Adolescência e quarto bagunçado: entenda o que eles têm em comum e como você pode ajudar
Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.
Toalha no chão, copos em todas as partes, gavetas desarrumadas. Na adolescência, é comum observar que meninos e meninas costumam deixar seus quartos um tanto quanto bagunçados. Mas será que existe uma explicação para isso?
Alguns arriscam responder que esse comportamento é resultado da falta limites, rigidez excessiva ou falta de regras claras entre pais e responsáveis e os adolescentes. Na verdade, é preciso abandonar julgamentos e examinar com cuidado essa questão.
Não faz muito tempo que esse adolescente foi uma criança que teve, na maioria das vezes, suas roupas e objetos organizados pelos pais. Por mais que meninos e meninas tenham ouvido instruções sobre organização, os adultos estavam sempre ali para cuidar e ajudar a criança na arrumação das suas coisas. No entanto, na adolescência, as orientações repetidas pelos pais começam a perder lugar para o desejo de fazer as coisas de outra maneira, quer dizer, à sua maneira. E o quarto é o primeiro espaço da casa que os adolescentes podem chamar de seu.
Ao analisar a classe média brasileira, é possível notar que na adolescência é comum conquistar o “quarto próprio”. Irmãos, muitas vezes, ganham diferentes espaços, por uma necessidade de privacidade e intimidade. É a partir desse momento, que o adolescente decide o que fazer ali, como decorá-lo, mudar móveis de lugar e até guardar as roupas seguindo os próprios critérios.
O resultado? A bagunça do quarto costuma ser um dos principais motivos para conflitos entre adolescentes e seus responsáveis. Nessa hora, os pais entram em cena e cobram uma “organização” diferente. Mas, como arrumar? Do jeito do adolescente ou do jeito dos pais?
Especialistas ressaltam que o modo como os jovens organizam seus quartos nem sempre corresponderá aos padrões esperados pelos adultos. E isso não significa, necessariamente, desleixo ou falta de cuidado.
(Des)organizar para se expressar
A desorganização do adolescente é normal. Muitas vezes, o quarto faz sentido para quem o ocupa, ainda que pareça caótico para quem olha de fora. Isso não elimina a importância de ensinar responsabilidades quanto à organização, higiene, conservação dos objetos e ao cuidado com o ambiente. A questão está na diferença entre orientar o adolescente a desenvolver essas competências e simplesmente impor que siga uma lógica de organização que não lhe pertence. Inclusive, a “desorganização” pode ser positiva.
Pela lente da psicanálise, essa desordem é uma forma encontrada pelo adolescente de manifestar suas complexidades internas. É dessa maneira que ele expressa suas emoções. Olhar para a arrumação ou bagunça do quarto do adolescente é uma oportunidade para compreender o que está acontecendo com ele internamente, no campo das emoções.
Tendo em vista esse aspecto, a psicóloga estadunidense Susan David explica em seu livro Agilidade Emocional (2018) que as alterações hormonais da adolescência influenciam consideravelmente nas mudanças comportamentais e emocionais nesta fase. Por sua vez, quando os adolescentes enfrentam níveis elevados de estresse, isso impacta na escolha do que é prioridade para eles.
De acordo com dados de uma pesquisa realizada em 2006 pela psicóloga e pediatra Mônica Valentim, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu (SP), entre os adolescentes entrevistados na época, 70% afirmaram ter mais disposição para namorar e sair com amigos do que para arrumar o próprio quarto, por exemplo. Sendo assim, a psicóloga constatou que a adolescência é uma fase que demanda uma quantidade de energia elevada que, frequentemente, é direcionada a atividades percebidas como “mais agradáveis”.
Espaço para autonomia e senso de responsabilidade
Mais do que uma questão de limpeza ou estética, a organização do quarto pode ser uma oportunidade para que adolescentes desenvolvam autonomia e senso de responsabilidade. Muitos estudos reforçam a importância da autonomia no desenvolvimento dessa fase da vida.
Em artigo publicado em 2020 na plataforma de dados científicos PubMed, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, o fortalecimento da autonomia emocional está associado ao exercício da responsabilidade, ao desenvolvimento do pensamento crítico e à capacidade de fazer escolhas mais conscientes.
É essa autonomia que contribui para o desenvolvimento da resiliência, de acordo com o professor de psicologia e neurociência do Boston College, Peter Gray, em artigo publicado no Journal of Pediatrics, em 2023. Aliás, essa resiliência é que vai ajudar os adolescentes a lidar melhor com as dificuldades da vida.
Ou seja, a independência é essencial para o desenvolvimento cognitivo desses jovens. E no caso de famílias que não estimulam tal competência, Peter Gray observa o risco de aumento dos casos de transtornos mentais em adolescentes, entre outros fatores.
Algum lugar no meio do caminho
É importante que pais e filhos possam chegar a um acordo sobre a arrumação. Encontrar um meio termo que funcione bem para todos em casa. Até porque um ambiente constantemente desorganizado gera estresse e ansiedade, mas também prejudica o foco e a concentração dos jovens, segundo pesquisa de 2016, da Universidade de New South Wales, na Austrália.
Adotar atitudes que estimulem a autonomia com responsabilidade e abrir espaço para conversas sobre motivações pessoais são passos importantes para construir uma relação mais saudável e aberta com os adolescentes. Afinal, a bagunça no quarto do adolescente pode ser uma oportunidade para compreender as lições que estão por trás desse “caos”.
AMPLIFICA ESSA
A desorganização do quarto do adolescente é normal.
No seu próprio espaço da casa, meninos e meninas sentem segurança para se expressar e manifestar seus sentimentos.