídio é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo, atrás apenas de acidentes de trânsito. Entre meninas de 15 a 19 anos, o suicídio também é a segunda causa de morte, atrás apenas de complicações na gravidez. Mesmo diante desse cenário, o sofrimento adolescente continua sendo tratado como “exagero”, “fase” e até mesmo “frescura”.

Como o ambiente escolar deveria proteger

A escola aparece nos dados da PeNSE 2026 tanto como lugar de aprendizagem, quanto de dor. O bullying dispara entre os adolescentes. O alvo pode ser o corpo que não atende a determinados padrões estéticos, a raça, o sotaque, a identidade. Dessa forma, esse espaço que deveria ser proteção e pertencimento torna-se, muitas vezes, palco de uma humilhação sistemática.

No entanto, a responsabilidade não cabe apenas às instituições de ensino. O bullying é o reflexo de uma cultura alimentada por diferentes espaços. Pesquisas sobre representações sociais da adolescência mostram que os meios de comunicação predominam em leituras que destacam aspectos negativos dessa fase da vida, segundo estudo publicado na Biblioteca em Saúde do Ministério da Saúde. Já a produção acadêmica cria uma imagem bem mais favorável e complexa da adolescência.

Fato é que a sociedade aprendeu a olhar para o adolescente como problema antes de olhá-lo com curiosidade. Há também, um cenário político, econômico e cultural complexo experimentado pelos adolescentes. Tanto que desigualdades sociais e econômicas, guerras e crise climática são algumas das ameaças ao bem-estar psíquico das populações, de acordo com o Relatório Mundial de Saúde Mental da OMS, publicado em 2022.

Somados, todos esses elementos geram uma instabilidade emocional e explicam o avanço do álcool e do cigarro eletrônico como mecanismos de fuga entre os jovens, por exemplo. Um contexto que dificulta a capacidade de sonhar e projetar futuros.

Por isso, as múltiplas crises da atualidade também funcionam como catalisadoras do aumento do índice de automutilação entre jovens. Perdem-se a esperança e o valor da própria vida no presente, alimentadas pela incerteza no futuro.

Mesmo assim, o sofrimento do adolescente ainda é considerado um caso isolado e individual. Como se não fosse produto de um ecossistema criado pelos adultos. Por isso, uma questão urgente a ser levada ao debate público é: qual o investimento do Estado em políticas públicas destinadas a essa faixa etária?

Dados pedem políticas públicas, orçamento e prioridade

Relatório do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), publicado em 2025, mostra que o investimento federal em políticas públicas voltadas à infância e adolescência representa apenas 4,37% de todo o orçamento executado pela União. E esse número vem caindo: o Gasto Social com Crianças e Adolescentes recuou de R$265,9 bilhões em 2023 para R$240,2 bilhões em 2025, uma queda de 9,6% em dois anos.

O relatório ainda aponta que a maior parte dos recursos do governo federal continua concentrada em transferência de renda. Isso quer dizer que 45% do valor destinado para infância e adolescência vem do Bolsa Família. Ainda que seja essencial para famílias em situação de pobreza receberem essa transferência de renda, ela não substitui investimento em saúde mental nas escolas, em proteção contra violência, em educação sexual, em cultura, esporte e presença adulta qualificada.

Por isso, o relatório do Inesc ressalta que transferências de renda devem ser acompanhadas por investimentos robustos em educação, saúde, cultura e prevenção das violências. No entanto, esta não é a realidade. A exemplo da execução de políticas de enfrentamento às violências – justamente o tema mais urgente evidenciado pela PeNSE 2026 –, descrita pelo documento como baixa e limitada.

Isso quer dizer que acompanhamos um crescimento dos índices de problemas vivenciados pela adolescência, ao passo que constatamos cortes no orçamento federal para enfrentá-lo. Diante desse diagnóstico, se quisermos cuidar e preservar a adolescência, precisaremos ler as entrelinhas das estatísticas. O que está em jogo não é só o presente da adolescência, mas qual sociedade estamos construindo enquanto meninos e meninas crescem com medo, vergonha, dor e desamparo.

Falta afeto para cuidarmos da adolescência nesse país? Orçamento? Presença? Faz-se urgente uma mudança coletiva de postura, que começa pelo interesse e curiosidade pela adolescência. Também é preciso admirar quem esses seres humanos estão se tornando, com toda a complexidade, intensidade e beleza que essa fase carrega. Dados pedem orçamento e políticas públicas, mas também pedem uma mudança de comportamento.

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O sofrimento dos adolescentes ainda é considerado um caso isolado e individual. Como se não fosse produto de um ecossistema criado pelos adultos.

Dados pedem orçamento e políticas públicas, mas também pedem uma mudança de comportamento da sociedade.