Gênero, Corpo e Relações

94% das meninas de baixa renda não sabem o que é pobreza menstrual

Publicado em: 27/09/2021
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Você sabe o que é pobreza menstrual? Conceito que reúne em duas palavras um fenômeno complexo, transdisciplinar e multidimensional, a pobreza menstrual é caracterizada pela falta de acesso a recursos, infraestrutura e conhecimento para que uma pessoa tenha plena capacidade de cuidar da sua menstruação. Ainda hoje é comum o desconhecimento desse tema e, quando existe conhecimento, há a percepção de que ele não faz parte da realidade brasileira.

Dados de um estudo feito pelo Instituto Kyra, encomendado pela Sempre Livre (marca de cuidados íntimos da Johnson & Johnson Consumer Health), divulgados em 2021, mostram que 94% das mulheres de baixa renda entrevistadas não sabem o que é pobreza menstrual. E isso já demonstra que elas não têm acesso às informações necessárias para nomear e compreender a condição que experimentam.

A pobreza menstrual vai muito além da falta de dinheiro para comprar produtos de higiene menstrual adequados. Ela se refere a inúmeros desafios de acesso a direitos e insumos de saúde. Desafios que representam – para meninas, mulheres, homens trans e pessoas não binárias que menstruam – acesso desigual a direitos e oportunidades. Um cenário que retroalimenta ciclos transgeracionais de inequidades de gênero, raça e classe social, além de impactar negativamente a trajetória educacional e profissional de quem menstrua.

Problema atinge majoritariamente adolescentes e jovens

Segundo levantamento do Instituto Kyra, 28% das meninas e mulheres são afetadas pela pobreza menstrual, ou seja, aproximadamente 11,3 milhões de brasileiras. Deste total, 30% conhece alguém que também sofre da mesma situação, e 40% dessas mulheres têm entre 14 e 24 anos. Ou seja, esse problema atinge, sobretudo, adolescentes e jovens.

São meninas que deixam de ir à escola, ao trabalho, ao médico e a outras atividades porque não têm um absorvente higiênico. Item que deveria ser essencial e acessível no cotidiano de todas aquelas pessoas que que menstruam. “Parece óbvio, mas infelizmente ainda não é: quando pessoas que menstruam não conseguem comprar absorventes, acabam utilizando materiais como panos e jornais para segurar o sangue. Materiais não higiênicos são extremamente perigosos à saúde”, alerta Amanda Sadalla, co-fundadora da Serenas, organização não-governamental dedicada aos direitos de meninas e mulheres.

Amanda Sadalla tem acompanhado diariamente rodas de conversa com adolescentes sobre educação menstrual e observa grandes obstáculos. “Fica claro que a falta de absorventes é um desafio vivido por muitas. Quando comento sobre a possibilidade de receberem absorventes gratuitamente, os olhos delas brilham”, conta.

Entre as consequências diretas da falta de acesso a recursos adequados no período menstrual, especialistas alertam para a possibilidade do desenvolvimento de doenças e problemas vaginais. De 2020 a 2021, 28% das 814 mulheres entrevistadas pela pesquisa do Instituto Kyra, apresentaram infecção urinária ou cistite. Enquanto 24% foi diagnosticada com candidíase, 11% com infecção vaginal por fungo e 7% com infecção vaginal por bactéria.

Para a realização de diagnósticos e tratamento, essas mulheres precisam de atendimento hospitalar pelo Serviço Único de Saúde (SUS). Na maioria das vezes, são orientadas a tomar medicamentos e fazer uso de pomadas internas. Mas a falta de um item essencial, que deveria ser garantido como direito, compromete esse quadro: água potável para higiene.

Direitos comprometidos em contexto de pobreza menstrual

Relatório publicado em maio de 2021, pela UNICEF e pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), chama atenção para essa situação no Brasil, onde crianças e adolescentes que menstruam têm seus direitos à escola de qualidade, à moradia digna e à saúde violados. Da mesma forma, não são garantidos os direitos à água potável, ao saneamento e à higiene nos territórios onde vivem.

