Saúde Mental e Bem-Estar

‘A vida é mais sofrida na adolescência’, dizem os especialistas

Publicado em: 27/03/2023
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Na maioria das vezes, a sociedade tende a rotular os adolescentes como “exagerados”. Como se tudo fosse um drama na vida deles. Uma fase na qual os sofrimentos parecem mais intensos e mais fortes. E a impressão que esses jovens têm é de que o mundo pode desabar a qualquer momento.

Em um grupo de apoio materno nas redes sociais, uma mãe pergunta se uma delas também tem um filho em casa dando trabalho por conta de uma decepção amorosa. Ela esperava que outras se identificassem com seu caso. Precisa saber o que poderia fazer ao ver como o filho ficou chateado depois que a menina que gostava começou a namorar outro garoto.

Outras mães se manifestaram reconhecendo os próprios filhos em casos semelhantes e dividindo uma percepção em comum: o adolescente sofre numa intensidade maior, principalmente quando comparado a um adulto. Mas existe uma explicação científica para esse comportamento.

Uma montanha-russa de emoções diariamente

A professora Sabine Pompéia, do departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), confirma: “A vida é mais sofrida na adolescência”. A especialista conta que mesmo que os eventos pelos quais o adolescente passa sejam mais difíceis, eles são mais sofridos pela forma como o corpo e a mente percebem certos acontecimentos.

Na fase da adolescência, a carga hormonal do corpo se intensifica e o cérebro pode demorar um pouco mais de tempo para se ajustar a essa nova configuração. Além disso, as partes do sistema neurológico responsáveis por fazer o controle das emoções ainda não estão totalmente desenvolvidas. Inclusive, esse processo pode até ultrapassar os 19 anos – idade em que a adolescência tecnicamente termina, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Outra explicação está relacionada à pouca experiência de vida do adolescente para lidar com certas situações, como é o caso de uma decepção amorosa. “O menu de experiências anteriores do adolescente é muito menor. Ele não tem muita cancha nem muitas alternativas de como lidar com suas emoções”, esclarece Pompéia.

Ou seja, o adolescente é um sujeito de muitas emoções, porém, com  baixa capacidade de regulação das mesmas. “Fica esse ‘vai e vem’ muito forte e em conjunto com outras levam a mais emoções intensas, tanto boas quanto ruins”, resume a professora da Unifesp.

O médico Mauro Victor de Medeiros, do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), lembra que, em relação ao adulto, o adolescente tem um “controle da balança decisória” menor. Por isso, ele toma decisões impulsivas com mais frequência do que uma pessoa mais velha.

Transformações no corpo e despedida da infância

A professora Leila Salomão, do Instituto de Psicologia da USP, acrescenta ao quadro oscilante das emoções, o fato de que o adolescente sofre três grandes perdas do que tinha na infância e a primeira delas é a dos pais, que não são mais os mesmos. Isso acontece porque nessa fase, meninos e meninas são extremamente criticados pelos pais, afastando-os da imagem e da relação que tinham no período da infância.

Em seguida, o adolescente vivencia a transformação de um corpo tal qual estava acostumado, uma vez que puberdade marca o fim da condição infantil. Nesse momento, o adolescente está mais livre do que quando criança, mas ele ainda tem limitações que um adulto não tem. Tudo isso se apresenta em um nível de consciência, mas o adolescente ainda tem poucos recursos para lidar com essa nova configuração.

Então, será que é possível dizer que qualquer sofrimento que atravessa um adolescente já é esperado para essa idade? Se está dentro das “tendências naturais”, seria o caso de tolerar todas essas manifestações de sofrimento? A resposta é “sim” e “não”.

Por um lado, passar por experiências mais sofridas faz parte da adolescência. Inclusive, essa vivência pode garantir o desenvolvimento individual. Afinal, ao passar por determinadas situações, o adolescente enriquecerá seu repertório de experiências.

Isso não dispensa a presença de uma rede de apoio, composta por família, escola e amigos. “As sensações do adolescente não são exageradas, mas há uma maior dramaticidade, porque é difícil mesmo, pela própria imaturidade. São os adultos que precisam estar juntos, sem julgar e sem criticar”, orienta Leila Salomão.

“No processo de desenvolvimento normal, a rede de interação do adolescente é fundamental para ajudá-lo a construir aprendizado e repertório. Ele vai aprender a lidar com as situações usando como modelo os professores, os próprios amigos e a família”, acrescenta o médico Mauro Victor de Medeiros.

Nem toda irritação, choro ou silêncio é natural

Parte desse cuidado também significa estar atento aos sinais de que esse sofrimento pode ser algo mais profundo. Em um cenário em que os casos de depressão na adolescência aumentam, principalmente pós pandemia, os especialistas dão pistas para identificar indícios de que o sofrimento experimentado pelo adolescente pode ser um indicativo de depressão.

Na busca pela própria identidade, é normal que o adolescente apresente respostas incompletas, mas que sejam próprias para determinadas situações. A professora Cristina Carneiro, coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa na Infância e Adolescência Contemporâneas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alerta para quando essa busca apontar para a impotência, desistência e paralisia.

“’Como esse sofrimento está afetando a vida do adolescente?’; ‘Como vai a escolarização, o grupo de amigos, os momentos de lazer?’. Essas são questões que a família pode observar. Se um sofrimento maior persiste e ganha terreno, uma ajuda especializada pode ser necessária”, explica a professora da UFRJ.

Alertas que provam ser de grande importância, considerando a última Pesquisa Nacional de Saúde Escolar de 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento mostrou que 40,9% dos escolares brasileiros de 13 a 17 anos sentem-se irritados, nervosos ou mal-humorados na maioria das vezes ou sempre.

Por isso, o médico Mauro Victor aponta outros três aspectos que devem ser considerados pelos pais. O primeiro é quando as oscilações de humor duram mais de duas semanas, sendo marcadas, principalmente, por tristeza, irritação, desinteresse, falta de motivação e de prazer na maior parte dos dias. Segundo, quando adolescente manifesta pensamentos negativos sobre si, sobre o corpo, sobre características psicológicas ou sobre a realidade.

O terceiro indício se dá quando há as chamadas “alterações vegetativas”, marcadas por alterações no apetite, no sono e na concentração. “Todos esses sinais mostram que a tristeza não é normal e que a falta de vontade pode estar associada ao sintoma depressivo”, adverte o médico. Especialistas também destacam a tendência da automutilação como alerta.

Adolescentes não devem ser tratados como adultos

Outro ponto que entra nessa equação é o alinhamento de expectativas da família. Isto é, por mais que o adolescente “pareça” um adulto – até fisicamente, em alguns casos – ele não é. Ou seja, não faz sentido que os pais esperem dos filhos que estão nessa fase da vida um comportamento de adulto para lidar com determinadas situações. Pelo contrário.

É papel dos mais velhos estar aberto para o diálogo e tratar com mais respeito e empatia a verdadeira carga emocional que o adolescente carrega. “Se o adulto entende que aquilo é normal e está disposto e aberto para dar esse apoio, ajuda muito”, afirma a professora da Unifesp Sabine Pompéia.

AMPLIFICA ESSA

Adolescentes não são adultos.

O turbilhão de sentimentos experimentados na adolescência é um processo natural, mas deve ser observado e cuidado por uma rede de apoio.