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A moda da melatonina: entenda por que seu filho não precisa dela

Publicado em: 08/04/2024
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Nos Estados Unidos é comum encontrar em farmácias uma gôndola inteira para os diversos tipos de melatonina, suplemento hormonal utilizado para induzir o sono. Em gotas, pastilhas, bala de goma, estilo gummy bear ou em pílulas. Para adultos, adolescentes ou crianças, existe um mundo de melatoninas à disposição.

Com embalagens que usam códigos do universo infantil, como ursinhos de pelúcia e letras garrafais de “zzz”, elas atraem crianças que acham que o medicamento é uma espécie de “balinha”. Afinal, a indústria farmacêutica também oferece melatonina em diferentes sabores. E é aí que mora o problema: o uso indiscriminado de uma substância, que vende a percepção de não fazer mal. Consumidores pensam que ela é inofensiva ao organismo por ser comercializada livremente, em embalagens atraentes.

Tanto que, naquele país, o consumo de melatonina está chegando a faixas etárias cada vez mais jovens: 18% das crianças entre 5 e 9 anos utilizam esse hormônio como auxílio ao sono, segundo estudo da Universidade do Colorado Boulder (2023). A pesquisa também mostrou que 1 em cada 5 crianças com até 14 anos já fazem uso dele regularmente. Em resposta, a Academia Americana de Medicina do Sono (AAMS) emitiu um alerta de saúde sobre o uso desenfreado da melatonina por jovens.

Consumo de diferentes doses do hormônio do sono

No Brasil, especialistas também percebem o aumento do consumo. Em 2023, a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a fabricação e venda do hormônio visando o público infantojuvenil, permitido, somente, para pessoas acima dos 19 anos. Porém, a melatonina é vendida nas farmácias, disfarçada entre outras substâncias. Em doses menores, anunciam a promessa de uma boa noite de sono.

Hormônio produzido pela glândula pineal no centro do cérebro, a melatonina é responsável por regular nosso relógio biológico. É durante a noite, no sono, que ela é produzida e liberada. Consumida em excesso, ela traz riscos à saúde. A pediatra Ana Escobar vê o crescente uso de melatonina por crianças e adolescentes diretamente relacionada ao contexto de hipermedicalização da sociedade. Em vez de ter o “trabalho” de regular o ciclo do sono dos filhos ou enfrentar noites em claro, alguns pais preferem a melatonina.

Vendido como suplemento em farmácias, ela dispensa prescrição médica, o que facilita o consumo. “Não adianta tentar provocar o sono com medicamentos artificiais. Esse sono nunca vai ser profundo, real e, de fato, reparador. O sono é essencial para isso”, explica a pediatra.

Crianças podem fazer uso de melatonina?

A Associação Americana de Medicina do Sono (AASM) recomenda que os pais procurem um médico antes de darem melatonina para seus filhos. Apesar de ser administrada em crianças com diagnóstico de autismo, especialistas alertam para os riscos de administrar melatonina em todo e qualquer caso. Dados do Centro de Controle de Doenças (EUA) mostram que o número de crianças que ingeriram involuntariamente o suplemento saltou 530% entre 2012 e 2021, sendo que mais de 4 mil casos resultaram em internação hospitalar.

Segundo especialistas, não há indicações de uso de melatonina para crianças menores de três anos. Até essa idade e em crianças saudáveis, o Hospital Infantil de Boston, nos Estados Unidos, apontou que dificuldades em entrar no sono se devem a fatores comportamentais. Portanto, a indicação seria regular o sono naturalmente. Para crianças entre três e cinco anos, pode haver indicação com variação na dosagem, mas um pediatra deve ser consultado previamente.
Apesar de não ter mostrado fatalidades, o uso excessivo da melatonina por crianças pode ter efeitos colaterais. Isso inclui: cansaço, náusea, tontura e irritabilidade, segundo a pediatra Ana Escobar. “O que seria mais importante é a pessoa fazer uma higiene do sono e liberar sua melatonina naturalmente. Isso é o que seria realmente melhor para garantir um descanso maior”, orienta.

A importância da higiene do sono

Quando a melatonina é recomendada como medicação, ela costuma ser administrada por pessoas que trabalham em turnos noturnos ou para adaptação de fuso-horário. Já em crianças e adolescentes, a indicação é de que problemas do sono sejam corrigidos de forma orgânica e natural, sem medicalização com a substância.

A pediatra Ana Escobar explica aos pais que, diante de problemas do sono observados nos filhos, eles devem avaliar dois fatores. O primeiro é a rotina dos próprios pais, que podem chegar tarde em casa e realizar atividades com os filhos perto da hora ideal de dormir. “Alguns pais querem brincar com filhos na hora que chegam e fazer brincadeiras que levam a muita atividade e aumentam a adrenalina das crianças. Até todo mundo relaxar e dormir, demora”, explica Escobar, autora do livro Meu filho tá online demais (2024).

O segundo fator é o uso de dispositivos digitais. A luz azul, tipicamente emitida por smartphones e laptops, por exemplo, inibe a liberação de melatonina. Como muitos jovens usam seus celulares minutos antes de ir para a cama, eles sentem ainda mais dificuldade em pegar no sono. Em resposta, a pediatra indica a higiene do sono. Delimitar bem os horários de jantar, lazer e estudo são algumas recomendações.

“As crianças precisam de rotina. A maioria das crianças com distúrbios do sono tem a rotina do dia muito precária. Isso vai se acumulando e leva a um estresse muito grande, que gera ansiedade e essa ansiedade também piora muito a qualidade do sono. É um ciclo que a gente tem que romper”, conclui a especialista.

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Uso de melatonina por crianças e adolescentes está diretamente relacionada ao contexto de hipermedicalização da sociedade.

A luz azul emitida por smartphones e laptops inibe a liberação de melatonina. Como muitos jovens usam seus celulares antes de ir para a cama, eles sentem ainda mais dificuldade em dormir. Em resposta, especialistas indicam a higiene do sono.