Segundo dados desse relatório, estima-se que, no país, de um total de 1,24 milhões de meninas, 11,6% não têm acesso a papel higiênico nos banheiros das escolas onde estudam. Dessas, 66,1% são pretas/pardas. Além disso, de um total de 713 mil meninas não têm banheiros em seus domicílios, e 88,7% delas – mais de 632 mil meninas – vivem sem acesso a sequer um banheiro de uso comum no terreno ou na propriedade onde moram.

Uma menina que vive sem acesso a um banheiro tem um gasto médio de R$32 no período menstrual. Duas entre 10 têm dificuldade para comprar absorvente, segundo a pesquisa encomendada pela Sempre Livre. Além disso, 21% declara ter dificuldade para comprar produtos de menstruação mensalmente, e 18% afirma: “menstruar é uma das maiores dificuldades em minha vida; não tenho condições financeiras para me cuidar como se deve nesse período”.

Segundo Cristina Santiago, diretora de Marketing da Johnson & Johnson Consumer Health, área responsável pelo estudo, a marca reconhece seu papel neste cenário e fala da importância de liderar conversas sobre o tema e garantir produtos de saúde para esse público. Tanto que, no primeiro semestre de 2021, doou cerca de 400 mil absorventes à UNICEF. E ao longo daquele ano, distribuiu kits de higiene menstrual para mais de seis mil adolescentes no Brasil.

O projeto da Sempre Livre contempla, ainda, iniciativas para continuar levando educação, informação e acesso a produtos. “Como estamos na maior empresa de saúde do mundo, falar sobre saúde íntima como um todo é essencial para que as pessoas que menstruam entendam o funcionamento do próprio corpo”, ressalta Cristina Santiago.

Pesquisas e ações sociais miram políticas públicas

Diante de um cenário de pobreza menstrual, pesquisas realizadas por universidades, empresas, terceiro setor e organismos internacionais são muito importantes. O levantamento de dados e análises sobre dignidade menstrual e saúde íntima em diferentes contextos possibilitam iniciativas em todas as esferas. Informações capazes de fundamentar a criação de projetos de leis encaminhados ao Congresso, no qual poderão ganhar força e relevância enquanto política pública.

Em 2021, o Senado aprovou o Projeto de Lei 4968/2019, que prevê a distribuição gratuita de absorventes higiênicos femininos e outros cuidados básicos de saúde menstrual para: estudantes de baixa renda de escolas da rede pública de ensino, mulheres em situação de vulnerabilidade, mulheres apreendidas e presidiárias e mulheres internadas em unidades para cumprimento de medida socioeducativa.

Um avanço que só foi possível porque sociedade civil, organizações e empresas apontaram para a emergência dessa condição experimentada por mais de 11 milhões de mulheres brasileiras. Uma conquista significativa. Mas a distribuição de absorventes não é suficiente. Ainda é necessário políticas públicas que garantam a educação de meninas e meninos para questões que envolvem o corpo e suas relações.

“As pessoas têm o direito de aprender como seus corpos funcionam, por que a menstruação acontece, como se proteger de infecções, como realizar a higiene de maneira correta, o que são os hormônios e as oscilações de humor ao longo do ciclo”, enfatiza Amanda Sadalla da ONG Serenas. E os meninos também precisam aprender sobre esse tema. “É por meio da educação que desconstruiremos preconceitos que reforçam ideias negativas sobre a menstruação, o corpo e a saúde física e mental da mulher”, resume.

AMPLIFICA ESSA

Meninas e mulheres deixam de ir à escola, ao trabalho, ao médico e a outras atividades porque não têm um absorvente higiênico.

A Lei 4968/2019 representa um avanço no enfrentamento à pobreza menstrual, com a distribuição de absorventes higiênicos.