Sociedade e Comportamento

Adolescência é um grande tabu

Publicado em: 07/02/2022
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Quando o assunto é adolescência, costuma ser fácil elencar uma série de problemas. Mau humor, excesso de telas, distanciamento, portas batidas, respostas atravessadas, quartos bagunçados, conflitos familiares. Uma lista que parece inesgotável.

É comum ouvir que adolescentes se tornaram irreconhecíveis. Aquela criança que outro dia brincava pela casa desapareceu. Agora, vivem trancados no quarto, passam horas no celular, respondem com monossílabos e parecem habitar um mundo paralelo. Mas será que a adolescência pode ser resumida a isso?

Será que precisamos falar dessa etapa da vida sempre a partir daquilo que incomoda os adultos? Toda conversa sobre adolescência precisa começar pelos problemas? Fato é: a adolescência se tornou um grande tabu. E talvez seja importante começar a quebrá-lo.

Não apenas pelo bem dos adolescentes, mas também pelo bem das famílias, das escolas e da própria sociedade. Passar cerca de uma década descrevendo adolescentes apenas a partir de seus conflitos produz um efeito perverso. Deixamos de enxergar quem eles são para enxergar apenas aquilo que nos desafia.

Adolescentes não são chatos. Ainda que muitos adultos afirmem não reconhecer mais aquela criança que existia poucos anos atrás. Mas ela continua ali, só mudou de tamanho, de interesses, de linguagem e de referências. O corpo mudou. As amizades mudaram. A forma de se relacionar com o mundo também. Mas continua sendo a mesma pessoa em processo de crescimento.

Educar continua dando trabalho. E isso não muda quando os filhos crescem. Mesmo com mais autonomia, adolescentes ainda precisam de contorno, presença, afeto e limites. Precisam de adultos que consigam sustentar vínculos justamente quando a relação se torna mais complexa. E isso só é possível quando existe aceitação.

O problema não é a adolescência

Talvez um dos maiores desafios da convivência com adolescentes seja justamente abandonar a ideia de que eles deveriam continuar sendo aquilo que foram na infância. Do ponto de vista do desenvolvimento, a adolescência é um período marcado por profundas transformações físicas, emocionais, cognitivas e sociais.

É a fase em que surgem novas capacidades de pensamento, argumentação e reflexão crítica. Também é o momento em que emoções ganham intensidade e em que o pertencimento ao grupo passa a ocupar um papel central.

Adolescentes sabem argumentar, rebater falas de pais e mães, dizer o que pensam com veemência. Mas ainda têm poucos recursos internos para lidar com a intensidade dos próprios sentimentos e emoções.

É daí que vêm muitas das oscilações de humor que costumam desafiar a convivência cotidiana. E existe uma explicação científica para isso. Aquela sensação de que “uma hora ele está uma graça comigo e cinco minutos depois parece que quer me matar” não é exagero dos adultos. O problema é que o adolescente ainda não dispõe de todo o repertório emocional e neurológico necessário para regular aquilo que sente.

Não é um defeito, mas desenvolvimento humano

Do ponto de vista do desenvolvimento, a adolescência é um período de profunda reorganização do cérebro. O córtex pré-frontal – região responsável pelo planejamento, julgamento, antecipação de consequências e controle de impulsos – é uma das últimas áreas a amadurecer. Já os sistemas ligados à emoção, recompensa e busca por novidades estão funcionando a todo vapor.

O resultado é um descompasso que ajuda a explicar boa parte da experiência adolescente: emoções intensas, mais sensibilidade ao novo, maior necessidade de pertencimento e, ao mesmo tempo, ferramentas ainda em construção para lidar com tudo isso.

Compreender esse processo não elimina os desafios da convivência, mas muda a forma como os enxergamos. E aquilo que não é fácil para pais, mães, avós e responsáveis também está longe de ser simples para os adolescentes.

A diferença é que os adultos possuem mais repertório emocional, experiência e recursos para lidar com frustrações, conflitos e contradições. Adolescentes ainda estão construindo essas ferramentas. Por isso, a responsabilidade pela qualidade da relação continua sendo, sobretudo, dos adultos.

A conversa que os adultos abandonam

A cultura contemporânea está cheia de conteúdos que descrevem adolescentes como “difíceis”, “problemáticos” ou “insuportáveis”. Há uma enorme quantidade de textos dedicados a listar tudo aquilo que eles fazem de errado. Muito menos espaço é dedicado a discutir como os adultos podem aprender a se relacionar com adolescentes.

Talvez a pergunta mais importante seja: como construir relações que continuem existindo durante a adolescência? Isso exige disponibilidade. A mesma que costumamos oferecer quando uma criança pequena precisa de colo, atenção ou ajuda para compreender o mundo.

Ser pai, mãe ou responsável por um adolescente continua exigindo presença. Não a presença que controla cada passo, mas a presença que sustenta o vínculo. Aquela que continua ali, mesmo quando o adolescente parece distante, fechado ou pouco interessado.

A idade da ilha

Existe uma tendência em diferentes culturas de desistir simbolicamente dos adolescentes. Como se, ao entrarem na chamada “idade da ilha”, eles deixassem de precisar de proximidade, afeto e investimento emocional. A brincadeira revela esse enredo: leve o adolescente para uma ilha distante e busque por ele dez anos depois. Mas ninguém floresce sob uma chuva permanente de críticas.

A gente costuma despencar uma lista de reclamações sobre adolescentes. E quem, com tanto dedo apontado, vai responder sorrindo e sendo gentil? O maior desafio da convivência com adolescentes talvez esteja na disposição de construir uma conversa possível com alguém que está mudando muito rapidamente. E essa conversa pode acontecer.

Outras formas de dar colo

O acolhimento pode acontecer quando um adulto demonstra interesse genuíno pelas músicas que o adolescente escuta. Quando assiste à série que ele gosta. Quando reconhece talentos que não aparecem no boletim escolar. Quando elogia uma qualidade sem transformá-la imediatamente em cobrança.

Adolescentes não precisam apenas ser corrigidos. Precisam também ser reconhecidos. E reconhecer um adolescente é aceitar que ele cresceu, desenvolveu opiniões próprias, construiu novos interesses e nem sempre demonstrará afeto da mesma forma que fazia na infância. Ainda assim, ele continua precisando de vínculo.

Qual foi a última vez que você deu colo para seu adolescente? Não vale responder que ele não deseja porque existem muitas formas de dar colo. Às vezes, o colo está ao escutar sem interromper. Ao elogiar alguém que ele admira e demonstrar interesse por algo que parece banal aos olhos adultos, mas que é importante para ele. Às vezes, o colo está simplesmente no fato de se mostrar disponível.

A adolescência é um grande tabu e só será diferente quando conseguirmos falar a respeito para além dos seus conflitos. Falar com menos estereótipos, menos medo, menos nostalgia da criança que existiu. Falar com curiosidade sobre a pessoa que está surgindo.

Afinal, a qualidade da convivência entre adolescentes e adultos não depende apenas deles. Depende, também, da nossa capacidade de escutar, reconhecer e permanecer presentes. No final das contas, somos os adultos da relação.

AMPLIFICA ESSA

Adolescentes não são chatos. Eles precisam de presença, afeto e limites. Precisam de adultos que consigam sustentar vínculos.

É preciso uma mudança na concepção e nas práticas dessa fase da vida para falar sobre ela com menos estereótipos, medo e nostalgia.